quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Touradas a Património Cultural Imaterial da Humanidade - III

Francisco Cortes na corrida de 20 anos de alternativa. Praça de Touros de Estremoz.
5 de Setembro de 2015.

Há uma esquerda residual, mais da rua da Palma, que da Soeiro Pereira Gomes ou do Largo do Rato. É uma esquerda que em nome dos direitos dos animais, se manifesta contra as touradas. Está no seu direito. E exerce-o ao melhor estilo taurino, farpeando aficionados como eu.
Foi na condição de aficionado, que nos nºs 132 e 133 deste jornal, defendi a Candidatura das Touradas a Património Cultural Imaterial da Humanidade.
É sabido que é meu timbre o rigor que ponho em tudo aquilo que escrevo. Os meus textos são antecedidos de pesquisa cruzada de informação que me permita não errar. Essa a minha aposta permanente.
A leitura atenta da CONVENÇÃO PARA A SALVAGUARDA DO PATRIMÓNIO CULTURAL IMATERIAL, aprovada a 17 de Outubro de 2003, pela Conferência Geral da UNESCO reunida em Paris, permitiu-me concluir que as Candidaturas a Património Cultural Imaterial da Humanidade devem dizer respeito a  património cultural imaterial, transmitido de geração em geração e que no caso das touradas em Portugal remonta à Idade Média. Esse património cultural imaterial não pode violar os direitos humanos e por outro lado, as artes do espectáculo nas quais se integram as touradas, são consideradas pela UNESCO como património cultural imaterial.
Insinuar que os dois textos aqui publicados anteriormente são fruto de sonhos delirantes ocorridos durante a “silly season”, é simplesmente infame e revela a ligeireza com que o assunto foi abordado. Para quem não saiba, a “silly season” é um anglicismo que designa o período de verão, em que como há falta de notícias importantes, os critérios de selecção jornalísticos tornam-se mais flexíveis, sendo dado relevância a assuntos que, de contrário não a teriam.
Este jornal é um espaço de liberdade e de cidadania e por isso como homem livre sou seu colaborador. Nunca me foi encomendado nem recusado nenhum texto e a iniciativa do mesmo foi sempre minha.
As touradas não são um tema frívolo ou estúpido, são um tema fracturante na sociedade portuguesa, como o mostra a verbosidade dos defensores dos direitos dos animais.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Ontem foi dia de aniversário

Eu e a Fátima, minha mulher, com a nossa filha Catarina e o Pedro, seu companheiro.
Restaurante "Mercearia Gadanha", em Estremoz. Um restaurante de cinco estrelas.

A vida é a parte visível de uma caminhada sem fim. Dela dimanam diversificadas marcas indeléveis na inescapável e efémera passagem por aqui:
- Os registos de memória daqueles que connosco conviveram desde os tempos de bibe e de pião e que nas mais variadas circunstâncias, connosco partilharam sentimentos, emoções, paixões, quereres e projectos de vida.
- O magistério professoral, a acção cívica, a militância cultural, a actividade literária, o jornalismo, a blogosfera e as redes sociais.
Ontem foi dia de aniversário, no decurso do qual sentimos o gratificante carinho de familiares e de amigos.
Festejar um aniversário é entoar um hino à vida. Sabem porquê? É que viver é preciso, porque há muito ainda por fazer.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

31 - Nossa Senhora da Imaculada Conceição


Nossa Senhora da Imaculada Conceição.
Irmãs Flores.
Colecção particular.

