quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

De Arraiolos não vêm só tapetes


Capa de Alberto de Souza (1880-1961) para o livro “TAPETES DE ARRAYOLOS”,
editado em 1917 por D. Sebastião Pessanha (1892-1975).

É um tremor de terra, Hernâni!
Era um fim de manhã soalheiro de Janeiro. Sentado à secretária, filigranava uma farpa literária destinada a alguém, que algures dela é merecedor. Da cozinha chegava-me às narinas um olor carnal a ensopado de borrego que apurava no fogão. O aroma das especiarias excitava-me o olfacto e o palato.
De repente, sinto um abanão que me induz a vibrar solidariamente com a casa onde moro. Simultanea e sincronicamente, as vidraças da janela começam a tremer com um nervoso que nada tinha de miudinho. Como sou um penso rápido, disse para comigo mesmo:
- “ É um tremor de terra, Hernâni!”
Não deu para rezar a Santa Bárbara, já que não se tratava dum castigo do Céu. Aquilo era obra do Demónio, congeminada nas entranhas da Terra. Havia que sair rapidamente de onde estava, pelo que me levantei da cadeira como que impulsionado por uma mola. Atravessei a sala de jantar, na qual o lustre oscilava e os copos tilintavam nas cristaleiras, em sintonia com as vidraças. Era um concerto para fugir dali. Por isso, desci dois lances de escada a uma velocidade que só eu sei, no que fui acompanhado pela patroa. Chegados à rua, não se falava noutra coisa e cada um relatava a sua experiência pessoal.
Tem a palavra o IPMA
Decorrido algum tempo, o IPMA divulgou a seguinte nota informativa, a qual foi transmitida pelos média:
“O sismo que ocorreu às 11:51 (UTC), com uma magnitude ML=4.9, localizou-se na região NE de Arraiolos, perto de Aldeia da Serra. O hipocentro (preliminar) tem as coordenadas 38.779 N, 7.960 W e a profundidade de 11.8 km.
Indicando um mecanismo focal em desligamento direito, compatível com as determinações realizadas para sismos que ocorreram anteriormente na mesma região, de que é exemplo o sismo ocorrido em 31 de julho de 1998 com magnitude 4.
Este sismo ocorre numa conhecida área de sismicidade, designada habitualmente por “cluster sísmico” de Arraiolos, onde os acidentes morfológicos e os estudos geológicos apontam para uma orientação dominante WNW-ESE. A origem destes sismos está associada a uma zona de transição entre uma área relativamente calma sismicamente a norte, e uma área mais ativa sismicamente a Sul, dentro de uma zona denominada “Zona de Ossa-Morena”, caracterizada por soco Paleozóico da Península Ibérica que no Alentejo apresenta falhas orogénicas WNW-ESE e falhas frágeis tardi-variscas (pós-orogénicas) com a mesma orientação. A morfologia e em particular a rede drenagem tem a mesma orientação desta fracturação.
O IPMA enviou já uma equipa de sismologistas para realizar o inquérito macrossísmico na região. Este inquérito é importante para a caracterização do risco sísmico na região.”
13 badaladas na Torre dos Congregados
Entretanto, soaram 13 badaladas na Torre dos Congregados. Foi como que um toque de clarim, em jeito de ordem para eu dispersar. Tinha chegado a hora regimental de começar a dar ao dente e iniciar a mastigação. Chegado a casa, as escadas foram mais fáceis de subir que de descer, ao contrário do que se passou com Veloso, tal como nos relata Camões no Canto V dos Lusíadas.
O ensopado não se escapou, tal como o borrego não se tinha escapado e daí a razão de haver ensopado. A pinga também não se escapou e desta feita tive direito a reforço, já que com o estremeção não ganhara para o susto.
A feitura desta crónica interrompeu a farpa literária que tinha entre mãos. Alguém terá dito:
- “Enquanto o pau vai e vem, folgam as costas!”
A isso eu respondo:
- “Deixa estar, que não perdes pela demora!”

Hernâni Matos 
Reporter de abanões e tudo
(Texto publicado no jornal E nº 192, de 25-01-2018)

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Senhor Doutor Hugo Guerreiro, sinta-se condecorado!


