segunda-feira, 6 de junho de 2011

O carapuço na barrística popular estremocense

Fig. 1 - Pastor a fazer as migas, sentado. Peça da barrística popular estremocense, da autoria das Irmãs Flores. 


Fig. 2 - Pastor a fazer as migas, deitado. Peça da barrística popular estremocense, da autoria das Irmãs Flores. 
Fig. 3 - Matança do porco. Peça da barrística popular estremocense, da autoria das Irmãs Flores.

Quando em Dezembro passado dei à estampa a segunda edição do meu livro “BONECOS DA GASTRONOMIA”, fui questionado por um leitor, em virtude de em três peças da barrística popular estremocense, da autoria das Irmãs Flores, figurarem camponeses de barrete na cabeça, o que segundo o meu interpelador, não seria característico do Alentejo (Fig. 1, Fig. 2 e Fig. 3).
Eu na altura respondi-lhe que o barrete se usou em todo o país. Do Norte para o Sul e do Litoral para o Interior. Todavia, as imagens habitualmente veiculadas pelos nossos ranchos folclóricos, associam mais o barrete às zonas piscatórias (Póvoa de Varzim, Aveiro, Nazaré), bem como ao Ribatejo.
Hoje tenho oportunidade de esclarecer o assunto duma forma mais aprofundada duma tripla maneira, com recurso a referências etnográficas, de literatura oral e fotográficas, que passo de imediato a referir.
No Alentejo, o vestuário do trabalhador do campo, incluía em 1896, em vez do chapéu e principalmente de Inverno, o barrete, também chamado gorro (Tolosa, Barrancos) ou carapuço (Estremoz, Alandroal, Montemor-o-Novo) [1].
O cancioneiro popular alentejano refere o uso do gorro preto:



“Ó rapaz da cinta verde,
Ó rapaz do gorro preto,
Vou cantar uma cantiga,
E vai ser a teu respeito.” [2]



“Ó rapaz do gorro novo,
Ó rapaz do gorro preto,
A respeito do que cantam,
Preciso é falar com jeito.” [2]



“Ó rapaz do gorro preto,
Volta-o de dentro p’ra fora;
Inda estou do mesmo lado,
Inda me não volto agora.” [2]



“Ó rapaz do gorro, gorro.
Ó rapaz do gorro preto,
A respeito de namoro
É preciso muito jeito.” [2]



O mesmo cancioneiro refere igualmente o uso do gorro verde:



“Ó fêra de S. Mateus,
Onde se vendem pinhões,
Anda agora muito em moda
Gorros verdes à Camões.” [2]



“Ó rapaz do gorro verde,
Quem te mandou cá entrar?
Se não cantas ‘ma cantiga,
Já te podes retirar.” [2]



“Eu venho detrás da serra
Com o meu gorro à campina;
Quem é mestre também erra,
Quem erra também se ensina.” [2]



O uso do gorro preto ou vermelho, está de resto referenciado como tradição popular nesta região. [3]
A nível fotográfico, o uso do barrete no Alentejo, está documento por bilhetes-postais ilustrados referentes a actividades agro-pastoris: lavra e sementeira (Fig. 4), apanha da azeitona (Fig. 5) e maioral e ajuda, figuras da pastorícia alentejana (Fig. 6).
Julgamos que com estas considerações tenha ficado demonstrado duma forma insofismável, o uso do barrete no Alentejo, o que legitima as representações da barrística popular estremocense que o utilizam. Caso das peças citadas: “Pastor a fazer as migas sentado”, “Pastor a fazer as migas deitado” e “Matança do porco”. Barristas como Mariano da Conceição, Liberdade da Conceição, Sabina Santos, Quirina Marmelo, Irmãs Flores e Fátima Estróia, cobriram a cabeça destas figuras com o tradicional barrete. Já José Moreira, substituiu nas mesmas figuras e a partir de uma certa altura, o barrete pelo tradicional chapéu aguadeiro, conforme ilustramos com a “Matança do porco" (Fig. 7), de sua autoria.

BIBLIOGRAFIA
[1] – LEITE DE VASCONCELLOS, J. Etnografia Portuguesa, Vol. VI. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Lisboa, 1975.
[2] - THOMAZ PIRES, A. Cantos Populares Portuguezes. Vol. IV. Typographia e Stereotipía Progresso. Elvas, 1912.
[3] - THOMAZ PIRES, A. Tradições Populares Transtaganas. Tipographia Moderna. Elvas, 1927.
 fig. 4 - A lavra e a sementeira no Alentejo, no início do século XX. Postal edição Malva (Lisboa). 
 Fig. 5 - A apanha da azeitona no Alentejo, no início do século XX. Postal edição Tabacaria Gonçalves (Lisboa).
Fig. 6 - Maioral e ajuda, figuras da pastorícia alentejana, no início do séc. XX. Postal edição Malva (Lisboa).
Fig. 7 - Matança do porco. Peça da barrística popular estremocense, da autoria de José Moreira.