quarta-feira, 23 de março de 2011

Estão a meter água

SETEMBRO (VINDIMA) - Iluminura (10,8x14 cm) do “Livro de Horas de
D. Manuel I” [Século XVI (1517-1551)], manuscrito com iluminuras
atribuídas a António de Holanda, conservado no Museu Nacional de
Arte Antiga. Pintura a têmpera e ouro sobre pergaminho.

À CATARINA, MINHA FILHA:

Somos um país com uma agricultura errada, em que se pagou aos agricultores para deixarem de cultivar. Para além disso, encheu-se o Algarve de campos de golfe e transformou-se o Alentejo numa vinha gigante, com as inescapáveis consequências que daí advêm e que se traduzem numa contaminação irreversível dos aquíferos usados no consumo humano.
Somos um país pequenino, mas com jeito para muitas coisas, entre elas a criatividade da gíria popular, do calão, das frases idiomáticas e das alcunhas. Usando dessa criatividade é caso para dizer a quem nos governa, em primeiro lugar:
- Estão a meter água!
Em segundo lugar, vamos dar conta dessa criatividade linguística, através duma resenha necessariamente sucinta no âmbito da temática “Água”:

- A PÃO E ÁGUA - Submetido a regime alimentar muito rigoroso. [6]
- ÁGUA BENTA – Protecção. [3]
- ÁGUA BÓRICA - Aguardente falsificada. [1]
- ÁGUA DE BACALHAU – Fiasco; Malogro. [1]
- ÁGUA DE CASTANHAS – Infusão de café ordinário. [7]
- ÁGUA DE CHEIRO – Alcunha outorgada a jovem que andava sempre muito perfumado (Aljustrel). [5]
- ÁGUA DE CÚ LAVADO – Poção que se crê existir e pode ser dada a beber traiçoeiramente a pessoa que se pretenda dominar, nomeadamente em jogos amorosos. [4]
- ÁGUA FERRADA – Água em que se deitou uma brasa para a amornar. [7]
- ÁGUA FRESCA – Designação atribuída a um aguadeiro (Mourão). [5]
- ÁGUA FRIA – O alcunhado caiu dentro de um poço e quando o retiraram de lá, disse que a água estava fria (Castro Verde). [5]
- ÁGUA MORNA - Pessoa com falta de energia, indolente, incapaz de qualquer iniciativa. [1]
- ÁGUA NO BICO - Intenção reservada. [1]
- ÁGUA- VAI! – Grito com que se lançava água suja na rua. [3]
- AGUAÇA – Enxurrada. [7]
- AGUACEIRO - Indivíduo que vive com contrariedades. [2]
- AGUADA - Pequeno descanso de um quarto de hora que o managteiro dá aos trabalhadores para beberem ou fumarem.[7]
- AGUADEIRO – Vocábulo desdenhoso do cocheiro que evidencia conhecimento nulo o que é conduzir. [7]
- AGUADILHA - Vinho fraco, aguado. [2]
- AGUARITA – Caldo muito aguado. [7]
- AGUARRÁS - Aguardente de figo ou de cereais.[1]
- ÁGUA-RUÇA - Reduzido a nada. [1]
-  ÁGUAS BELAS – Criança pálida e enfezada. [3]
-  ÁGUAS CARREGADAS – Sinal de zangas domésticas. [3]
-  ÁGUAS DA VALA - Preguiça ; moleza. [1]
-  ÁGUAS PASSADAS – Tempos ou coisas ultrapassadas. [3]
-  ÁGUAS-FURTADAS – A cabeça. [3]
-  BALDE DE ÁGUA FRIA -  Desilusão, decepção. [6]
-  CARGA DE ÁGUA - Chuvada violenta; motivo. [6]
-  CLARO COMO ÁGUA – Evidente. [6]
-  COMO DUAS GOTAS DE ÁGUAS - Perfeitamente idênticas. [6]
-  COMO PEIXE NA ÁGUA – À vontade. [6]
-  CRESCER ÁGUA NA BOCA - Experimentar forte desejo. [6]
-  DAR ÁGUA PELA BARBA – Ser difícil de conseguir. [6]
-  DE PRIMEIRA ÁGUA - Admirável. [6]
-  FÁCIL COMO A ÁGUA - Muito fácil de conseguir. [6]
-  FERVER EM POUCA ÁGUA - Irritar-se facilmente. [6]
-  IR POR ÁGUA ABAIXO - Falhar. [6]
-  LEVAR ÁGUA AO RIO - Fazer trabalho escusado. [6]
-  LEVAR ÁGUA AO SEU MOINHO – Arguir. [6]
-  METER ÁGUA - Ter um desaire. [2]
-  NAVEGAR ENTRE DUAS ÁGUAS - Usar de duplicidade. [6]
-  NAVEGAR NAS MESMAS ÁGUAS - Perfilhar as mesmas convicções. [6]
-  PARTIR PARA ÁGUAS - Ir para férias a fim de descansar ou tratar da saúde; ausentar-se para lugar incerto. [6]
-  PÔR A CABEÇA EM ÁGUA - Causar grandes preocupações. [6]
-  PÔR AGUA NA FERVURA -  Dizer ou fazer alguma coisa com a intenção de tranquilizar os espíritos. [6]
-  PRIMEIRAS ÁGUAS - As primeiras chuvas. [6]
-  SACUDIR A ÁGUA DO CAPOTE - Enjeitar responsabilidades. [6]
-  SEM DIZER ÁGUA VAI – Inesperadamente. [6]
-  SUJAR A ÁGUA QUE BEBE - Ser pessoa mal-agradecida. [6]
-  TEMPESTADE NUM COPO DE ÁGUA - Grande alarde. [6]
-   VERTER ÁGUAS - Urinar. [6]

Em suma: estão a meter água e põem-nos a cabeça em água. E olhem que isto não é uma tempestade num copo de água!

BIBLIOGRAFIA
[1] - BESSA, Alberto. A Gíria Portugueza. Gomes de Carvalho - Editor. Lisboa, 1901.
[2] – LAPA. Albino. Dicionário de Calão. Edição do Autor. Lisboa, 1959.
[3] - NEVES, Orlando. Dicionário de Expressões Correntes. Editorial Notícias. Lisboa, 1998.
[4] - NOBRE, Eduardo. Dicionário de Calão. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1986.
[5] – RAMOS, Francisco Martins; SILVA, Carlos Alberto da. Tratado das Alcunhas Alentejanas. 2ª edição. Edições Colibri. Lisboa, 2003.
[6] – SANTOS, António Nogueira. Novos dicionários de expressões idiomáticas. Edições João Sá da Costa. Lisboa, 1990.
[7] - SIMÕES, Guilherme Augusto. Dicionário de Expressões Populares Portuguesas. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1993.