A exposição Artes do Vagar é um acontecimento que não pode ser ignorado ou tratado de um modo ligeiro.
A exposição em causa traz-nos a
salvaguarda de um mundo que a tecnologia hoje ameaça. Compõe-se de trabalhos de
artesãos, com rosto e nome, que reconheceram na madeira, no papel e naquilo de
que são feitos os chifres, a mestria humana, a criatividade, a imaginação, a
própria vida retratada, com esforço ou mistério.
Estamos do outro lado do mundo
efémero, veloz, onde o tempo é um ápice, uma migalha, a mediocridade sedutora
que nos aniquila. A natureza daqueles artesãos encontrou, na sua sensibilidade,
uma forma de fazer com que o tempo não os pressionasse, mas também não deixaram
que o tempo fosse ocasião para o esvair, sem sentido, daquilo que se faz, como
uma indolência surda que nos consome.
Não. O tempo é, por eles, visto
como uma terceira possibilidade: é aquilo que leva cada pessoa na direcção da
perfeição. É isso que a exposição mostra: alcançar a perfeição sem o recurso às
mais variadas tecnologias; mostrar a perfeição de que um ser humano é capaz,
simplesmente porque é humano e porque o tempo é o seu melhor companheiro para
obter esse atributo.
Olhando a sala daquela exposição,
é como se o mundo fosse outro, uma nave, um bunker. Parece que ali
adquirimos protecção. Deixámos para trás aquilo de que muitos tanto gostam: as
tecnologias usurpadoras e manipuladoras que nos fazem engolir o tempo até à
exaustão. Não há ali espectáculo; há tão-somente o belo conseguido pela
perfeição humana.
Por isso, Hernâni, a cidade
está-te grata, muito grata, mesmo que os pobres responsáveis e muitos de nós
não percebamos isso.
Obrigado, caríssimo e bom amigo!






















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