domingo, 14 de setembro de 2014

Adagiário da caça

  
 A Família Real Portuguesa em Queluz (1876). Joseph-Fortuné Séraphin Layraud
(1834-1912). Óleo sobre tela (325 x 251 cm). Palácio Nacional da Ajuda, Lisboa.
Da esquerda para a direita, D. Maria Pia (1847-1911), o Infante D. Afonso
(1865-1911),  o Príncipe Real D. Carlos (1863-1908) e o Rei D. Luís I (1838-1889).
  
De acordo com o Génesis, o primeiro livro da Bíblia, Adão e Eva foram expulsos do Jardim do Éden, pelo que por necessidade de sobreviver, Adão terá sido o primeiro caçador. Diz-nos a antropologia que de facto, foi a necessidade de sobreviver que levou o homem primitivo a caçar, isto é, a perseguir outras espécies animais, com a finalidade de os abater e consumir na alimentação.
É abundante o adagiário português referente a caça. O actor principal da caça é o caçador:
- A cabeça é do caçador.
- A caça da ria em Fevereiro caga para o espingardeiro.
- A caça é uma imagem da guerra.
- A caça só sai aos inocentes. 
- A caçar e a comer, não te fies no prazer.
- À porta de caçador, nunca grande monturo.
- Caça, guerra e amores, por um prazer cem dores.
- Caça, guerra e amores, por um prazer muitas dores.
- Caçar e comer, começo quer.
- Cada um caça e coça.
- De má mata, nunca boa caça.
- De uma fraca toca sai um bicho bom.
- Diminui a pólvora em Setembro e faze, em Outubro, o contrário.
- Duma fraca toca nasce um bicho bom.
- Em caça e amores, por um prazer, cem dores.
- Em tempo de caça e de guerra, mentira como terra.
- Enquanto não é tempo de muda, caçai comigo aos perdigotos.
- Enquanto uns batem o mato, os outros apanham a caça.
- Fome de caçador, sede de pescador.
- Guerra, caça e amores, por um prazer, cem dores.
- Guerra, caça e amores, por um prazer, mil dores.
- Ir à caça sem espingarda.
- Ir à guerra, nem caçar, não se deve aconselhar.
- Mal haja o caçador doido, que gasta a vida com um pássaro.
- Mau caçador, bom mentidor.
- Mentiras de caçadores são as maiores.
- Não caça do coração senão o dono do furão.
- Não é regra certa, caçar com besta.
- Nem boa moça na praça, nem homem rico por caça.
- Ninguém caça do coração como o dono do furão.
- No amor e na caça, começa-se quando se quer e acaba-se quando se pode.
- O caçador de lebres tem que ser coxo.
- Para caçador novo, cão velho.
- Para caçar, calar.
- Porfia mata caça.
- Porfia mata veado e não besteiro cansado.
- Prestes tem a mentira, caçador que mal atira.
- Quando se atira o tiro, é que se apanha o coelho.
- Quem caça de coração é o dono do furão.
- Quem caça e acha não é desgraça.
- Quem caça uma arvela, é mais fino que ela.
- Quem caça, vá à praça.
- Quem em caça, guerra e amores se mete, não sairá quando quiser.
- Quem em caça, política, guerra e amores se meter, não sairá quando quiser.
- Quem não acha o que caça, pega no que acha.
- Quem não pega o que caça, pega no que acha.
- Quem porfia, mata caça.
- Quem quer caça diz xó.
- Quem quer caça vai à praça.
- Quem quer caçar, não diz xó.
- Quem quiser caça, vá á praça.
- Quem vai à caça, perde a graça.
- Quem vai caçar, perde o lugar.
- Quem vai em caça, perde o que não acha.
- Quem, à toa, o tiro acerta, não se gabe de mão certa.
- Se caçares, não te gabes; e, se não caçares, não te enfades.
- Se esta cotovia mato, três me faltam para quatro.
- Sede de caçador, e fome de pescador.
- Um sabor tem cada caça, mas o porco cento alcança.
- Uma vez é da caça, outra do caçador.
Na caça, o homem pode ser auxiliado por animais como o cão:
- A galgo velho deita-lhe a lebre e não coelho. 
- Alentejanos, algarvios e cães de caça, é tudo a mesma raça.
- Algarvios, burros brancos e cães de caça, são todos da mesma raça.
- Bom cão de caça, até à morte dá ao rabo.
- Bom rafeiro caça o ano inteiro.
- Cachorro amarrado não caça.
- Cão azeiteiro, nunca bom coelheiro.
- Cão bom caça por instinto.
- Cão de boa raça, até à morte caça.
- Cão de boa raça, se não caça hoje, amanhã caça.
- Cão de caça puxa à raça.
- Cão de caça sai à raça.
- Cão de caça vem de raça.      
- Cão de caça, caça bem.
- Cão de raça, caça.
- Cão que muito ladra, nunca bom para a caça.
- De casta lhe vem ao galgo ter o rabo longo.
- Em Dezembro, a uma lebre galgos cento. 
- Em Janeiro, nem galgo lebreiro, nem açor perdigueiro. 
- Enquanto mija o cão, vai-se o lobo.
- Galgo que muitas lebres levanta, nenhuma mata. 
- Galgo varzino, ou muito velhaco ou muito mofino.
- Galgo, comprá-lo e não creá-Io.
