sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Ensaio sobre o ciúme


CIÚME (1923). José Malhoa (1855-1933). Óleo sobre madeira (45,5 x 41,5 cm).
Museu José Malhoa, Caldas da Rainha.
PREÂMBULO
Na gíria popular é habitual ouvirem-se frases do género: “O António anda consumido de ciúmes por causa da Maria e do José.”. Significa isso que a relação entre a Maria e o José, despertou no António, ciúmes que o mortificam. Mas o que é o ciúme? O ciúme é a resistência complexa a uma sintoma perceptível numa relação relevante ou no carácter dessa relação, envolvendo sempre três ou mais pessoas: aquela que sente ciúmes, aquela de quem se sente ciúmes e aquela ou aquelas que são o motivo dos ciúmes.
O ciúme desperta múltiplas emoções: raiva, dor, inveja, tristeza, medo, depressão e humilhação.
O ciúme está na origem de pensamentos variados: ressentimento, culpa, comparação com o rival, preocupação com a imagem, auto-comiseração;
O ciúme activa reacções físicas diversas: taquicardia, falta de ar, boca seca ou excesso de salivação, transpiração, aperto no peito, dores físicas.
O ciúme leva à manifestação de determinados comportamentos: questionamento permanente, procura impaciente de confirmações e acções agressivas, por vezes violentas.
O ciúme é instintivo, natural e marcado pelo medo ou vergonha da perda do amor de quem se ama. O ciúme está relacionado com a falta de confiança no outro e/ou em si próprio.

O CIÚME NA BÍBLIA SAGRADA
Dos 46 livros que na Bíblia Sagrada constituem o Antigo Testamento, apenas 16 relatam o ciúme, num total de 44 alusões, assim distribuídas: Génesis (1), Êxodo (2), Números (8), Deuteronómio (6), Josué (1), I Reis (1), Salmos (2), Provérbios (1), Eclesiastes (1), Eclesiástico (2), Isaías (3), Ezequiel (11), Joel (1), Naum (1), Sofonias (1), Zacarias (2). Por sua vez, dos 27 livros que na Bíblia Sagrada constituem o Novo Testamento, apenas 6 narram o ciúme, num total de 11 menções, assim distribuídas: São Mateus (1), Romanos (4), I Coríntios (1), II Coríntios (1), Gálatas (1), São Tiago (3). O ciúme é assim mais referido no Antigo Testamento que no Novo Testamento. Quanto ao livro que o relata mais, trata-se de Ezequiel.
O ciúme ataca os homens:
- “irmãos ficaram com ciúmes de José, enquanto o pai meditava sobre o assunto.” (Génesis 37,11)
O próprio Deus é ciumento:
- “Não te prostres diante desses deuses, nem os sirvas, porque Eu, Javé teu Deus, sou um Deus ciumento: quando Me odeiam, castigo a culpa dos pais nos filhos, netos e bisnetos;” “ (Êxodo 20,5)
É apontado um ritual para o caso do marido ter ciúme da mulher:
- “Este é o ritual para o caso de ciúme, quando uma mulher se desvia e se torna impura, enquanto está sob o poder do marido;” (Números 5,29)
Reconhece-se o ciúme como causador de raiva e o direito de vingança sem piedade:
- “Porque o ciúme provocará a raiva do marido, que não terá piedade no dia da vingança:” (Provérbios 6,34)
Reconhece-se que a mulher ciumenta de uma rival pode causar desvarios, nomeadamente através do praguejar:
- “Mas a mulher ciumenta de uma rival causa grande dor e aflição. E a praga da língua é o ponto comum de todas estas coisas.” (Eclesiástico 26,6)
Condena-se também explicitamente o ciúme no dia a dia:
- “Vivamos honestamente, como em pleno dia: não em orgias e bebedeiras, prostituição e libertinagem, brigas e ciúmes.” (Romanos 13,13)
Reconhece-se também o ciúme como fonte de desordem e outras más acções:
- “De facto, onde há ciúme e espírito de rivalidade, existe também desordem e todo o género de más acções.” (São Tiago 3,16)

