quarta-feira, 9 de novembro de 2016

59 - O aguadeiro – 9


Aguadeiro (2016).
Ricardo Fonseca (1986-  ).
Colecção particular.
Figurado de Estremoz – 4
O aguadeiro de Ricardo Fonseca (2016) é um conjunto constituído por uma figura antropomórfica masculina (o aguadeiro) e uma figura zoomórfica (o burro).
Representa um aguadeiro da cidade, trajando ao jeito de meados do séc. XX, que nas mãos segura as rédeas para a condução da cavalgadura, representadas por fio castanho-claro. Na cabeça, dois pontos negros interpretam os olhos, encimados por dois traços castanhos de espessura diferente, que figuram as pestanas e as sobrancelhas. No nariz em relevo, estão caracterizadas as narinas. Na boca, os lábios avermelhados igualmente em relevo. O cabelo é castanho-escuro, penteado em relação ao observador, com risca do lado direito e melena que aponta para o lado esquerdo, com patilhas laterais e apresenta também volumetria, tal como as orelhas que estão a descoberto. Em cada uma das faces é visível uma roseta alaranjada. Na cabeça, um chapéu aguadeiro negro e sem fita. A figura enverga calças em relevo, de cor castanha e camisa de manga comprida, com colarinho e punhos, de fundo creme, axadrezada a preto e a castanho, com abertura frontal, sem quaisquer botões visíveis. Por cima da camisa, um colete igualmente em relevo, cinzento atrás e azul à frente, ostentando aqui dois bolsos de relógio apresentados por riscos incisos e uma abotoadura revelada por um alinhamento vertical de cinco cavidades circulares. Os botins são pretos.
Atrás do homem encontra-se um burro de cor acastanhada e cascos castanhos-escuros e em relevo, que estando a marchar para o lado direito do observador, apresenta a cauda negra e comprida, com linhas incisas, viradas para o mesmo lado. O pescoço do animal ostenta crina negra com linhas incisas. Na cabeça, são visíveis duas orelhas, dois olhos pintados, um sulco que aparenta a boca e duas cavidades circulares, num tom de cor diferente, fazendo as vezes de narinas. A cabeça e o focinho da cavalgadura estão cingidos por uma cabeçada em relevo, de cor castanho-escuro. Da cabeçada parte lateralmente fio castanho-claro, simbolizando as rédeas para a condução do jumento, que o homem agarra com qualquer das mãos. No cachaço do animal está assente uma manta em relevo e com riscas em vários tons de castanho. A ela está sobreposto um molim, também em relevo e listado em castanho, azul, amarelo e verde. O molim apresenta sete borlas esféricas, cor de zarcão. O asno está atrelado a uma carro de tracção animal, com dois varais e duas rodas de seis raios, imitando madeira pintada de vermelho. A orla exterior das rodas está pintada de cinzento-escuro, a simular aros de ferro. O estrado do carro é baixo e encontra-se dividido em doze receptáculos de forma quadrada, para transporte de igual número de cântaros de barro, com tampa igualmente de barro e que terminam por uma saliência de forma semiesférica, visando facilitar o seu manuseamento.
O conjunto assenta numa base rectangular de cor verde bandeira, pintada lateralmente a castanho avermelhado.
À semelhança do que já tinha afirmado relativamente ao aguadeiro de Jorge da Conceição (2014), estamos novamente em presença de uma figura de manufactura mais difícil e morosa que o aguadeiro do núcleo base do figurado de Estremoz. Ricardo Fonseca é perfeccionista, o que o leva a dedicar-se aos pormenores, não só na manufactura das figuras, como na sua pintura. Catapulta assim o figurado de Estremoz a um patamar mais elevado, que aqui se assinala e elogia, já que ocorreu aqui uma nova mudança de paradigma.
Hernâni Matos