sexta-feira, 23 de outubro de 2015
Poesia Portuguesa - 027
Fim
Mário de Sá Carneiro (1890-1916)
Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.
Mário de Sá Carneiro (1890-1916)
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
Poesia Portuguesa - 026
Química
José
Saramago (1922-2010)
Sublimemos,
amor. Assim as flores
No
jardim não morreram se o perfume
No
cristal da essência se defende.
Passemos
nós as provas, os ardores:
Não
caldeiam instintos sem o lume
Nem
o secreto aroma que rescende.
José
Saramago (1922-2010)
quarta-feira, 21 de outubro de 2015
Poesia Portuguesa - 025
Versos
do trinco da porta
António
Sardinha (1887-1925)
Versos
do trinco da porta,
-
Louvado seja o Senhor!
A
casa é Deus quem ma guarda,
Ninguém
a guarda melhor!
Batem
os pobres à porta,
-
Batem com ar de humildade.
"Eu
sei que é pouco irmãozinho!
É
pouco, mas de vontade!"
Quem
é que a porta abriria,
Com
modos de atrevimento?
São
coisas da criadagem!
Não
foi ninguém, - é o vento!
Mexem
no trinco da porta.
-
"Levante, faça favor!"
A
entrada nunca se nega
Seja
a visita quem for!
Não
vês a porta batendo?
Que
aragem essa que corta!
Em
toda a volta do dia,
Não
pára o trinco da porta!
Trinco
da porta caindo
Sobre
a partida de alguém...
Oh,
quantos vão e não voltam?!
São
os que a morte lá tem!
António
Sardinha (1887-1925)
terça-feira, 20 de outubro de 2015
Bonecos de Estremoz, de Ricardo Fonseca
1 - Cartaz da Exposição.
CRÉDITOS DAS FOTOGRAFIAS
Bonecos de Estremoz, de Ricardo
Fonseca
Galeria Municipal D. Dinis
9 de Outubro a 5 de Dezembro de 2015
Exposição de cerca
de 30 figuras, distribuídas por grupos temáticos.
De acordo com o Génesis, no sexto dia da criação do Mundo,
Deus moldou o primeiro homem a partir do barro. Foi com esse mesmo barro que as
bonequeiras de setecentos começaram a criar aquilo que se convencionou chamar
“Bonecos de “Estremoz”. Trata-se de uma manufactura “sui-generis” que
a distingue de todo o figurado português. Nela, o todo é criado a partir das
partes, recorrendo a três geometrias distintas: a bola, o rolo e a placa. São
elas que com tamanhos variáveis são utilizadas na gestação de cada boneco. Para
tal são coladas umas às outras, recorrendo a barbutina e afeiçoadas pelas mãos
mágicas dos artesãos, que lhes transmitem vida e significado.
A técnica ancestral de produção de “Bonecos de “Estremoz”
transmitiu-se ao longo dos séculos e tem em Ricardo Fonseca o
benjamim dos barristas. Natural de Estremoz, onde nasceu há 29 anos, o artesão
tem o 12º ano de escolaridade, tendo cursado Artes na Escola Secundária Rainha
Santa Isabel, onde adquiriu saberes no âmbito da Pintura, da Escultura e da
História de Arte.
Sobrinho de peixe sabe nadar. O seu tio Ilídio foi oleiro na
Olaria Alfacinha, onde ainda trabalhava em 1983. As irmãs Flores, suas tias,
são bonequeiras. A Maria Inácia desde 1972 e a Perpétua desde 1976. Não admira
pois que se tenha sentido fascinado pela plasticidade do barro e pelas
transmutações que ele permite, já que como diz o poeta António Simões: “Barro
incerto do presente, / Vai moldar-te a mão do povo / Vai dar-te forma
diferente, / Para que sejas barro novo.” Daí que Ricardo tenha começado a
manusear o barro aí pelos doze anos, fazendo a aprendizagem com as sua tias.
Aos quinze anos já fazia pequenos presépios e algumas imagens que vendia aos
turistas, assegurando assim a mesada para os seus gastos juvenis.
Ao sair da Escola em 2005, começou a trabalhar com as tias
na oficina-loja do Largo da República. Foi então que a manufactura de bonecos
deixou de ser uma brincadeira e passou a ser o seu mester. A execução das
figuras continuou, todavia, a ser feita com imenso prazer e igual paixão, pois
como diz o adagiário “O trabalho é o mestre do ofício” e “O prazer no trabalho
aperfeiçoa a obra”.