Ivone Carapeto (Advogada, Directora do jornal E, de Estremoz)
DR
Para tudo devemos procurar a explicação mais simples: os elementos do MIETZ que integram o executivo camarário estremocense chumbaram a proposta de atribuição da medalha de mérito municipal a Hugo Guerreiro, Diretor do Museu Municipal Professor Joaquim Vermelho, porque ela veio do PS. Essa é a singela razão que levou à reprovável posição de ingratidão do município relativamente a um dos seus e que encabeçou o projeto com maior impacto de sempre na vida cultural da cidade: a classificação do figurado de barro de Estremoz como Património Cultural Imaterial da Humanidade.
Contra a atribuição da medalha de mérito municipal, o Presidente da Câmara alegou que tal não seria justo para todas as outras pessoas envolvidas na candidatura, nomeadamente ele, as senhoras Vereadoras e todos os outros funcionários ou mesmo alguns membros do governo que ajudaram no processo.
Mas é óbvio que essa não é a razão. É óbvio que o executivo MIETZ bem sabe que Hugo Guerreiro, coordenador da candidatura é o rosto dela e o responsável técnico máximo sem o qual uma boa ideia não teria saído do papel. E é também certo que se a ideia de o distinguir com a medalha de mérito municipal tivesse saído da liderança do município, Hugo Guerreiro teria a sua medalha.
A verdade é que, com ou sem razão, o executivo MIETZ recebeu a proposta do PS como uma provocação. Se foi ou não, não sei e não interessa para aqui.
Facto é que Hugo Guerreiro era merecedor da distinção que apenas não lhe foi dada, na minha humilde opinião porque proposta pela oposição. A cidade ou, pelo menos, aqueles que entendem o trabalho que aquele técnico superior do município fez e tudo o que esse esforço significa para os estremocenses do passado, do presente e do futuro gostariam que um louvor tão consensual não tivesse descambado em conflitos de política “partidária”. Não havia necessidade. Senhor Doutor Hugo Guerreiro, as medalhas são meros objetos. Mais bonito que recebê-la, teria sido dá-la. Sinta-se condecorado!

Ivone Carapeto
Advogada, Directora do jornal E, de Estremoz
(Texto publicado no jornal E nº 192, de 25-1-2018)


Hernâni Matos

Bonecos de Estremoz: preservar e salvaguardar a memória de uma forma de expressão da cultura popular


Diogo Vivas (Arquivista, doutorando em Ciência da Informação)

O reconhecimento da produção de figurado em barro de Estremoz, vulgarmente conhecida por “Bonecos de Estremoz”, como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, no decurso da 12.ª reunião do Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, que decorreu em Jeju (Coreia do Sul), no passado mês de Dezembro deve, a todos, encher de orgulho.
Devemos reconhecer, além do labor e da criatividade das mãos que, geração após geração, ao longo dos séculos, souberam transmitir uma forma muito peculiar de trabalhar o figurado de barro, o papel determinante do Professor José Maria de Sá Lemos, então director da Escola Industrial António Augusto Gonçalves, nas décadas de 30-40 do século passado, na revitalização de uma arte quase extinta.
O trabalho desenvolvido, primeiramente, com Ana Rita da Silva, vulgo “Ti Ana da Peles” e, numa segunda fase, com Mariano da Conceição, permitiu recuperar uma arte secular que os artesãos seguintes souberam dar continuidade até à actualidade, criando e recriando, ao jeito dos barristas do passado.
Na pessoa do mais novo dos artesãos, Ricardo Fonseca, felicito todos os ceramistas. Congratulo-me, em particular, pela sua coragem em abraçar semelhante desafio e que seja o estímulo para que mais jovens se interessem por esta forma de expressão da cultura popular estremocense, assegurando a sua continuidade num mundo globalizado.
Uma palavra de reconhecimento a todos os investigadores que ao longo dos tempos se têm dedicado ao estudo desta temática. A sua reflexão e produção intelectual constituíram a tão necessária memória escrita, fundamental, não só para o sucesso da candidatura, mas também para a sua preservação e conservação futuras.
Não poderia, contudo, deixar de recordar os arquivos/ bibliotecas e os testemunhos/ memorias orais, que serviram de suporte a muita da investigação desenvolvida. Destaco, particularmente, a Biblioteca e o Arquivo Municipal de Estremoz e a pesquisa desenvolvida pelos seus técnicos, num trabalho (in)visível e moroso, de inegável valor.
Um voto de felicitações à comissão que conduziu o processo de candidatura pela perseverança com que desenvolveu o seu trabalho bem como a todas entidades que directa ou indirectamente se envolveram neste processo.
Termino com um desafio ao Município de Estremoz, para a criação de um Centro de Documentação e Informação, em homenagem ao homem que, no século passado, de forma visionária, resgatou da extinção os “Bonecos de Estremoz”: o Professor José Maria de Sá Lemos (1892-1971). Um centro que reunisse a sua obra artística assim como a biblioteca e arquivo pessoais; apoiasse e desenvolvesse actividades de investigação e de aprofundamento de estudos em torno de temáticas afins e procurasse editar estudos e reunisse os textos dispersos da sua autoria.
Diogo Vivas
Arquivista, doutorando em Ciência da Informação
(Texto publicado no jornal E nº 192, de 25-1-2018)

