quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Prémio Literário Hernâni Cidade 2012



O presente ensaio foi um dos não premiados no concurso literário referido em epígrafe

A MODELAÇÃO DO HOMEM ATRAVÉS DA LITERATURA
Manuel da Charneca

É impossível abrir um livro sem que ele nos ensine nada.
(Adágio popular)


A Escrita e como resultado dela a Literatura nos seus múltiplos aspectos são instrumentos ao serviço da libertação do Homem. Através delas, o escritor desembaraça-se dos fantasmas que lhe povoam o espírito. Por meio delas, o autor relata o passado, regista o presente e antevê o futuro. Abordagem real ou ficcionada, tanto faz. Nesse sentido, a Escrita e a Literatura constituem também uma forma de catarse.
Todavia, a Escrita e a Literatura não são apenas a expressão do acto de libertação protagonizado pelo seu autor. Elas constituem também um acto de partilha com o leitor, de sentimentos, emoções, ideias, projectos, valores cívicos, morais ou estéticos. A eles o leitor é permeável, pelo que como resultado da sua absorção, assimilação e integração na rede neuronal da sua mente, há uma mudança de paradigma. O leitor dá então um salto qualitativo para outro patamar da sua consciência. A Literatura modela assim o Homem, tal como a partir do barro informe, Deus terá moldado o primeiro Homem.
A Literatura contribui, pois, para o despontar, florescer e amadurecer da espiritualidade humana, processo imparável e irreversível cujas marcas visíveis se traduzem na evolução e aperfeiçoamento do tecido social, constatáveis através de relações inter-pessoais mais justas, mais solidárias e mais fraternas. O Homem é assim um terreno onde o escritor faz seara. Exactamente do mesmo modo que o ganhão lavra a Terra-Mãe, para depois lhe fecundar o ventre, lançando-lhe a semente que as primeiras águas farão germinar.
Da presente reflexão resulta como evidente a função social da Literatura, em termos do conteúdo literário.
Analisemos agora a questão da forma literária. A oralidade do texto, e até mesmo a sua musicalidade e ritmo, induzem no leitor uma sensação de harmonia, psicologicamente equilibrante.
Também o rigor e o vigor da linguagem permitem ao leitor usufruir de imagens sensoriais que deleitam os seus cinco sentidos: visão, audição, olfacto, paladar e tacto. E isso é evidente na obra de autores alentejanos como o Conde de Monsaraz, Florbela Espanca ou Manuel da Fonseca, que registaram poeticamente, em vibrantes estrofes, a matriz da nossa natureza ancestral. Igualmente autores alentejanos como Fialho de Almeida, Manuel Ribeiro ou Antunes da Silva, magistralmente perpetuaram na prosa, o colorido policromático e multifacetado da nossa etnografia, a dureza da nossa labuta, a firmeza do nosso querer, o calor do nosso sentir, a razão das nossas revoltas ancestrais, os marcos das nossas lutas e as mensagens implícitas nas nossas esperanças.
Na obra daqueles autores, o azul límpido do céu, o castanho da terra de barro, a cor de fogo do Sol e o verde seco da copa dos sobreirais, constituem uma paleta de cores, trespassada por uma claridade que quase nos cega e é companheira inseparável do calor que nos esmaga o peito, queima as entranhas e encortiça a boca.
Nas suas obras, surgem também as sonoridades do restolho seco que quebramos debaixo dos pés, das searas e dos montados, dos rebanhos que ao entardecer regressam aos redis, mas sonoridades também na ausência de som por não correr o mais leve sopro de aragem.
E falam-nos dos odores das flores de esteva, de poejo e de orégãos, mas também do barro húmido, do azeite com que temperamos divinamente a comida e do vinho espesso e aveludado, que mastigamos nos nossos rituais gastronómicos.
Falam-nos também da textura do barro, do sobro, da laje e do mármore, da qual temos memória epidérmica.
Falam-nos ainda do sabor do património culinário legado pelos nossos ancestrais: pré-históricos, fenícios, celtas, romanos, visigodos, mouros e ganhões. Gastronomia em que o fogo permite criar sabores, por detrás dos quais estão sábias operações de alquimia doméstica, mais que magia iniciática de pedra filosofal demandada, o sabor encontrado constitui um prazer simultaneamente onírico e telúrico.
Em termos de forma, o leitor não fica de modo algum indiferente a uma linguagem fotográfica, rigorosa e certeira. Pelo contrário, assimila a riqueza da linguagem utilizada, quer ela seja constituída por termos menos correntes ou regionalismos, quer incorpore na sua textura o património da tradição oral, tal como adágios, anexins, alcunhas, adivinhas, lengalengas, quadras e décimas que por vezes são postas na boca de alguns personagens. Ao fazê-lo, o escritor está a contribuir para a sua transmissão no tecido social, o que equivale a contribuir para a salvaguarda, preservação, valorização e divulgação do património cultural imaterial.
Também em termos de forma, a existência no texto literário de citações e referências, induz a que o leitor faça uma incursão pelos originais, de modo a aprofundar os seus conhecimentos.
Ainda neste campo, o leitor não ficará decerto indiferente à pontuação usada pelo autor. Na sequência da leitura de Saramago, há leitores que passam a ser parcos na utilização de pontuação, o que decerto não acontecerá com leitores de Eça.
Do exposto se conclui que é inegável a repercussão que a forma do texto literário tem no leitor, o que legitima mais uma vez, a função social da Literatura.
Abordemos finalmente a questão do estilo literário. Cada autor tem o seu próprio estilo, uma forma particular de usar a linguagem escrita para compor as suas próprias obras. O estilo é a marca indelével do escritor, que se transmite ao leitor, o qual no início da sua escrita literária e antes de atingir o equilíbrio de um estilo próprio, veste a roupagem literária correspondente ao estilo do autor que lhe serviu de guia. Daqui se infere novamente a função social da Literatura.
“A modelação do Homem através da Literatura” foi a nosso ver o melhor título para o presente ensaio, no qual se efectuou o reconhecimento da função social da Literatura em termos de conteúdo, forma e estilo.

(Identidade  real do pseudónimo literário "Manuel da Charneca")