A intensa devoção dos católicos por Maria, mãe de Jesus, levou-os a atribuir-Lhe inúmeros títulos, um dos quais é Nossa Senhora da Imaculada Conceição. De acordo com o dogma católico, a Imaculada Conceição é a concepção da Virgem Maria sem mancha ("mácula" em latim) do pecado original. O dogma expressa que desde o primeiro instante da sua existência, a Virgem Maria foi protegida por Deus, da falta de graça santificante que atormenta a humanidade, porque estava cheia de graça divina. Proclama igualmente que a Virgem Maria viveu uma vida isenta de pecado.  
A Imaculada Conceição foi solenemente definida como dogma pelo Papa Pio IX (1792-1878) na sua bula “Ineffabilis Deus” em 8 de Dezembro de 1854. A encarnação de Jesus no ventre da Virgem Maria exigia que Ela estivesse completamente isenta de pecado para poder gerar o seu Filho. A Igreja Católica sustenta o dogma com base em textos bíblicos: [Génesis (3:15), Cântico dos Cânticos (4:7), (Êxodo 25:10-11), (Jó 14:4), (Deuteronómio 10:3) e (Apocalipse 11:19)], bem como escritos de Padres da Igreja, como Irineu de Lyon (c. 130-202) e Ambrósio de Milão (340-397). 
A imagem de Nossa Senhora da Imaculada Conceição tem 7 atributos: a meia-lua e a serpente sob os pés, o anjo e a nuvem nos pés, as mãos, o manto e a coroa. Analisemos cada um deles:
- A MEIA-LUA SOB OS PÉS - Um dos significados da lua é o da morte e ressurreição, porque a lua nasce, cresce, alcança um auge e mingua, para voltar a nascer. Simbolicamente a lua representa o papel de Maria: gerar aquele que passará por todo o ciclo da vida e da morte, mas ressuscitará. Por outro lado, algumas culturas antigas veneravam a lua como deusa da virgindade. A lua sob os pés de Maria lembra que é mãe, permanecendo Virgem. Também é sabido que a lua depende do sol, mas brilha soberana no meio da noite. Maria depende de Cristo, não é afectada pelas trevas do pecado, brilha límpida com a luz que advém da maternidade divina. O simbolismo da lua é referido no Apocalipse: “Apareceu em seguida um grande sinal no Céu: uma Mulher vestida de sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas (Apocalipse 12:1); - A SERPENTE – Sob os pés de Maria representa o demónio (Génesis 3). Maria esmaga a cabeça da serpente, o que significa a vitória sobre o demónio, trazendo assim a salvação ao mundo; - A NUVEM E O ANJO - Aos pés de Maria, simbolizam que Ela está no Céu, na glória de Deus, junto com os anjos, dos quais é Rainha; - AS MÃOS - Unidas ao nível do coração, simbolizam a oração, a qual deve ser feita com o coração, isto é, com sinceridade. Expressam ainda que no Céu, Maria não cessa de orar, rogando por todos nós; - O MANTO - A cor azul simboliza o Céu. Os bordados em dourado simbolizam a realeza, lembrando que Maria é Rainha do Céu e da terra; - A COROA - Significa que Maria é Rainha do Céu e da terra. A cruz sobre a coroa significa que só é Rainha por causa de Jesus Cristo, que morreu na cruz e ressuscitou.
A 8 de Dezembro, a Igreja Católica comemora a Festa da Imaculada Conceição, definida como uma festa universal em 28 de Fevereiro de 1476 pelo Papa Sisto IV (1414-1484).
A religiosidade popular faz com que sejam profusas as referências  a Nossa Senhora da Conceição no cancioneiro popular alentejano. Dele destacámos a seguinte quadra: 

“Senhora da Conceição,
‘Stás no meio das olivêras,
Guardae-me a minha azêtona
Pra mandar presente ás frêras.”