O CIÚME NO ADAGIÁRIO
O adagiário português regista máximas relativas ao ciúme:
O ciúme é encarado como consequência natural do amor:
- “Quem tem ciúme quer bem.”
- “Sem ciúmes não há grande afeição.”
- “Não há esperança sem temor, nem ciúme sem amor.”
Todavia, o ciúme depende mais de outros factores que do amor:
- “O ciúme depende mais da vaidade que do amor.”
- “Há no ciúme, mais amor-próprio do que amor.”
O ciúme mata o amor que o gerou:
- “O amor gera o ciúme e o ciúme mata o amor.”
O ciúme é associado aos sentidos da visão e da audição:
- “O ciúme tem olhos de lince.”
- “O ciúme tem lume nos olhos.”
- “Nada há que os ouvidos do ciúme não oiçam.”
- “O ciúme nasceu cego e morreu surdo.”
A opinião sobre o ciúme é negativa:
“O ciúme é o maior de todos os males.”
“Vingança e ciúmes são espadas com dois gumes.”

O CIÚME NO CANCIONEIRO POPULAR
O universo psicológico do ciúme está bem patente no cancioneiro popular alentejano. Assim, o ciumento crê que não há amor sem ciúme:

“Amar, e não ter ciumes,
Isso não é querer bem;
Quem não zela o que bem ama,
“Muito pouco amor lhe tem.” [3]

“A minha cruel rival,
De raiva a vejo soffrer;
Apesar de ter ciúmes,
Hei-de te amar até morrer.” [3]

Pensa também que o amor não é para repartir:

“O amor e o dinheiro
são duas coisas parecidas,
depressa se vão embora
se são muito repartidas.” [4]

O ciumento é desconfiado:

“Meu amor ficou de vir
mas ainda não apareceu,
quem seria essa ingrata
que por lá mo entreteu.” [4]

“Eu hei-de ir para um altinho,
Debaixo não vejo bem,
Quero ver se o meu amor
Dá paleio a mais alguém.” [3]

O ciúme desperta dor:

“Vi-te ao poço, mai-la outra,
enquanto eu ceifava o trigo;
ai, quem pudesse ceifar
a dor que trago comigo.” [4]

“‘St’a chegada a triste noite,
Noite para mim de horror!
O meu bem em braços d’outra
E eu entregue á minha dor.” [3]

O ciumento não tem sossego:

“O maldito do ciume
Não me deixa socegar,
Nem de noite, nem de dia,
Nem á hora do jantar.” [3]

O ciúme desperta inveja:

“A enveja do ciúme
É um ferro abrasador
Muita gente tem enveja
D’eu querer bem ao meu amor.” [1] (Mina de S. Domigos)

O ciumento chega a admitir a morte:

“No caminho de Olivença
Foi que eu ouvi dizer,
Que tinhas outros amores;
Fiquei capaz de morrer!” [3]

“À entrada desta rua
Levantei meus olhos, vi
Meu amor em braços doutra,
Não sei como não morri.” [1] (Beja)

O ciumento condena-se ao desterro:

“Se a minha rival ditosa
Tem a sina de vencer,
Então me deixo de amores
Desterrada vou viver.” [3]

O ciumento duvida do valor da troca:

“Trocaste-me a mim por outra,
Eu bem sei que me trocaste,
Gostava bem de saber
Quanto na troca ganhaste.” [2] (Alcáçovas)

O ciúme por vezes aconselha à separação:

“Eu te deixo, tu me deixas,
ficamos ambos em paz,
tu tens outra rapariga
e eu tenho outro rapaz.” [4]

O ciumento despede o antigo amor:

“Vai-te embora, amor ingrato,
Já não quero nada teu,
Pois que foste dar a outro
Coração que já foi meu.” [2] (Veiros)

Há corações ciumentos que dizem resistir:

“O meu coração
Em tudo é valente:
Mesmo em ciúme,
Vive alegremente.” [2] (Castro Verde)

“Se julgas que eu me importo
de teres outra em meu lugar,
aquilo que eu deito fora
qualquer pode arrecadar.” [4]

Sabem uma coisa? O melhor é não ter ciúmes…

BIBLIOGRAFIA
[1] – DELGADO, Manuel Joaquim Delgado. Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo. Vol. I. Instituto Nacional de Investigação Científica. Lisboa, 1980.
[2] - LEITE DE VASCONCELLOS, José. Cancioneiro Popular Português, vol. I. Acta Universitatis Conimbrigensis, Coimbra, 1971.
[3] - PIRES, A. Tomaz. Cantos Populares Portuguezes. Vol. III. Typographia Progresso. Elvas, 1909.
[4] - SANTOS, Victor. Cancioneiro Alentejano. Livraria Portugal. Lisboa, 1959.