Hernâni Matos 

sábado, 13 de janeiro de 2018

ESTREMOZ - Executivo MIETZ recusa atribuição de Medalha de Mérito Municipal ao Director do Museu Municipal


Hugo Guerreiro, Director do Museu Municipal de Estremoz. Cliché de
Sara Matos (http://www.e-cultura.sapo.pt/patrimonio_item/14039).

De acordo com o Facebook do PS Estremoz, de 12 do corrente mês, a maioria MIETZ (4) do Executivo Municipal de Estremoz, recusou na sessão de Câmara do passado dia 10 de Janeiro, uma proposta dos veradores PS (3) no sentido da atribuição da Medalha de Mérito Municipal ao Dr. Hugo Guerreiro, Coordenador Técnico e principal mentor da candidatura à inscrição da “Produção de Figurado em Barro de Estremoz” na “Lista Representativa do Património Cultural da Humanidade”.
De acordo com o Facebook do PS Estremoz, os vereadores deste Partido ficaram espantados com tal chumbo e declararam que “É nosso entendimento que as lideranças fortes e democráticas devem reconhecer e valorizar os seus colaboradores e todos aqueles que contribuem para o sucesso dos seus projetos. Assim, o PS lamenta, profundamente, a insensibilidade deste Executivo MIETZ que, mais uma vez, não reconhece o mérito de quem tem contribuído para a elevação do Concelho, no caso em apreço, no âmbito da Cultura”.

Do Facebook do PS Estremoz, transcrevo de seguida, com a devida vénia e na íntegra, a Proposta de Atribuição da Medalha de Mérito Municipal, chumbada pela maioria MIETZ do Executivo Municipal de Estremoz.

PROPOSTA DE ATRIBUIÇÃO DA MEDALHA DE MÉRITO MUNICIPAL

O Dr. Hugo Guerreiro está desde 1998 ao serviço da Divisão Sócio-Cultural do Município de Estremoz, tendo até 2002 desempenhado funções de investigador e de apoio ao então Director do Museu Municipal, Professor Joaquim Vermelho. Por falecimento deste último, passou a desempenhar as funções de Director do Museu Municipal, cargo que com proficiência tem vindo a desempenhar até à actualidade.
Tem exercido as funções de Curador do Museu Municipal, das Reservas Visitáveis da Alfaia Agrícola, do Museu Rural de Estremoz e do Museu Escolar de Veiros. 
Tem sido responsável por exposições temporárias em quatro espaços distintos em Estremoz (Museu Municipal, Galeria Municipal D. Dinis, Sala de Exposições Temporárias do Centro Cultural e Palácio dos Marqueses de Praia e Monforte).
A nível de conferências e de publicações tem dado especial enfoque ao Património Cultural de Évora Monte, bem como ao Património Religioso, à Faiança, ao Figurado e à Olaria de Estremoz.
Recentemente, a inscrição da “Produção de Figurado em Barro de Estremoz” na Lista representativa do Património Cultural da Humanidade, foi fruto do trabalho do Dr. Hugo Guerreiro, que elaborou o pedido de inventariação, o qual foi subscrito pelo Município de Estremoz e aprovado no decurso da 12.ª Reunião do Comité Intergovernamental da UNESCO para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, que entre 4 e 9 de Dezembro decorreu no Centro Internacional de Convenções Jeju, na ilha de Jeju, na República da Coreia.
Considerando que através da sua acção, o Dr. Hugo Guerreiro tem dado um contributo relevante no campo da Cultura, do qual tem resultado um aumento do prestígio da cidade, a Câmara Municipal de Estremoz, reunida em sessão ordinária, no dia 10 de Janeiro de 2018, deliberou outorgar-lhe a Medalha de Mérito Municipal, de grau prata, que lhe será entregue em cerimónia pública a realizar no Dia do Município (10 de Maio de 2018). 
Estremoz, 10 de Janeiro de 2018
Os Vereadores do PS Estremoz

Hernâni Matos

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

BONECOS DE ESTREMOZ - Orgulho e importância


Rita Rato. Deputada estremocense do PCP.