quarta-feira, 29 de julho de 2015

ASSOCIAÇÃO FILATÉLICA ALENTEJANA / O futuro começa agora


Parafraseando António Gedeão, é caso para dizer “… que sempre que um homem sonha / o mundo pula e avança…" E foi assim que há trinta e dois anos, um grupo de homens e mulheres desta terra transtagana, criaram uma colectividade de tipo novo, funcionando por objectivos e apostada em desafios geradores de dinâmicas capazes de envolver um espectro largo de pessoas de diferentes matizes culturais e ideológicos. E sempre foi assim, tendo-me a mim como homem do leme.
A colectividade nascida há trinta e dois anos tinha de ter um nome e foi assim que um de nós, fazendo de padre de serviço, a baptizou com o nome de Associação Filatélica Alentejana (AFA). Em boa hora o fez, uma vez que sempre nos revimos na identidade cultural alentejana, por dela termos consciência, o que nos levou a lutar pela sua preservação, valorização e aprofundamento.
A Associação Filatélica Alentejana assinalou em Maio passado o seu trigésimo segundo aniversário e a Filatelia desde sempre foi a matriz identitária da Associação, virada de um modo geral, para as actividades exposicionais, ainda que recorrendo a outras formas de animação cultural. Foi nesse devir constante que foram promovidas cerca de duas centenas de mostras e salões de Filatelia, Cartofilia, Coleccionismo, Artes Plásticas, Fotografia, Iconografia e Documentalismo. Paralelamente a estas foram desenvolvidas outras actividades em parceria com a Câmara Municipal de Estremoz, caso das Feiras de Coleccionismo, dos Jogos Florais e dos Encontros de Poetas Populares. Câmara Municipal que no decurso de muitos anos foi um sólido e o principal pilar de apoio da AFA. Como diria José Carlos Ary dos Santos, foram essas "As portas que Abril, abriu" e que viabilizaram a aposta da AFA num desassossego cultural integrante.
A actividade persistente, consequente e continuada da AFA, mereceu o reconhecimento da Federação Portuguesa de Filatelia, cujos órgãos competentes lhe atribuíram em Dezembro de 2004, a Medalha de Serviços Inestimáveis.
Mais recentemente, a actividade da AFA centrou-se em exposições de longa duração, visando a divulgação e fomento dos nossos valores culturais, nacionais, regionais e locais, muito em especial a Etnografia e a Memória de Estremoz. É assim que neste momento temos patente ao público no Centro Cultural de Estremoz, a exposição fotográfica “Cortejo Etnográfico de 1963”, as exposições de figurado de Estremoz “Alentejo do Passado” e “Traje Popular Português”, bem como a exposição de olaria “Vasilhame de barro de Estremoz”.
Na sua reunião do passado dia 15 de Julho, o Município de Estremoz, invocando necessidade de espaço para o Arquivo Municipal, aprovou a caducidade do Protocolo de Cedência de Espaço à Associação Filatélica Alentejana, a quem é dado o prazo de 30 dias para a entrega de instalações. Apetece-me de novo parafrasear António Gedeão, dizendo: “Eles não sabem, nem sonham, / que o sonho comanda a vida, / que sempre que um homem sonha / o mundo pula e avança / como bola colorida / entre as mãos de uma criança. E parafraseio também José Carlos Ary dos Santos, proclamando: “Agora que já floriu / a esperança na nossa terra / as portas que Abril abriu / nunca mais ninguém as cerra”.
O futuro começa agora.

domingo, 19 de julho de 2015

30 - São João Baptista, Precursor, Profeta e Mártir


São João Baptista.
José Moreira (1926-1991).
Colecção particular.