Trabalha muitas vezes por encomenda, o que é caso para dizer
“A boa obra, se vai pedida, já vai comprada e bem vendida”. Confecciona
espécimes dentro e fora do núcleo base do figurado de Estremoz. Entre os
modelos que registam maior procura figuram: “O Amor é Cego”, “Primavera”,
“Rainha Santa Isabel” e “Presépios”. São de sua criação, figuras como “O
professor”, “Fernando Pessoa”, “Cavaleiro Tauromáquico”, “Forcado”, “Rainha
Santa Isabel alimentando um pobre”, “Santiago”, “Senhor dos Passos com Nossa
Senhora” e “Paliteiros zoomórficos”.
A procura de coleccionadores leva-o a criar variantes de
muitos exemplares, o que acontece sobretudo com “Presépios”, mas também com
imagens como “Santo António”, “Nossa Senhora da Conceição” e “Rainha Santa
Isabel”, o que se torna estimulante, sob um ponto de vista criativo. De resto e
por auto-desafio vai criando peças cada vez mais complexas, sem abandonar
porém, os cânones intrínsecos ao figurado de Estremoz. É caso para dizer que:
“Aprende por arte e irás por diante”.
De parceria com as tias tem executado exemplares como
“Coreto Municipal”, “Presépio de Galinheiro” e “Jogador de bilhar”.
É sabido que cada barrista tem o seu próprio modo de
observar o mundo que o cerca e de o interpretar, legando traços de identidade
pessoal nas peças que manufactura e que são marcas indeléveis que permitem
identificar o seu autor. Lá diz o adagiário: “As obras mostram quem cada um é”
e “Pela obra se conhece o artesão”. No caso de Ricardo, o perfeccionismo está-lhe
na massa do sangue, o que o leva a dedicar-se aos pormenores, não só na
pintura, como na própria manufactura do rosto, das mãos, dos pés e dos enfeites
que adornam as figuras.
Quanto às suas marcas de autor são múltiplas: - “Ricardo
Fonseca” com ou sem data ou com data e “Estremoz”, manuscritas e com iniciais
maiúsculas; - RF com ou sem data, pintado em cor variável.
Ricardo tem participado em exposições colectivas, não só em
Estremoz, como em Espanha e Itália, assim como em Feiras de Artesanato (FIAPE e
a FATACIL), no stand das tias. Ganhou o 1º Prémio no Concurso de Barrística
“Rainha Santa Isabel”, promovido pelo Município de Estremoz no decurso da FIAPE
2011.
Apesar de por opção própria trabalhar na oficina-loja das
tias, Ricardo não é um aprendiz, é um barrista de corpo inteiro, que por ser
deles o benjamim, tem nas suas mãos a pesada herança de assegurar o futuro do
figurado de Estremoz. Força, Ricardo! “Parar é morrer” e “Para a frente é que é
caminho”.
Maria Miguéns (2 e 3), Hernâni Matos (4), Ricardo Fonseca (5 a 30).
2 - Aspecto geral da Exposição.
3 - Ricardo Fonseca no acto inaugural da Exposição.
4 - Ricardo Fonseca a trabalhar.
5 - Pastor de manta.
6 - Ceifeira.
7 - Aguadeira.
8 - Lavrador rico
9 - Primavera de arco.
10 - Bailadeira.
11 - Primavera de plumas.
12 - Primavera de plumas.
13 - Primavera de plumas.
14 - Amor é cego.
15 - Amor é cego.
16 - Rei negro.
17 - Rei negro.
18 - Xéxé.
19 - Folião.
20 - Cavaleiro tauromáquico
21 - Presépio de trono ou de altar.
22 - Presépio de 6 figuras.
23 - Menino Jesus.
24 - Senhor dos Passos com Nossa Senhora
25 - Nossa Senhora da Conceição.
26 - Nossa Senhora da Conceição.
27 - Nossa Senhora da Conceição.
28 - Santo António.
29 - Rainha Santa Isabel.
30 - Santiago.
Poesia Portuguesa - 024
José Régio (1901-1969)
"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!
José Régio (1901-1969)
segunda-feira, 19 de outubro de 2015
Poesia Portuguesa - 023
Herberto Helder (1930-2015)
Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais —
lá vai o poeta em direcção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.
O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e des
aparece uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa
floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.
De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa agora pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.
O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.
Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direcção é a própria noite
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
o poeta dá à pata como os outros animais.
Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direcção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.
Herberto Helder (1930-2015)
domingo, 18 de outubro de 2015
Poesia Portuguesa - 022
Vivam
Apenas
José
Gomes Ferreira (1900-1985)
Vivam,
apenas
Sejam
bons como o sol.
Livres
como o vento.
Naturais
como as fontes
Imitem
as árvores dos caminhos
que
dão flores e frutos
sem
complicações.
Mas
não queiram convencer os cardos
a
transformar os espinhos
em
rosas e canções.
E
principalmente não pensem na Morte.
Não
sofram por causa dos cadáveres
que
só são belos
quando
se desenham na terra em flores.
Vivam,
apenas.
A
Morte é para os mortos!
José
Gomes Ferreira (1900-1985)
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