- Metes os cães à mata e arredas-te para fora.
- Metes os cães à moita, arredaste-a fora.
- Mulher e cachorro de caça, escolhe-se pela raça.
- Mulher e cão de caça, procura-os pela raça.
- Mulher, cavalo e cachorro de caça, se escolhe pela raça.
- Não crie cão quem lhe não sobeje pão.
- O bom cão caça por raça.
- O bom cão de caça até à morte dá ao rabo.
- O galgo, à larga, lebre mata.
- O que é de raça, caça.
- Para caçador novo, cão velho.
- Quem não tem cachorro, caça com gato.
- Quem não tem cachorro, caça com gato; quem não tem gato bota pé no mato.
- Quem não tem cachorro, caça com gato; quem não tem penico, caga no mato.
- Quem não tem cão caça com gato.
- Quem quer um bom cão de caça, escolhe a raça.
- Se queres bons cães de caça busca-lhes a raça.
- Se queres cão de caça, procura-o pela raça.
Pode também ser auxiliado por animais como o furão:
- Andar com furão morto à caça.
- Não caça do coração senão o dono do furão.
- Ninguém caça do coração como o dono do furão.
- O dono do furão caça do coração.
- Quem caça de coração é o dono do furão.
- Só caça de coração o dono do furão.
Pode igualmente ser auxiliado por aves de rapina como o falcão, o açor e o gavião, usados na caça de altanaria:
- Do gavião maneiro se faz o çafaro; e do çafaro o maneiro, segundo a têmpora do cetreiro.
- Em Janeiro, nem galgo lebreiro, nem açor perdigueiro. 
- Gavião temporão, Santa Marinha na mão.
- Inda que a garça voe alta, o falcão a mata.
- Nunca bom gavião de francelho, que vem à mão.
- O açor e o falcão, na mão.
- O açor e o falcão, na mão.
Há adágiário específico de determinadas espécies cinegéticas:
Arvela:
- Quem caça uma arvela, é mais fino que ela.
Codorniz:
- Das aves, boa é a perdiz, mas melhor a codorniz.
Coelho:
- A coelho ido, conselho vindo.
- A galgo velho deita-lhe a lebre e não coelho.
- A lebre é de quem a levanta e o coelho de quem o mata. 
- Antes coelho magro no mato que gordo no prato.
- Ao coelho ido, conselho vindo.
- Cada coelho a seu santo.
- Coelho duma cama só, morre depressa.
- Com este cajado mataste já outro coelho.  
- De onde não se espera salta um coelho.
- De uma má moita pode sair um bom coelho.
- Depois de fugir o coelho, todos dão conselho.
- Depois de fugir o coelho, toma o vilão conselho.
- Deste mato não sai coelho.
- Não é mato donde saia coelho.
- O coelho, onde se cria; a lebre, onde amanhece o dia.
- Quando se atira o tiro, é que se apanha o coelho.
Cotovia:
- Se esta cotovia mato, três me faltam para quatro.
Javali:
- Feriste o javali, deixará quem seguia e tomará a ti.
- Não é no seu fojo que se apanham os javalis.
Lebre:
- A galgo velho deita-lhe a lebre e não coelho.
- A lebre é de quem a levanta e o coelho de quem o mata. 
- Às vezes, corre mais o Demo que a lebre. 
- Em Dezembro, a uma lebre galgos cento. 
- Em Janeiro, nem galgo lebreiro, nem açor perdigueiro. 
- Fazer como a lebre: comer e rodar longe do covil.
- Galgo que muitas lebres levanta, nenhuma mata. 
- Levantas a lebre, para que outrem medre. 
- Não levantes lebre, que outrem leve. 
- Não se caçam lebres tocando tambor.
- O caçador de lebres tem que ser coxo.
- O coelho, onde se cria; a lebre, onde amanhece o dia.
- O galgo, à larga, lebre mata.
- Quem caça veado despreza a lebre.
- Se assim corres como bebes, vamos às lebres.
Lobo :
- Quando o lobo vai por seu pé, não come o que quer.
- Se queres apanhar o lobo, prende-lhe a loba.
Narceja:
- Caça à perdiz com o vento pelo nariz e às narcejas pelas costas o vejas.
Pássaro :
- A pássaro dormente, tarde entra o cevo no ventre.
- A pequeno passarinho, pequeno ninho.
- Mal haja o caçador doido, que gasta a vida com um pássaro,
- Quem pássaro há-de tomar, não o há-de enxotar.
Perdiz:
- A perdiz é perdida, se quente não é comida.
- A perdiz, com a mão no nariz.
- Caça à perdiz com o vento pelo nariz e às narcejas pelas costas o vejas.
- Das aves, boa é a perdiz, mas melhor a codorniz.
- Em Janeiro, nem galgo lebreiro, nem açor perdigueiro. 
- Enquanto não é tempo de muda, caçai comigo aos perdigotos.
- Fevereiro couveiro faz a perdiz ao poleiro: Março, três ou quatro: Abril, cheio está o covil: Maio,
Pombo:
- Tenho-te no laço, pombo torcaz.
Rola:
- Bem sabe a rola em que mão pousa.
Veado:
- Nunca vi veado baleado que não fosse grande e gordo.
- Porfia mata veado e não besteiro cansado.
- Quem caça veado despreza a lebre.
- Veado baleado lodo ele é grande e gordo.
- Veado corre muito mas também morre na cama.