segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Estremoz - Mercado das hortaliças

Estremoz - Mercado das hortaliças
Fotografia de Rui Alves

Nos anos sessenta do século XX, o mercado das hortaliças, decorria como hoje nas duas placas de calçada à portuguesa, existentes frente à Câmara.
Na placa de baixo, logo à entrada do mercado, ficavam os vendedores de árvores, arbustos e plantas de viveiro, seguidos pelo lado da Câmara, do tabuleiro da venda de caça, do Zé Correia e do pai. Depois eram as barracas do brinhol, primeiro a do João Brinholeiro e depois a da Ti Hilarina, das quais irradiava um cheiro intenso a massa frita e a azeite requentado. Seguiam-se as barracas dos enchidos, onde se vendia de tudo aquilo que o porco dá: pés, orelhas, focinheira, costeletas, lombinhos, cachola, chouriços, paios, paias, farinheira branca e farinheira preta, morcela, presunto, etc. Ali vendiam o Zé Torra, o Diogo Pimenta, o Ilídio, o Godinho e os irmãos Véstia, cada um deles com a sua barraca. Do outro lado da placa ou seja para o lado da estrada, ficavam os tabuleiros dos regateiros que vendiam fruta. Uns só vendiam no tempo do melão e da melancia vinda de comboio, dos campos de Santa Eulália, junto a Elvas. Era o caso do Júlio Regateiro e do António Regateiro. Outros vendiam durante todo o ano e tinham outros tipos de fruta. Era o caso do Romico, do Israel e do velho Mariano.
Na placa de cima, logo à entrada, do lado da Câmara havia mais barracas: a do Leandro Ervanário, as do pão do Anacleto Paulino e do José Resga, bem como a dos bolos da Ti Maria Paizé. Nesta placa havia três filas de tabuleiros, delimitando duas ruas para circulação dos consumidores. Ali se instalavam hortelões e regateiros.
E para quem porventura não saiba, havia uma diferença abissal entre uns e outros. Os regateiros eram intermediários de produtos hortícolas, que revendiam o que tinha sido produzido por outros. Em contrapartida, hortelões eram aqueles que tratavam da sua horta ou da que pertencia ao patrão, dono de uma qualquer quinta ou herdade.
Estes últimos viviam em sintonia com a Terra-Mãe numa época em que toda a agricultura era biológica, em que não se comiam coisas fora de época e não havia nem estufas, nem produtos hortícolas importados. Para além do domínio absoluto de alfaias como a enxada e o sacho, exerciam na horta, com mestria, as sábias operações de cavar, plantar, estrumar, semear, regar, sachar, mondar, desbastar, enxertar, transplantar, proteger da geada e colher. Em suma: eram eles os agentes de transmutação da Terra-Mãe em produtos hortícolas.
No mercado das hortaliças só se vendia o que a terra dava em cada época. Alguns dos produtos que lá se vendem hoje, naquela época não se vendiam. Presentes, de acordo com a época, eram: hortaliça (agriões, alfaces, beldroegas, brócolos, couves, couves-flores, espinafres, nabiças, repolhos), legumes (ervilhas, favas e feijão-verde), legumes secos (feijão e grão), raízes (batata, beterraba, cenoura, nabo, rabanete, rábano), condimentos (alhos, cebolas, coentros, hortelã, malagueta, salsa), frutos de sobremesa (abrunhos, ameixas, cerejas, figos, laranjas, limões, maçãs, marmelos, melancias, melões, morangos, nêsperas, peras, pêssegos, romãs, tangerinas, uvas), fruto secos (ameixas, avelãs, figos, nozes, uvas) e outros frutos (abóbora, azeitona, beringela, gila, mogango, pepino, pimento).
Hortelões de Santa Maria eram: António Mourinha e José Mourinha, a Herdade da Granja, a Herdade da Fonte Cansada, a Quinta do Marquês, o José de Paulo da Quinta do Maduro, Carlos Gaudêncio e o irmão, Miguel Quintaneiro e Chico Ferreira. Doutras freguesias eram: o Maltinha de Mamporcão, o Manuel Semedo da Frandina e a Ti Hermínia da Horta da Galega, em Santo André. Regateiros havia que eu me lembre, o Marcolino e a Jerónima. Logo à entrada da placa de cima e do lado esquerdo eram os tabuleiros do casal João Serrano e Zefa dos Queijos.
No mercado das hortaliças, o lugar era certo e estava aprazado com a Câmara. Ali eram descarregados de madrugada os produtos hortícolas, transportados em carroças desde as freguesias. Feito isto, hortelões e regateiros guardavam as carroças numa das estalagens da cidade. Aí desatrelavam a besta que ficava à manjedoura, até serem horas do regresso a casa. Nessa época existiam cinco estalagens em Estremoz. Uma do Peúgas, no Rossio Marquês de Pombal. Duas dos Irmãos Gaudêncio, uma na Avenida Condessa de Cuba e outra na Rua 31 de Janeiro. Nesta última rua e do lado oposto, existia ainda a estalagem do Aires. Finalmente, na Rua Serpa Pinto ficava a estalagem do Lopes.
Pelas oito da manhã já havia gente no mercado, a qual procurava sempre os melhores produtos e os mais frescos, antes de estarem escolhidos. Contudo, havia quem por necessidade só fosse comprar ao levantar dos tabuleiros, pois os produtos perecíveis eram então vendidos mais baratos.
A partir das nove da manhã aparecia o fiscal da Câmara. Ainda me lembro do velho Barriga e do Manuel Vida nestas funções. Iam de tabuleiro em tabuleiro para receberem a taxa devida ao aluguer, a que se acrescentava no Verão a taxa das gigantescas sombrinhas, montadas pelo diligente Barranhão. E, se no Verão, o Sol era escaldante, no Inverno, o frio era de rachar. Hortelões e regateiros não dispensavam o capote, trocando alguns deles o chapéu pelo boné de orelhas. Havia mesmo quem fizesse lume numa lata, junto ao tabuleiro. É que mãos engadanhadas não deixam ninguém trabalhar.
O mercado terminava pela hora de almoço, pois era hora de cada um regressar às suas casas. Uns com as compras. Outros com o produto das vendas e aquilo que não tinha sido vendido. Todavia, muitos dos vendedores não o faziam logo. Tapavam o(s) tabuleiro(s) com um pano de serapilheira atado por um baraço e iam retemperar forças numa taberna ou casa de pasto do seu agrado. Só depois iam às estalagens aparelhar as bestas nas carroças para carregar o que tinham deixado no mercado. E por fim lá seguiam em direcção a casa, para regressar no sábado seguinte.