domingo, 3 de outubro de 2010

A revolução do 5 de Outubro de 1910 e a mudança de paradigma

Fig. 1 - Proclamação da República Portuguesa. Estampa de autor desconhecido 1910.

O derrube da Monarquia a 5 de Outubro de 1910 foi fruto da acção doutrinária e política do Partido Republicano Português, criado em 1876 e cujo objectivo essencial foi desde o princípio, a substituição do regime.
As questões ideológicas não eram primordiais na estratégia dos republicanos, uma vez que para a maioria dos seus simpatizantes, bastava ser contra a Monarquia, a Igreja e a corrupção política dos partidos tradicionais.
Determinados eventos como as Comemorações do Tri-Centenário da Morte de Camões (1880) (Fig. 2) e o Ultimatum inglês (1890) (fig.3) foram aproveitados pela propaganda republicana, que se procurou identificar com os sentimentos nacionais e as aspirações das massas populares. O Partido Republicano alcançou então enorme popularidade.
Na noite de 3 para 4 de Outubro de 1910, eclodiu em Lisboa um Movimento Revolucionário, impulsionado pelo Partido Republicano e apoiado pela Marinha de Guerra e por forças do Exército. Após dois dias de combate (Fig.4 a fig.19), o Movimento Revolucionário triunfa devido à incapacidade de resposta do Governo, que não conseguiu reunir tropas que dominassem os cerca de duzentos revolucionários que na Rotunda resistiam de armas na mão. Ao Governo monárquico não resta outra saída senão demitir-se. A família real abandona o país. A República é proclamada na manhã de 5 de Outubro, das janelas da Câmara Municipal de Lisboa (Fig. 20 a fig. 23) e é constituído imediatamente um Governo Provisório (Fig. 25), presidido pelo Dr. Teófilo Braga, que assume como tarefa fundamental uma mudança radical nas instituições vigentes. [1]
Com a queda da Monarquia a 5 de Outubro de 1910, há uma mudança de paradigma. Uma Monarquia com oito séculos é substituída por uma República que tomou o poder nas ruas de Lisboa e depois de o proclamar às varandas da Câmara Municipal, o transmitiu para a província à velocidade do telégrafo.
As instituições e símbolos monárquicos (Rei, Cortes, Bandeira Monárquica e Hino da Carta) são proscritos e substituídos pelas instituições e símbolos republicanos (Presidente da República, Congresso da República, Bandeira Republicana e A Portuguesa), o mesmo se passando com a moeda e as fórmulas de franquia postais.