O reconhecimento recente do Figurado em Barro de Estremoz conhecido por “Bonecos de Estremoz”, como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, é de uma enorme importância e de um imenso orgulho.
Orgulho nas gentes que contra ventos e marés, com a sua determinação e resiliência, preservaram esta tradição tão antiga e marcante da identidade estremocense, insistindo na vontade e na necessidade de a manter viva. Orgulho nas artesãs e artesãos que com a sua arte e criatividade fizeram perdurar este património de geração em geração; nos professores que, desde que me recordo, desenvolveram projectos pedagógicos e estimularam o interesse das crianças e jovens em torno da barrística e dos Bonecos de Estremoz; em todos os investigadores e interessados que desde há décadas se bateram pelo reconhecimento desta arte.
Importância porque o reconhecimento como Património Cultural Imaterial da Humanidade pode e deve significar um passo sólido na valorização desta expressão da  cultura  popular, bem como  contribuir  decisivamente  para  a  sua  preservação  e salvaguarda.
Felicito por isso, as entidades que integraram a Comissão Executiva da candidatura  pelo  trabalho  que,  de  forma  persistente,  desenvolveram,  bem  como  todos os que se envolveram e empenharam neste processo.
Haja vontade e força para apoiar todas as artesãs e artesãos, pelo seu insubstituível  papel  de  preservação e  divulgação  deste  património, para promover projetos integrados de promoção das artes e da cultura, e se reforcem estratégias de valorização dos Bonecos de Estremoz e de toda a barrística como elementos de desenvolvimento económico e social de Estremoz, do Alentejo e do país.
“Barro velho do presente / Vão moldar-te as mãos do povo, / Vão dar-te forma diferente / Pra que sejas barro novo!”. Que seja assim como o escreveu António Simões: moldando um caminho de maior consciência da nossa identidade cultural, preservação do património e construção de um futuro de progresso e justiça social.

Rita Rato
Deputada estremocense do PCP
(Texto publicado no jornal E nº 190, de 28-12-2017)

Hernâni Matos

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Bonecos de Estremoz


Armando Alves. Pintor.
A existência dos Bonecos de Estremoz é conhecida há mais de trezentos anos e hoje são muitas as mãos de artistas populares que continuam a dar vida a estas figuras. A temática é, de uma maneira geral, baseada nas tarefas do dia a dia mas também em figuras religiosas, onde se destacam os presépios.
Foi por volta de 1945 que o escultor Sá Lemos, então director da Escola Industrial António Augusto Gonçalves, desafiou e incentivou a “Ti Ana das Peles” a trabalhar na recuperação de uma tradição adormecida que, a partir daí, se veio afirmando como uma actividade relevante na criação dos nossos artistas do barro, para o desenvolvimento do turismo local, para a economia da região, e para a afirmação do nome de Estremoz.
Muitos foram os artesãos que, depois da Ti Ana das Peles se foram afirmando e criando à sua maneira os Bonecos de Estremoz.
Sem querer ser injusto para ninguém quero referir apenas aqueles com quem tive mais proximidade. Desde logo, e porque ainda felizmente estão em actividade, “As Irmãs Flores”, a Maria Inácia Fonseca e a Perpétua Sousa Fonseca, que têm sabido dar continuidade ao que de melhor se tem feito para preservar o bom nome dos Bonecos de Estremoz sendo ainda de realçar o sentido pedagógico que manifestaram ao lançar nestes caminhos da arte do barro, o seu sobrinho Ricardo Fonseca, um jovem com talento que nos dá confiança para o futuro.
Antes tinha conhecido o José Moreira, ainda como empregado na Olaria Alfacinha, com quem privei bastante. Tinha no quintal uns tanques onde transformava a terra em barro para poder ser moldado e, depois de cozido, ser pintado pelas mãos sensíveis de sua mulher Josefina Augusta Ferreira.
Conheci ainda a Maria Luísa da Conceição que tinha uma forte ligação a esta actividade, muito influenciada pela família, tendo conseguido afirmar a sua marca pessoal no fabrico dos seus bonecos.
Por último, sendo o primeiro, o Mestre Mariano Alfacinha. Professor de olaria na Escola Industrial de Estremoz, que frequentei quando tinha treze anos e onde aprendi com ele a arte de trabalhar o barro. Estou a vê-lo com aquelas mãos grossas e sapudas, enormes e ao mesmo tempo delicadas, a mexer no barro e tratá-lo por tu porque o conhecia como ninguém. Foi com ele que aprendi também a fazer Bonecos de Estremoz. Não fiz muitos, talvez uma centena que vendia a vinte e cinco tostões na Papelaria Ruivo, da minha tia Joana Ruivo em Estremoz.
Ainda hoje guardo o último exemplar desses bonecos, “O Homem do Harmónio”, a quem um dia destes ouvi tocar uma modinha a propósito da proclamação dos Bonecos de Estremoz a Património Cultural Imaterial da Humanidade.
Armando Alves
Pintor
(Texto publicado no jornal E nº 190, de 28-12-2017)

