sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Armando Alves - O sentido de um trajecto


Foi inaugurada no passado dia 11 de Dezembro, no Centro Cultural Dr. Adriano Moreira, em Bragança, uma exposição antológica da obra de Armando Alves. A exposição realizada a convite do Presidente da Câmara Municipal, António Jorge Nunes, estará patente ao público até finais de Janeiro, donde seguirá para Zamora (Espanha).
A exposição intitulada “O sentido de um trajecto” coroa 60 anos de carreira do artista e engloba trabalhos seus dos anos 50 do século passado até aos nossos dias.
Armando Alves nasceu em Estremoz em 1935. Estudou na Escola de Artes Decorativas António Arroio, em Lisboa, e na Escola Superior de Belas-Artes do Porto. Aqui conclui o curso de Pintura com vinte valores, o que originou, em 1968, a formação do grupo “Os Quatro Vintes” com Ângelo de Sousa, José Rodrigues e Jorge Pinheiro, com o qual se apresenta em exposições no final da década de 60. Entre 1963 e 1973 foi professor assistente na escola portuense, tendo aí introduzido o estudo das Artes Gráficas. A sua saída da Escola implicou, aliás, a dedicação às artes gráficas como responsável por essa área na Editorial Inova, fundada no Porto em 1968, e foi nesse domínio que recebeu o 1º prémio da Grafiporto, em 1983.
Tendo começado por uma figuração que pode aproximar-se do universo neo-realista, optou seguidamente por um informalismo matérico desenvolvido na década de 60. Nos anos 70 dedica-se à construção de objectos pintados, de grande depuração formal. A partir dos anos 80 retoma os valores da paisagem que reformula à luz de um abstraccionismo lírico.
Começou a expor individualmente em 1964, na Escola Superior de Belas-Artes do Porto para apresentar exclusivamente trabalhos de artes gráficas. Neste ano expõe na Cooperativa Árvore, onde voltaria em 1985 e 1993. Em 1978 e 1981 realiza exposições na Galeria do Jornal de Notícias, no Porto e em 1987 e 1990 apresenta-se na Galeria Nasoni, Porto. Em 1994 e 1995 expõe na mesma cidade, respectivamente na galeria Degrau Arte e na Galeria Fernando Santos. Em 1996 realiza nova exposição na Pousada de S. Francisco, em Beja, e em 1997 na Galeria Municipal de Vila Franca de Xira e na Galeria da Praça, Porto. Em 2001 expõe na Sala Maior, na cidade do Porto.
Com o grupo “Os Quatro Vintes” realizou exposições na Galeria Dominguez Alvarez, Porto (1968), Galeria Zen, Porto (1969), Sociedade Nacional de Belas-Artes (1969) e Galeria Jacques Desbrière, Paris (1970).
Entre 1997 e 2007 participou em exposições no Brasil, Chile, Cabo Verde, Maputo e Ryahd – Arábia Saudita. De então para cá tem realizado várias exposições individuais e participado em muitas outras exposições colectivas.
No dia 10 de Junho de 2006 é agraciado pelo Presidente da República com o Grau de Grande Oficial da Ordem de Mérito. Em Outubro desse mesmo ano, é homenageado pelo Município de Estremoz com a Medalha de Mérito Municipal – Ouro. Em Dezembro de 2009, recebe o “Prémio de Artes Casino da Póvoa”.
É caso para perguntar, quando é que os estremocenses terão o privilégio de ter entre si uma exposição de pintura de Armando Alves? Esta, a realizar-se, deveria ter por palco um dos locais mais nobres para o efeito: a Galeria D. Dinis ou o Museu Municipal Joaquim Vermelho. Aqui fica o alvitre a aguardar uma resposta.

1954 - Óleo sobre tela (49,5 x 28,5 cm)
1958 - Óleo sobre tela (80 x 47 cm)
1963 - Óleo sobre tela (84 x 99 cm)
1978 - Óleo sobre tela (60,5 x 60,5 cm)
1984 - Óleo sobre tela (63 x 77 cm)
1986 - Óleo sobre tela  (200 x 160 cm)
1995 - Óleo sobre tela (65 x 50 cm)

2003 - Óleo sobre tela (80 x 120)
2009 - Óleo sobre tela (40x40 cm)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Gíria portuguesa ilustrada - 2

Abadessa = Mulher muito gorda [2]
Bilhete-postal ilustrado de fabrico alemão, dos prímórdios do séc. XX.

Dar corda aos sapatos = Fugir [4]
FUGA PARA O EGIPTO – Painel de azulejos da autoria de Policarpo de Oliveira Bernardes, c. 1730. Museu Nacional do Azulejo, Lisboa.

Escrivão de penna grande = Varredor das ruas [1]
Varredor da Câmara Muncipal de Lisboa limpando a rua de S. José (1900) - Fotografia de autor não identificado. Suporte: Negativo de gelatina e prata em vidro (9x12 cm). Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa.

