domingo, 13 de setembro de 2020

Imagens devocionais e inovação


Menino Jesus Salvador do Mundo – Jorge da Conceição (1963-  ).

Introdução
É vasta e diversificada a galeria dos Bonecos de Estremoz. Numa tentativa de sistematização é habitual agrupá-los em dois grandes grupos: “Bonecos das Tradição” e “Bonecos da Inovação”.
Bonecos da Tradição
Os “Bonecos da Tradição” são as figuras que se começaram a modelar na sequência da recuperação da produção de Bonecos de Estremoz, extinta desde 1921. Essa recuperação foi concretizada em 1935, graças à acção do escultor José Maria de Sá Lemos (1892-1971), que para o efeito recorreu primeiro à velha barrista Ana das Peles (1869-1945) e depois ao mestre oleiro Mariano da Conceição (1903-1959). Foram eles que concretizaram no barro os conceitos estéticos de Sá Lemos (modo de representação, dimensões, proporções e cromatismo).
Tais conceitos foram sendo interpretados e reinventados pelos barristas desde então para cá, já que os barristas gostam de deixar marcas pessoais naquilo que é obra sua.
No decurso do tempo, os barristas mais perfeccionistas aprofundaram a modelação, tornando-a mais rigorosa na representação, a qual passou a incluir mais pormenores.
Simultaneamente a decoração das figuras vai-se tornando mais rica, não só pela utilização de múltiplas harmonias cromáticas como pelo aumento de pormenores da decoração.
Bonecos da Inovação
Não existem só “Bonecos da Tradição”. Por sua própria iniciativa, fruto de encomenda ou por sugestão de alguém, os barristas são levados a criar novas figuras que até então ninguém fizera. São aquilo que podemos designar por “Bonecos da Inovação”, os quais, apesar da designação, respeitam o ancestral processo de fabrico dos Bonecos de Estremoz.
Tipos de inovação
A inovação refere-se não só à criação de novos modelos, como também ao aprofundamento da modelação pela inclusão de mais pormenores na representação, assim como ao enriquecimento da decoração.
Por vezes a manufactura de figuras mais complexas e de execução mais morosa está na génese de uma mudança de paradigma na nossa barrística, o que a leva a atingir um patamar mais elevado da sua expressão. Verifica-se sobretudo nas Irmãs Flores, Ricardo Fonseca e Jorge da Conceição.
Eu inovador, me confesso
A Tradição tem os seus acólitos e a Inovação tem os seus seguidores.
Os acólitos da Tradição entendem ser precisos mais barristas a produzir “Bonecos da Tradição” e querem menos Inovação.
Os seguidores da Inovação não têm nada contra a produção de Bonecos da Tradição, mas entendem que a barrística tal como a arte em geral, tende naturalmente a inovar, não só em termos de temas, como em termos de execução.
Trata-se de dois tipos de pontos de vista antagónicos dificilmente conciliáveis, face aos pressupostos em que assentam.
Pela minha parte e na qualidade de seguidor da Inovação, vou procurar mostrar em textos como este e naqueles que se lhe seguirão, a riqueza resultante da Inovação. Começarei pela inovação temática e mais precisamente no domínio das imagens devocionais. 
Imagens Devocionais e Inovação
Nos anos 40 do séc. XX existiam 10 imagens devocionais na barrística popular de Estremoz: Fuga para o Egipto, Menino Jesus no Berço, Nossa Senhora Ajoelhada, São José Ajoelhado, Nossa Senhora em Pé, São José em Pé, Santo António, São João Baptista, Senhor dos Passos e Senhoras das Dores.
Actualmente existem pelo menos mais 51 imagens devocionais: Menino Jesus Salvador do Mundo, Nossa Senhora Auxiliadora, Nossa Senhora da Alegria, Nossa Senhora da Aparecida, Nossa Senhora da Ascensão, Nossa senhora da Conceição, Nossa Senhora da Guia, Nossa Senhora da Redenção, Nossa Senhora das Graças, Nossa Senhora das Misericórdias, Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora de Guadalupe, Nossa Senhora Desatadora de Nós, Nossa Senhora do Campo, Nossa Senhora do Cardal, Nossa Senhora do Carmo, Nossa Senhora do Ó, Pietá, Princesa Santa Joana, Santa Ana, Rainha Santa Isabel, Santa Apolónia, Santa Bárbara, Santa Catarina de Alexandria, Santa Cecília, Santa Emília, Santa Filomena, Santa Inês, Santa Iria, Santa Justa, Santa Luzia, Santa Madalena, Santa Margarida, Santa Rita de Cássia, Santa Rita do Menino Jesus, Santo Aleixo, Santo André, Santo Antão, Santo Isidro, Santo Ivo, Santos Pastorinhos de Fátima, São Bento, São Fernando, São Francisco de Assis, São Jorge,  São Lourenço, São Nuno de Santa Maria, São Pedro, São Roque, São Tiago Maior, São Vicente.
Algumas destas imagens devocionais têm inúmeras variantes: Santo António, São João Baptista, São Pedro, São José, Nossa Senhora da Conceição e Rainha Santa Isabel. A estas imagens devocionais há que acrescentar ainda inúmeras imagens devocionais correspondentes a cenas da Paixão de Cristo ou Milagres de Santo António.
Balanço Final
Creio ter ficado demonstrado duma forma cabal, a importância de que se revestiu a “Inovação” como factor de enriquecimento e valorização do domínio das “Imagens Devocionais”