São João Baptista (2 a.C. - 27 d.C.) foi um pregador judaico do início do século I, citado pelo historiador Flávio Josefo (37 ou 38 - ca. 100) e pelos autores dos quatro Evangelhos da Bíblia (Mateus, Marcos. Lucas e João). Era filho do sacerdote judaico Zacarias e de Isabel, prima de Maria, mãe de Jesus.
João, que em hebraico se diz Iohanan, com o significado de “Favorecido de Deus”, veio à luz em idade avançada de seus pais (Lucas 1,36). Muito jovem retirou-se para o deserto. Chamava-se "Baptista" devido a pregar um baptismo de penitência (Lucas 3,3). Quando estava a baptizar crentes no rio Jordão, apareceu Jesus, que também se apresentou para se baptizar. Logo o reconheceu apelidando-O, de “Cordeiro de Deus”, o Messias anunciado pelos profetas. Introduziu o baptismo como cerimónia que mais tarde seria adoptada pelo Cristianismo como prática na conversão de gentios,  rito entendido como purificação e vida nova, constituindo o primeiro sacramento da iniciação cristã.
Censurou Herodes Antipas (20 a.C. – 39 d.C.), governador da Galileia, por ter cometido adultério ao casar-se com Herodíade, sua sobrinha e cunhada, cujo marido ainda estava vivo. Na sequência da sua prisão, as suas imprecações incomodaram Herodíade, que através da sua filha Salomé, induziu Herodes a mandá-lo degolar. É considerado o primeiro mártir do Cristianismo.
É o único santo cujo nascimento (24 de Junho) e martírio (29 de Agosto) são evocados em duas solenidades cristãs. É correntemente representado como um adulto ascético, vestido de pele de carneiro, com um cordeiro e um estandarte com a legenda “Ecce Homo”. É padroeiro das cidades do Porto e de Braga, onde é festejado com alegria pelo povo, de 23 para 24 de Junho. Trata-se de uma festa com origem no solstício de Junho e que inicialmente se tratava de uma festa pagã, na qual as pessoas festejavam a fertilidade, associada à alegria das colheitas e da abundância. Como tal é uma festa repleta de tradições, como a utilização dos alhos-porros (símbolos fálicos da fertilidade masculina) para bater nas cabeças de quem vai a passar, assim como de ramos de cidreira (símbolo dos pelos púbicos femininos), usados pelas mulheres para pôr na cara dos homens que passam. A Igreja viria a cristianizar essa festa pagã e atribuiu-lhe São João como Padroeiro.
São João Baptista está presente na nossa literatura de tradição oral. A nível de adagiário destacamos: “Ande por onde andar o Verão, há-de vir pelo São João”, “Pelo São João, ceifa o pão”, “Lavra pelo São João: terás palha e grão”, “A chuva de São João bebe o vinho e come o pão”, “Pelo São João deve o milho cobrir o cão”, “Pelo São João semeia o teu feijão”, “Pelo São João, figo na mão”, “Galinhas de São João, pelo Natal, ovos dão”, “Tem o porco meão pelo São João”, “Sardinha de São João pinga no pão”. No que respeita ao cancioneiro popular alentejano, salientamos duas quadras brejeiras. Uma: “Onde está o Baptista, / Elle não está na egreja, / Anda de mastro em mastro, / Para vêr quem no festeja.” E esta outra: “Lá vem o Baptista abaixo / Subindo aquellas ladeiras, / Dando abraços ás viúvas / E beijinhos às solteiras.”

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Touradas a Património Cultural Imaterial da Humanidade - II

