sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O meu bigode


Uma amiga publicou no seu mural do Facebook, a folha do calendário do mês de Agosto, onde a dezanove é cognoscível a minha carantonha, o que me levou a dizer-lhe:
- “O leão bigodudo sou eu. Obrigado e um abraço.”
A minha amiga considerou que essa do leão bigodudo era o máximo, ao que eu repliquei:
- “É verdade, amiga. Um bigode que se preze, ornamenta necessariamente o lábio superior dum leão. Existirá, porventura, maior dignidade para um bigode? Ser bigode leonino, é outra loiça. É ser bigode de outra dimensão.
Implantado num leão, um bigode que se preze é capaz de atingir Vénus e dali partir à conquista do Cosmos. Na sequência do Big Bang primordial, o elo de ligação entre o nada e o tudo, é assim, o bigode leonino do leão bigodudo.
PIM!”
A minha amiga respondeu-me, dizendo primeiramente que ia contar a minha bela história à dona tesoura, para ver o que ela dizia. Depois acrescentou que ficara a imaginar a cena do bigode a viajar por Vénus e conquistando o Cosmos. Terminaria dizendo que só eu, que era bárbaro!!!!
Porque a minha amiga é encantadora, senti necessidade de lhe explicar o meu bigode:

Amiga:

O meu bigode é efectivamente um bigode barbaramente bárbaro.
Você já reparou que o meu bigode não é à Tonico Basto, da “Gabriela, Cravo e Canela”? Você já me imaginou com um bigode todo direitinho, aparadinho e penteadinho com um pentinho, sempre omipresente no bolso de fora do paletó? Acha que eu dava para fazer de galã desenxabido de uma terra qualquer do interior nordestino? Não está a imaginar, pois não? Faz bem, pois tal bigode não confere com as linhas mestras do meu ser.
O meu bigode é um bigode à Charles Bronson ou melhor à Gengis Khan, com as pontas reviradas para baixo, o que sem eu querer, me conferirá, porventura, um ar durão, o que convenhamos não assenta mal a um leão, que tem natureza intrinsecamente solar. Apesar de tudo, há quem diga que eu tenho um coração de manteiga…
O meu bigode é um bigode com as pontas reviradas para baixo. Você já me imaginou com o bigode revirado para cima, com ar de monárquico órfão à espera que El-Rei D. Sebastião regresse numa manhã de nevoeiro? (Que me perdoem os meus amigos monárquicos, que os tenho, por tecer considerações sobre os seus reais bigodes). Mas eu, que sou realmente republicano, só posso usar um bigode com as pontas reviradas para baixo.
Os meus avós começaram por ser jornaleiros sem terra, antes de endireitarem a vida, com o que quebraram as costas. Onde é que já se viu o neto de um jornaleiro sem terra, usar um bigode à Bragança? Os meus defuntos avós dariam nas tumbas, cambalhotas de indignação. Por isso, o meu bigode à Gengis Khan, é um bigode que tem a ver com as minhas origens. Um marxista diria aqui que o meu bigode tem a ver com a minha natureza de classe.
O meu bigode de pontas para baixo, nasceu nos tempos do “Make Love not War”, quando eu usava camisas às flores, com colarinhos de metro e meio.
Tempos depois, na altura do Maio de 68, dos plenários permanentes na Sorbone, nas barricadas nas ruas de Paris, quando se gritava contra o poder estabelecido “Estudantes e Operários, a mesma luta!”, o meu bigode continuou com as pontas para baixo, agora proletarizadas pela ideologia emergente. As flores das camisas murcharam, mas o bigode, esse não, revitalizou-se nos combates de então.
Mais tarde, viria Abril construído com muitos Maios. E o meu bigode desceu à rua e andou por aí em mares de gente que queriam construir um país novo. E o meu bigode, sempre de pontas para baixo, saiu retemperado dessas lutas.
É esse o bigode que mantenho, agora grisalho pela patine do tempo, que é como que a minha certidão de idade.
O meu bigode de pontas para baixo, é uma das minhas marcas identitárias. Não se vende, não se troca, não se rende.

O MEU BIGODE CONTINUA!

(O leão bigududo com carantonha supra)