[1] – De acordo com a Revista “O Occidente”, nº 1144 e 1145 de 20 de Outubro de 1910, era o seguinte, O PROGRAMA Do GOVERNO: “Desenvolver a instrução; assegurar a defeza nacional, procurando colocar Portugal em condições de verdadeiro e sério aliado com a Inglaterra; desenvolver as colónias sob a base do self-gouvernement; conceder plena autonomia ao poder judicial; criar o sufrágio universal e livre, assegurar o crédito público; desenvolver a economia nacional; estabelecer o equilíbrio do orçamento; fazer respeitar todas as liberdades necessarias, expulsar frades e freiras em harmonia com as nossas seculares leis liberaes; instituir a assistencia social, decretar a separação da egreja do estado; remodelar os impostos.”
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Fig. 2 -  Festas do Tri-Centenário da Morte de Camões – Chegada do Cortejo Cívico à Praça Luís de Camões (Desenho de Casanova -  Revista “O Occidente”, nº 61 de 8 de Julho de 1880).
Fig. 3 - Manifestação patriótica em Lisboa, de repúdio pelo Ultimatum inglês, junto ao monumento aos Restauradores (Desenho de L. Freire – Revista “O Occidente”, nº 399 de 21 de Janeiro de 1890).
Fig. 4 - A Avenida da Liberdade, palco da Revolução (Fotografia reproduzida na Revista “O Occidente”, nº 1144 e 1145 de 20 de Outubro de 1910).
Fig. 5 - Um aspecto do acampamento revolucionário, no alto da Avenida da Liberdade (Cliché da “Mala da Europa”, reproduzido na Revista “O Occidente”, nº 1144 e 1145 de 20 de Outubro de 1910).
Fig. 6 - No acampamento revolucionário, o povo armado, nas barricadas que levantou (Fotografias reproduzidas na Revista “O Occidente”, nº 1144 e 1145 de 20 de Outubro de 1910).
Fig. 7 - O acampamento revolucionário, povo, soldados de Infantaria 16 e Artilharia 1, fazendo pontarias (Fotografias reproduzidas na Revista “O Occidente”, nº 1144 e 1145 de 20 de Outubro de 1910).
Fig. 8 - Revolucionários do 5 de Outubro entrincheirados na Rotunda (Fotografia de Anselmo Franco – Arquivo Fotográfico do Arquivo Municipal de Lisboa).
Fig. 9 - No acampamento revolucionário, alguns momentos de armistício (Instantâneos de Joshua Benoliel, reproduzidos na Revista “O Occidente”, nº 1144 e 1145 de 20 de Outubro de 1910).
Fig. 10 - Revolucionários triunfantes hasteando a bandeira da República no seu acampamento na avenida da Liberdade (Fotografia reproduzida na Revista “O Occidente”, nº 1144 e 1145 de 20 de Outubro de 1910).
Fig. 11 - Revolucionários na Rotunda (Fotografia de Joshua Benoliel – Arquivo PCD).
Fig. 12 - Mulheres presentes nas barricadas da Rotunda (Fotografia de Joshua Benoliel – Arquivo PCD).
Fig. 13 - Mulheres presentes nas barricadas da Rotunda (Fotografia de autor não identificado, provavelmente  Joshua Benoliel).
Fig. 14 - Lado a lado, civis e militares nas barricadas da Rotunda (Fotografia de Joshua Benoliel – Arquivo PCD).
Fig. 15 - Os marinheiros que desembarcaram dos navios de guerra, passando no Rocio, dirigem-se para o acampamento da Revolução na Avenida da Liberdade (Fotografia da Revista “O Occidente”, nº 1144 e 1145 de 20 de Outubro de 1910).
Fig. 16 - Manifestação entusiástica de apoio à revolução republicana por parte de populares e de soldados da Guarda Fiscal que empunham a bandeira republicana. (Fotografia de Joshua Benoliel – Arquivo Fotográfico do Arquivo Municipal de Lisboa).
Fig. 17 - O quartel-general dos revolucionários instalado na casa do Sr. Costa Lopes na Avenida da Liberdade (Fotografia reproduzida na Revista “O Occidente”, nº 1144 e 1145 de 20 de Outubro de 1910).
Fig. 18 - No Largo das duas Igrejas. Os revolucionários percorrem em trens as ruas de Lisboa (Fotografia reproduzida na Revista “O Occidente”, nº 1144 e 1145 de 20 de Outubro de 1910).
Fig. 19 - No Rocio – Os revolucionários saúdam o povo de Lisboa que os aclama (Fotografia do Estúdio Mário Novais - Arquivo Fotográfico do Arquivo Municipal de Lisboa).
Fig. 20 - O povo em frente à Câmara Municipal de Lisboa durante a proclamação da República (Fotografia de Joshua Benoliel – Arquivo Fotográfico do Arquivo Municipal de Lisboa).
Fig. 21 - O povo em frente à Câmara Municipal de Lisboa aclama a proclamação da República (Fotografia de Joshua Benoliel – Arquivo Fotográfico do Arquivo Municipal de Lisboa).
Fig. 22 - O Governador Civil, Eusébio Leão, à varanda da Câmara Municipal de Lisboa, após a proclamação da República, aconselha comedimento nos ânimos populares (Fotografia de Joshua Benoliel – Arquivo Fotográfico do Arquivo Municipal de Lisboa).
Fig. 23 - Inocêncio Camacho, à varanda da Câmara Municipal de Lisboa, após a proclamação da República, lê os nomes dos membros do Governo Provisório (Fotografia de Joshua Benoliel – Arquivo Fotográfico do Arquivo Municipal de Lisboa).