Imagem recolhida em http://arpose.blogspot.pt/

No número anterior deste jornal, defendi a candidatura das touradas a Património Cultural Imaterial da Humanidade, o que deixou algumas pessoas perplexas, por pensar que tal proposta não era compatível com o conceito de Património Cultural Imaterial da Humanidade.
O que diz a UNESCO
Para a compreensão do conceito de Património Cultural Imaterial, há que ter em conta a CONVENÇÃO PARA A SALVAGUARDA DO PATRIMÓNIO CULTURAL IMATERIAL, aprovada a 17 de Outubro de 2003, pela Conferência Geral da UNESCO reunida em Paris. A Convenção no seu Capítulo I – DISPOSIÇÕES GERAIS, tem dois artigos que importa aqui destacar: “ARTIGO 1º: FINALIDADES DA CONVENÇÃO. As finalidades da presente Convenção são: (a) a salvaguarda do património cultural imaterial; (b) o respeito do património cultural imaterial das comunidades, grupos e indivíduos envolvidos; (c) a sensibilização a nível local, nacional e internacional para a importância do património cultural imaterial e da sua apreciação recíproca; (d) a cooperação e assistência internacionais. ARTIGO 2º: DEFINIÇÕES. Para efeitos da presente Convenção, 1. Entende-se por “património cultural imaterial” as práticas, representações, expressões, conhecimentos e competências – bem como os instrumentos, objectos, artefactos e espaços culturais que lhes estão associados – que as comunidades, grupos e, eventualmente, indivíduos reconhecem como fazendo parte do seu património cultural. Este património cultural imaterial, transmitido de geração em geração, é constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função do seu meio envolvente, da sua interacção com a natureza e da sua história, e confere-lhes um sentido de identidade e de continuidade, contribuindo assim para promover o respeito da diversidade cultural e a criatividade humana. Para efeitos da presente Convenção, só será tomado em consideração o património cultural imaterial que seja compatível com os instrumentos internacionais relativos aos direitos humanos existentes, bem como com a exigência do respeito mútuo entre comunidades, grupos e indivíduos, e de um desenvolvimento sustentável. 2. O “património cultural imaterial” tal como é definido no parágrafo I supra, manifesta-se nomeadamente nos seguintes domínios: (a) tradições e expressões orais, incluindo a língua como vector do património cultural imaterial; (b) artes do espectáculo; (c) práticas sociais, rituais e actos festivos; (d) conhecimentos e usos relacionados com a natureza e o universo; (e) técnicas artesanais tradicionais.”
As touradas em Portugal
O toureio a cavalo remonta à Idade Média, como nos relata Fernando Teixeira no seu livro TOUROS EM PORTUGAL – UM PATRIMÓNIO HISTÓRICO, ARTÍSTICO E CULTURAL, dado à estampa em 1992, pelos Correios de Portugal. As touradas incluem-se nas artes do espectáculo e as suas práticas têm sido transmitidas de geração em geração, encontrando-se registadas ao longo dos séculos na literatura portuguesa, como bem documenta a antologia: O MUNDO DO TOUREIO NA LITERATURA DE LÍNGUA PORTUGUESA, editada pela Portugália em 1966, com selecção e prefácio de Urbano Tavares Rodrigues. Aí se toma conhecimento de que no âmbito da POESIA, a tauromaquia foi abordada sucessivamente por autores como: João Roiz de Castel Branco, Nicolau Tolentino, Alexandre da Conceição, António Nobre, Mário Beirão, Carlos Queiroz e Azinhal Abelho. No domínio da PROSA daquela temática, regista-se a existência de autores como Almeida Garrett, Rebelo da Silva, Camilo Castelo Branco, Ramalho Ortigão, Marcelino Mesquita, Abel Botelho, Fialho de Almeida, João Viegas de Paulo Nogueira, Manuel Teixeira Gomes, Trindade Coelho, Augusto de Castro, Norberto de Araújo, Noel Teles, Sousa Costa, Mário Domingues, Augusto Casimiro, Vitorino Nemésio, Miguel Torga, Alves Redol, Fernando Reis e Miguel Urbano Rodrigues. A nível do TEATRO há a referir autores como Júlio Dantas e Bernardo Santareno.
Uma proposta que faz sentido
De acordo com o exposto, faz todo o sentido, a defesa da candidatura das touradas a Património Cultural Imaterial da Humanidade. De resto, existem que eu saiba, 40 municípios com tradições taurinas, que constituem uma secção da Associação Nacional de Municípios, alguns dos quais já declararam as touradas como Património Cultural Imaterial de Interesse Municipal. É o primeiro passo no sentido de concretização da candidatura a apresentar à UNESCO.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Villa lusitano-romana de Santa Vitória do Ameixial

Mosaico: ULISSES. Datação: Época Romana.

Todas as imagens aqui apresentadas se referem a espólio recolhido na
Villa lusitano-romana de Santa Vitória do Ameixial e que se encontra
depositado no Museu Nacional de Arqueologia, Lisboa.


Na sua reunião de 17 de Junho passado, a Câmara Municipal de Estremoz deliberou por unanimidade, aprovar a celebração de um Contrato Interadministrativo de Delegação de Competências entre o Município e aPresidência do Conselho de Ministros, que tem por objecto a delegação de competências da Secretaria de Estado da Cultura no Município para a transferência da titularidade do património, relativo à Villa lusitano-romana de Santa Vitória do Ameixial (Sítio Arqueológico de Santa Vitória do Ameixial –ruínas romanas) e ao Castelo de Evoramonte – fortificações, com excepção da Torre do Paço do Castelo, que se mantém património dependente da Direcção Regional de Cultura do Alentejo. A deliberação da Câmara foi ratificada por unanimidade na reunião da Assembleia Municipal de Estremoz, realizada no passado dia 26 de Junho.
Congratulo-me com esta unanimidade, a qual era esperada, dado a importância do assunto e o facto de o mesmo não ser fracturante. De salientar que a transferência de competências é acompanhada da transferência de recursos.