Hernâni Matos

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

BONECOS DE ESTREMOZ - Semear para colher


Semeador (1987). Liberdade da Conceição (1913-1990). Colecção particular.

A recente inscrição da "Produção de Figurado em Barro de Estremoz" na “Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade” integrou a cidade de Estremoz na rota do Património Cultural Imaterial da Humanidade. Daqui resultará um previsível incremento do turismo cultural, com reflexos importantes em termos da economia local. Todavia, a cidade “não se pode encostar à sombra da bananeira”. Pelo contrário, tal como sentencia o adagiário português, "Quem semeia, colhe" e "Cada um colhe segundo semeia".
Foi o Município de Estremoz que teve a iniciativa de apresentar a candidatura da “Produção de Figurado em Barro de Estremoz" à inscrição na “Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade”. É pois a ele que cabe a responsabilidade de tomar iniciativas diversificadas, visando divulgar, exaltar, salvaguardar e valorizar aquele registo, bem como a Memória dos barristas que já partiram e que com o seu trabalho também constituíram pilares duma candidatura vencedora.
Como é meu timbre, reflecti aprofundadamente em torno de toda esta temática e conclui existir uma mão cheia de iniciativas que podem ser tomadas nos sentidos atrás apontados e algumas que a meu ver, terão mesmo que inexoravelmente ser consumadas. Naturalmente que cabe ao Município e só a ele, tomar decisões, o que de modo algum é impeditivo de aqui apresentar sugestões que foram sistematizadas em 4 grandes grupos: Prioridades, Barristas, Eventos e Edições.
Prioridades
- Registar as designações “Bonecos de Estremoz” e “Figurado em Barro de Estremoz” como exclusivas do Município e as marcas homónimas como exclusivas dos barristas certificados pelo Município de Estremoz; - Instalar “outdoors” de dimensão adequada nos acessos às entradas da cidade, salientando a classificação da produção do Figurado em Barro de Estremoz como Património Cultural da Humanidade; - Criar um Centro Interpretativo do Figurado de Estremoz; - Erigir em Estremoz um monumento exaltador da produção de Figurado em Barro de Estremoz.
Barristas
- Certificar os barristas vivos cujo trabalho serviu de fundamento à candidatura apresentada à UNESCO e cuja produção artesanal se integra no processo de produção, dito “ao modo de Estremoz”; - Criar um selo certificador da condição de Património Cultural Imaterial da Humanidade a ser usado por cada barrista certificado pelo Município; - Implementar na cidade uma sinalética adequada que indique a localização das oficinas dos barristas; - Colocar uma lápide em mármore na fachada da oficina de cada um dos barristas falecidos, assinalando que trabalharam ali; - Atribuir a ruas de Estremoz nomes de barristas falecidos que foram esquecidos na mais recente atribuição de nomes a ruas da cidade. São eles: Ana das Peles, Sabina Santos, José Moreira, António Lino de Sousa, Mário Lagartinho, Isabel Carona e Aclénia Pereira;
Eventos
- Adoptar o Figurado em Barro de Estremoz como tema integrador do CARNAVAL DE ESTREMOZ 2018 e elemento de decoração na FIAPE 2018 e na COZINHA DOS GANHÕES 2018; - Promover eventos centrados na produção do Figurado em Barro de Estremoz: a) Exposição de colecções particulares; b) Exposição bibliográfica; c) Concursos de Desenho e Pintura, abertos a todos os graus de ensino do concelho, seguidos de exposições nas escolas em que foram realizados; d) Jogos Florais de âmbito nacional, na modalidade de quadra, soneto, poesia livre e décimas sujeitas a mote. Posteriormente, editar