Fig. 24 - Depois da revolução, recolhendo as armas (Fotografia reproduzida na Revista “O Occidente”, nº 1144 e 1145 de 20 de Outubro de 1910).
Fig. 25 - Bilhete-postal humorístico da época com o GOVERNO PROVISÓRIO DA REPÚBLICA. Da esquerda para a direita: BRITO CAMACHO (Ministro do Fomento), AMARO JUSTINIANO DE AZEVEDO GOMES (MINISTRO DA MARINHA E DO ULTRAMAR), ANTÓNIO JOSÉ DE ALMEIDA (Ministro do Interior), TEÓFILO BRAGA (Presidente do Conselho de Ministros), ANTÓNIO XAVIER CORREIA BARRETO (Ministro da Guerra), BERNARDIM MACHADO (Ministro dos Negócios Estrangeiros), AFONSO COSTA (Ministro da Justiça e Cultos), JOSÉ RELVAS (Ministro das Finanças).

11 comentários:

  1. Nao aja duvida que foi um momento hestorico, foi uma mudança o fim de uma era o do reinado,penso que esta mensagem bem a proposito do estado que o nosso pais se encontra, julgo que e uma reflexao em que o povo portugues devera pensar e dizer chega de sermos massacrados humilhados, e espezinhadas,este e o pior momento que portugal se encontra depois do 25 de Abril, eu pergunto aos senhores da politica, se o governo deve renunciar ou seu mandato, ou cera que avera uma revoluçao esta e a minha pergunta,cera que os portugueses vao aguentar mais esta cituaçao,e urgente ja de mediato acabar com esta cituaçao o desespero da populaçao omenta,na minha openiao e quase certo que ficara pior do que a Grecia, tabem e preciso que os partidos estejam cientes que podera fazer alguma coisa porque a fatura portuguesa tera que ser paga e ninguem faz milagres, sempre firmeza no que se diz pode-se ou nao, os portugueses tem o direito de saber e estar ou par das coisas para que os portugueses saibam o que esta a fazer e nao aver conflitos para que todos cejam beneficiados sem prejuizo algum,a prioridade deste pais e criar emprego e nao escorraçar empresas quando quer investir em portugal e uma das preoridades tambem ajudar quem quer trabalhar isto e as pequenas e medias enpresas nao pensar so em ajudar a quem desperdiçou e roubou

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  2. Deixei de comemorar a República, desde que me tornei monárquica...


    http://www.peticaopublica.com/?pi=P2010N3114

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  3. o alemão que mandou hastear uma bandeira branca...estou convencido... foi um espião do Kaiser que mandou destabilizar Portugal

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  4. Super interessante de (re)ler, como de costume.
    E bem ilustrado com boas fotografias
    Obrigada

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    1. Terezinha:
      Muito obrigado pelo seu estimulante comentário.

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  5. Só agora reparei melhor nas fig.22 e 23. No fundo, o prédio que faz gaveto, no último andar moravam as minhas bisavó e avó maternas. A minha irmã ainda ali nasceu

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  6. Voltei a visitar aqui...já com um olho no próximo dia 5 de Outubro.
    Depois, no próprio dia, irei partilhar. Como deixou de ser feriado (em completo desacordo) muito jovem vai deixar de saber o que significou este dia. É bom lembrar a n/ história, seja republicana ou monarquica

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  7. Assim é, Terezinha.
    Os meus cumprimentos.

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  8. Boa tarde Hernâni,
    Antes de mais parabéns por mais um excelente trabalho seu.
    Em relação ao momento importante da história de Portugal, é pena que hoje estas datas não sejam comemoradas. País que não comemora importantes factos da sua história não merece viver.
    No nosso caso concreto, vegetamos!
    Abraço

    Abilio

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    1. Tem toda a razão Abílio. e põe-se a mesma questão em relação ao 1º de Dezembro.

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