Hernâni Matos
Publicado inicialmente a 14 de Outubro de 2011  

ALEGORIA DO CIÚME (1640). Luca Ferrari (1605-1654). 
Óleo sobre tela (171 x 116 cm). Hermitage, São. Petersburgo. 

NA PRAIA - DOIS SÃO COMPANHIA, TRÊS NÃO SÃO NADA (1872). Gravura em madeira desenhada
por Winslow Homer (1836-1910). Publicada no semanário “Harper”, a 17 de Agosto de 1872. 

CIÚME E NAMORO (1874). Haynes King (1831-1904). Victoria and Albert Museum, London. 

O CIÚME (1896). Maxime de Thomas (1867- 1920). Litografia original
impressa em tom vermelho sobre papel verde. Editor: Le Centaur, Paris.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

A semana na literatura oral


JOÃO  SEMANA - Ilustração de Alfredo Roque Gameiro  (1864-1935)
para o romance "As Pupilas do Senhor Reitor", publicado em 1867,
 por Júlio Dinis (1839-1871).

A semana (do latim septimana = sete manhãs) é um período de tempo de sete dias sucessivos.
Na língua portuguesa, os dias da semana têm denominações baseadas na liturgia católica, por iniciativa de Martinho de Dume (518-579), bispo de Braga e de Dume, canonizado pela Igreja Católica e figura de proa da História Ca cultura e da Língua Portuguesas
Martinho considerava impróprio de bons cristãos continuar a designar os dias da semana pelos nomes latinos pagãos de Lunae dies, Martis dies, Mercurii dies, Jovis dies, Veneris dies, Saturni dies e Solis dies. Daí ter introduzido a terminologia litúrgica para os designar (Feria secunda, Feria tertia, Feria quarta, Feria quinta, Feria sexta, Sabbatum, Dominica Dies), donde as designações actuais em língua portuguesa (Segunda-feira, Terça-feira, Quarta-feira, Quinta-feira, Sexta-feira, Sábado e Domingo).
Devido á sua formação cristã, o povo aceitou de bom grado as novas designações e a partir daí perpetuou-as nos adágios que a sua criatividade foi gerando ao logo dos tempos. Eis alguns desses adágios:

SEGUNDA-FEIRA
- ”Não há domingo sem missa, nem segunda-feira sem preguiça.”
TERÇA-FEIRA
- ”Às terças e sextas-feiras não cases os filhos, nem urdes a teia.”
QUARTA-FEIRA
- ”Quem promete à quarta e vem à quinta, não faz falta que sinta.”
QUINTA-FEIRA
- ”Não há semana sem quinta-feira.”
SEXTA-FEIRA
- ”A sexta-feira arremeda o domingo.”
SÁBADO
- ”Não há sábado sem sol, nem noiva sem lençol.”
DOMINGO
- ”Quem à semana bem parece, ao domingo aborrece.”

Os dias da semana foram também perpetuados no cancioneiro popular português. Eis algumas das quadras desse cancioneiro: 

“Segunda-feira, águas claras
Regam a toda a verdura,
A regar esses teus olhos,
Amor de pouca ventura.”

“Terça-feira, alecrim verde.
Bem puderas tu, menina,
Ser agora o meu amor,
Já que amar-te é minha sina.”

“Quarta-feira é a rosa
Por ser a flor desmaiada;
Nossa amizade. Menina.
É feliz, nunca se acaba.”

“Quinta-feira. A açucena.
Por ser a flor excelente;
Não sei se fala verdade,
Nem se a menina me mente.”

“Sexta-feira, alecrim verde
Anda rentinho do chão;
Bem puderas tu, menina,
Andar em meu coração.”

“Sábado é um trevo.
Por ser a flor mais alegre;
Nossa amizade, menina,
É firme, nunca se perde.

“Quem me dera cá domingo,
Dia de tanta alegria;
O meu gosto é ir buscar-te
Para minha companhia.”

Mais adágios e quadras existem, mas propositadamente não quisemos ser exaustivos. A nossa finalidade era, mais uma vez e só apenas essa, mostrar a importância da via popular e da literatura oral na consolidação da língua portuguesa, um dos vectores mais importantes, se não o mais importante, da nossa identidade cultural.

Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 11 de Outubro de 2011