Menino Jesus (Lâmina) - Isabel Pires (1955-  ).

Nossa Senhora com o Menino, São João e Santo António – Irmãs Flores (1957,1958- ).

Nossa Senhora da Conceição – Afonso Ginja (1949-  ).

Nossa Senhora da Redenção. Jorge da Conceição (1963-  ).

Nossa Senhora das Graças - Irmãs Flores (1957, 1958-  ).

Nossa Senhora das Misericórdias - Irmãs Flores (1957,1958-  ).

Nossa Senhora Desatadora de Nós - Irmãs Flores (1957,1958-  ).

Nossa Senhora do Campo – Ricardo Fonseca (1986-  ).

Nossa Senhora do Cardal – Ricardo Fonseca (1986-  ).

Nossa Senhora do Ó – Jorge da Conceição (1963-  ).

Pietá - Isabel Pires (1955-  ).

Rainha Santa Isabel – Ricardo Fonseca (1986-  ).


Santa Apolónia - Maria Luísa da Conceição (1934-2015).

Santa Catarina de Alexandria – Maria Luísa da Conceição (1934-2015).

Santa Inês - Irmãs Flores (1957,1958-  ).


Santa Margarida - Maria Luísa da Conceição (1939-2015).

Santa Marta - Isabel Pires (1955-  ).

Santa Rita de Cássia – Jorge da Conceição (1963-  ).


Santa Teresinha do Menino Jesus – Jorge da Conceição (1963-  ).

Santo António (Lâmina) – Guilhermina Maldonado (1937-2019).


Santo António com capuz – Liberdade da Conceição (1915-1990).

Santo António, cónego regrante de Santo Agostinho – Maria Luísa da Conceição (1934-2015).

Santo Ivo - Jorge da Conceição (1963-  ).           

São Francisco de Assis com Presépio – Ricardo Fonseca (1986-  ).

São Jorge - Maria Luísa da Conceição (1934-2015).

São José - Maria Luísa da Conceição (1934-2015).

São Miguel – Ricardo Fonseca (1986-  ).

São Pedro – Afonso Ginja (1949-  ).

São Sebastião – Irmãos Ginja (1938-2018, 1949-  ).

São Vicente – Jorge da Conceição (1963-  ).

Última Ceia – Isabel Pires (1955-  ).

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