em livro as produções literárias submetidas a concurso; e) Encontro de Poetas Populares que declamariam décimas sujeitas a mote. Posteriormente, editar em livro as produções apresentadas no Encontro; f) Concurso de Fotografia, seguido de uma exposição num espaço exposicional municipal e nas sedes das Juntas de Freguesia; g) Seminário Interdisciplinar sobre Figurado de Estremoz, envolvendo professores do concelho das seguintes áreas: Artes, Biologia, Ciências Sociais, Filosofia, Física e Química, História, Português e Religião e Moral. Posteriormente, editar em livro as comunicações do Seminário; - Organizar em 2018, as 3ªs JORNADAS PARA A SALVAGUARDA DO PATRIMÓNIO CULTURAL IMATERIAL DO ALENTEJO em parceria com a Associação Portuguesa para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial; - Promover a formação de professores do concelho da área das Artes, na produção do Figurado em Barro de Estremoz, de modo que estes possam ensinar os alunos, visando assim despertar vocações; - Incentivar a realização de visitas guiadas ao Museu Municipal e às oficinas dos barristas.
Edições
- Produzir uma 2ª impressão no papel timbrado do Município (envelopes e folhas de ofícios), de modo que neles figure uma referência à classificação da produção do Figurado em Barro de Estremoz como Património Cultural da Humanidade; - Agir junto dos Correios de Portugal, visando uma emissão de selos de correio e de um inteiro postal; - Promover edições centradas na produção do Figurado em Barro de Estremoz: a) Cartaz encomendado a um artista plástico de nomeada e que poderia ser distribuído por embaixadas e consulados estrangeiros em Portugal, bem como embaixadas e consulados portugueses no estrangeiro. Poderia ser ainda distribuído por câmaras municipais, agências de viagens, estações de metro, terminais de autocarros e aeroportos; b) Livros sobre o Figurado em Barro de Estremoz;
c) Medalha em bronze, comemorativa da classificação da produção do Figurado em Barro de Estremoz como Património Cultural da Humanidade; d) Colecção de postais ilustrados reproduzindo exemplares de Figurado em Barro de Estremoz dos séc. XVIII e XIX, do acervo do Museu Municipal, a serem comercializados num estojo em cartolina, tendo impressa uma resenha histórica sobre a produção do Figurado em Barro de Estremoz; e) Colecção de postais ilustrados reproduzindo exemplares de Figurado em Barro de Estremoz, de barristas vivos ou já falecidos dos séc. XX e XXI, a serem comercializados num estojo em cartolina, tendo impressa uma resenha biográfica de cada barrista; f) Colecção de marcadores de livros, reproduzindo exemplares de Figurado em Barro de Estremoz dos sécs. XVIII e XIX, do acervo do Museu Municipal; g) Cartões de Boas Festas com presépios de Estremoz e cartões de Dia dos Namorados ilustrados com o “Amor é cego”; h) Calendários de bolso; i) Jogos (baralho de cartas, ludo, puzzles bidimensionais, puzzles de cubo); j) Objectos de uso escolar (cadernos, esferográficas, lápis, caixas de lápis de cor); k) Pin metálico, exaltador da inscrição da produção do Figurado em Barro de Estremoz na Lista Representativa do Património Cultural da Humanidade;
Nota final
Alguns dirão que pensei muito ou até demasiado nisto tudo. Pela minha parte direi que pensei e repensei bastante, já que como proclama o rifonário português “O bem pensado nunca sai errado” e “Mal pensa quem não repensa”. “Envergonhe-se quem nisto vê malícia”, uma vez que o meu envolvimento em toda esta reflexão é fruto da motivação suscitada em mim pelos Bonecos de Estremoz, os quais transporto na massa do sangue.