quinta-feira, 30 de maio de 2013

“Até amanhã, Manuel Tiago" ou o neo-realismo como projecto de resistência.

A Professora Francisca Matos no decurso da sua palestra.
 Fotografia de Luís Mariano Guimarães.

Álvaro Cunhal, político e homem de Cultura, foi analisado enquanto escritor numa palestra ocorrida no passado dia 18 de Maio, na Sala de Exposições do Centro Cultural de Estremoz. Foi oradora a Professora Francisca Matos, que dissertou sobre o tema “Até amanhã, Manuel Tiago" ou o neo-realismo como projecto de resistência”. A iniciativa, integrada nas “Comemorações do Centésimo Aniversário do Nascimento de Álvaro Cunhal”, foi da Associação Filatélica Alentejana e contou com o apoio do Partido Comunista Português e da Câmara Municipal de Estremoz.
A palestrante procurou dar resposta a duas questões: a primeira, o que é o neo-realismo e quais as suas características fundamentais? A segunda, qual o papel de Álvaro Cunhal no neo-realismo português.
A oradora apresentou o neo-realismo como movimento literário que se manifestou entre meados dos anos 30 e finais da década de 50 do século XX, num período difícil que engloba a crise económica iniciada em 1929, o triunfo do nazismo e do fascismo na Europa e o deflagrar da 2ª Guerra Mundial. E acrescentou que é nesse contexto assinalado e condicionado por intensas tensões ideológicas, políticas, económicas, sociais e literárias que se consolidou o neo-realismo, que conduzirá os escritores e os artistas a uma tomada de consciência diferente daquilo que era a realidade portuguesa. A seu ver, eles protagonizam então um confronto intelectual e doutrinário com os presencistas, pertencentes à geração literária anterior, o qual irá emergir nas páginas de publicações como o jornal O Diabo, as revistas Seara Nova, Sol Nascente e Vértice. Em causa, segundo nos diz, estava uma interpretação diversa da função social do escritor e da própria literatura. Na verdade, como nos ensinou Francisca Matos, os neo-realistas acusavam a literatura presencista de ser “individualista, psicologista e, sobretudo, desinteressada do homem concreto e social”. Além disso, defendiam a prevalência do “conteúdo” em relação à “forma”, visando uma maior consciencialização política e social dos leitores, de modo a que esta pudesse conduzir a uma transformação política do país.
Para falar de Álvaro Cunhal/Manuel Tiago, a Professora Francisca Matos teve que viajar no tempo até à Penitenciária de Lisboa, onde ele se encontrava desde 1949 em regime de isolamento. Deu-nos assim conta de que visando lutar contra os efeitos psicossomáticos da encarceração, ele engendra múltiplas estratégias de ocupação do tempo, dedicando-se a uma intensa actividade intelectual que passa pela leitura, pela tradução, pelo desenho, pela pintura e pela escrita. Esta última, segundo disse a oradora vai funcionar como uma espécie de ligação aos companheiros da própria prisão e aos companheiros que no exterior davam continuidade à luta anti-fascista. É, de resto, uma forma de manter acesas as memórias e as imagens da vida exterior à prisão e aí encontra a força interior necessária para resistir à privação de liberdade e ao isolamento.
A escrita de um livro como “Até amanhã, camaradas” cumpre, na óptica da palestrante, variadas funções: é a prova de que Álvaro Cunhal não se deixa abater perante os carcereiros, mas é também um manifesto que apela à resistência colectiva dos que, cá fora, deverão dar continuidade à luta comum. “Até amanhã, Camaradas” constitui a seu ver uma epopeia da clandestinidade, em que Vaz, o “homem da bicicleta” personifica vários homens, companheiros de Álvaro Cunhal na clandestinidade, na luta política e nos ideais. Trata-se na sua opinião de um “herói” colectivo que simboliza os ideais do partido, cuja missão é preparar o restante colectivo (camponeses, operários e intelectuais) para “a revolução e o derrube da ditadura”. Por isso considera que a obra Até amanhã, camaradas, como outras de Manuel Tiago/Álvaro Cunhal ocupam um lugar de destaque no neo-realismo português. É que, segundo disse, apesar do seu autor ter escrito para si e por si, escreveu para os outros num espírito de fraternidade e de humanidade. Legou-nos assim um importante testemunho para memória futura sobre o que foi a luta pela liberdade e pela democracia no tempo da ditadura fascista, escrito por quem a viveu “por dentro” e por isso dela tinha uma visão privilegiada. É convicção de Francisca Matos que os textos de Manuel Tiago/Álvaro Cunhal falam de luta e de sofrimento, mas apelam à liberdade e à consciência da importância de ser livre e de viver sem medo. Esse terá sido o seu grande legado para todos nós.
No final da palestra, a que assistiram mais que cinco dezenas de pessoas, houve um debate vivo com a assistência.


Aspecto parcial da assistência à palestra.
Fotografia de Luís Mariano Guimarães.