Galego = Escravo do trabalho [5]
Galegos (s/data) – Fotografia (9x12 cm) de Ferreira da Cunha(1901-1970), obtida numa rua de Lisboa.

Mais que as mães = Grande quantidade [ 3]
O QUARTO ESTADO (1901)
Giuseppe Pellizza da Volpedo (1868-1907)
Óleo sobre tela (293 x 545 cm)
Galeria Cívica de Arte Moderna (Milão)

Dar banho à minhoca = Pescar [8]
CRIANÇAS A PESCAR (1882)
Illarion Pryanishnikov (1840–1894)

Pé d’alferes = Namoro [1]
Bilhete-postal ilustrado de fabrico alemão, dos prímórdios do séc. XX.

Palminho de cara = Cara bonita [8]
CONVERSA COM O VIZINHO (1932)
José Malhoa (1855-1933)
Óleo sobre tela
31x27,5 cm
Museu José Malhoa, Caldas da Rainha

BIBLIOGRAFIA

[1] - BESSA, Alberto. A Gíria Portugueza. Gomes de Carvalho- Editor. Lisboa, 1901.
[2] – LAPA. Albino. Dicionário de Calão. Edição do Autor. Lisboa, 1959.
[3] – LOPES, Alberto Augusto. Termos de Calão e Gíria Portuguesa. 1938.
[4] –NEVES, Orlando. Dicionário de Expressões Correntes. Editorial Notícias. Lisboa, 1998.
[5] – NOBRE, Eduardo. Dicionário de Calão. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1986.
[6] – PRAÇA, Afonso. Novo Dicionário de Calão. Editorial Notícias. Lisboa, 2001.
[7] – SANTOS, António Nogueira. Novos dicionários de expressões idiomáticas. Edições João Sá da Costa. Lisboa, 1990.
[8] – SIMÕES, Guilherme Augusto. Dicionário de Expressões Populares Portuguesas. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1993.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Arte Popular Alentejana - O dançarino


Os rituais animistas das sociedades primitivas utilizavam fantoches, que eram considerados objectos sagrados e personagens intermediárias entre essas sociedades primitivas e os seus deuses. O fantoche conferia poder divino ao personagem, pelo que a sua manipulação estava reservada exclusivamente aos iniciados que iriam participar na cerimónia com uma dramaturgia simbólica.
Em todas as civilizações, os fantoches têm desempenhado os seus papéis, a sua tipologia tem evoluído e os reportórios têm sido alterados e aumentados.
Não se deixando nunca fixar no seu passado, os fantoches têm uma grande história. Porém, uma coisa mantiveram sempre, o ritual da alegria colectiva, os espectáculos de rua, nos adros das igrejas, nas feiras, nos jardins, nas praias, nos pátios, nas tabernas.
O dançarino, brinquedo popular alentejano destinado a animar grupos de pessoas ao serão ou em festas, pode ser englobado na categoria dos fantoches. O que apresentamos foi comprado no mercado das velharias em Estremoz e passamos de imediato a descrevê-lo.
5,5 x 2 x 21 cm. Tronco de cortiça. Cabeça e membros articulados em madeira de oliveira, que é a que melhor som produz sobre a base que funciona como piso de dança. Boa expressão facial. Cor do vestuário evocando as cores, verde e rubra da bandeira republicana.
Manipulação horizontal ao nível do manipulador, o qual segura uma vara de madeira que encaixa pela retaguarda no orifício do centro do peito. O manipulador senta-se em cima duma tábua que fica com uma das extremidades livres e assenta os pés do fantoche em cima da tábua. Seguidamente imprime pancadas na tábua com o ritmo desejado, o que a faz vibrar e saltitar o boneco.
Nos montes alentejanos, a manipulação era feita pelo chefe da família para entreter os filhos pequenos, o que acontecia quando regressava do trabalho ou ao serão, à luz da candeia ou do candeeiro a petróleo.
Era uma das maneiras de encurtar as noites no tempo em que se seroava e as mulheres faziam malha ou arranjavam a roupa e alguém evocava os antepassados falecidos ou os familiares ausentes. Era o tempo da tradição oral, em que os serões eram usados para passar aos mais novos o testemunho do património cultural oral colectivo: histórias, adivinhas, lenga-lengas, provérbios, superstições, rezas e benzeduras, canções, etc. Havia tempo para os pais falarem com os filhos. A educação era feita no seio da família e o pai e a mãe tidos como modelos a seguir.
Lembro-me de nos anos 50 do século passado ter visto numa taberna em Estremoz, um popular que ao mesmo tempo que numa gaita-de-beiços trauteava um fandango, punha um fantoche destes a dançar a música que tocava. Depois da actuação, havia sempre alguém que lhe pagava um copo.


A manipulação pode envolver dois bailarinos postados frente a frente. Na figura, manipulação por Rui Alves e Fotografia de Vítor Cid, obtida após o petisco de Páscoa, em Estremoz.  Como diz o Rui, no final das "comidas e buídas" houve "balho".