A Villa lusitano-romana de Santa Vitória do Ameixial
A descoberta da Villa lusitano-romana de Santa Vitória do Ameixial ocorreu na sequência de trabalhos de exploração de uma pedreira na aldeia de Santa Vitória. O proprietário dos terrenos comunicou o facto ao director do Museu Etnológico Português, José Leite de Vasconcelos (1858-1941), que enviou o conservador do Museu, Luis Chaves (1888-1975), para proceder a escavações, o que ocorreu em 1915 e 1916. A publicação dos resultados só viria a ocorrer bastante mais tarde, no volume 30 da 1ª série de “O Arqueólogo Português”, de 1938. Tratava-se de uma Villa lusitano-romana, de grande proprietário, senhor das terras que a circundavam e que terá sido construída entre finais do século I e inícios do IV, no contexto da Romanização da Península Ibérica, estando inserida na província da Lusitânia, cuja capital se situava em Mérida (Emerita Augusta).
Luis Chaves escavou parte dessa Villa, que se encontrava já muito destruída, pelo saque a que vinha sendo sujeita pela população local, para a recuperação e reaproveitamento dos materiais de construção, nomeadamente a pedra. Luís Chaves pôs então a descoberto o peristilo da residência senhorial e as termas, ambas com notáveis pavimentos de mosaico, num total de 13. Para além dos mosaicos, o espólio recolhido no local e transportado para Lisboa, onde se encontra depositado no Museu Nacional de Arqueologia, integra ainda importantes vestígios de escultura de vulto e escultura arquitectónica, materiais de construção, utensílios variados, loiças domésticas, vidros variados, vasos de bronze, adornos femininos de ouro e osso, jogos, anéis de metal ou de vidro e o rico tesouro de 3000 moedas.
A Villa terá tido uma primeira ocupação no séc. I, como é documentado pelo aparecimento de uma moeda de Nero e cerâmica datada deste período. No entanto, a ocupação mais significativa, em termos de vestígios materiais, é já do Baixo-império (finais do séc. III - inícios do séc. IV).
As escavações foram posteriormente retomadas entre 1970 e 1980.
Nas condições do contrato agora celebrado entre a Câmara Municipal de Estremoz e a Secretaria de Estado da Cultura, está prevista a conservação, segurança e reabilitação de estruturas. Não se sabe é se as escavações vão ou não prosseguir.

Centro Interpretativo da Villa
A meu ver torna-se necessário a construção no local de um “Centro Interpretativo da Villa lusitano-romana de Santa Vitória do Ameixial”, à semelhança do que se passa em Miróbriga, visando permitir o desenvolvimento de uma oferta turística de base cultural, com envolvimento da comunidade local. Santa Vitória precisa de turismo, como um pobre de pão para a boca.

Retorno ao local do espólio recolhido
Actualmente, a legislação sobre património proíbe a deslocalização do mesmo, o que não acontecia na época das primeiras escavações. Todavia, se houver sensibilidade da parte da Secretaria de Estado da Cultura, visando ampliar e aprofundar o protocolo actual, há que promover o retorno ao local do espólio então recolhido. De contrário, parafraseando Jerónimo de Sousa, é caso para dizer:
- DÃO-NOS OS OSSOS E FICAM COM OS BIFES DE LOMBO!   


BIBLIOGRAFIA
- CHAVES, Luís - "Latifúndios de Romanos no Alentejo. Uma “villa” romana". Separata do Boletim da Associação Central da Agricultura Portuguesa, nº4. Lisboa, Abril de 1922.


Mosaico: AS ESTAÇÔES DO ANO. Datação: Época Romana.
 Mosaico: O VENTO EURUS.
Mosaico: JÚPITER TOCADO POR UMA SETA DO CUPIDO.
Mosaico: COROAÇÃO DO ATLETA VENCEDOR NO DITIRAMBO EM JOGOS
DIONISÍACOS.
Carranca fontanária em mármore. Séc. II – Época Romana. Dimensões (cm):
altura: 27,2; largura: 21,3; espessura: 13,5.
Estátua de Inverno. Escultura em mármore. Séc. II - Época Romana.
Dimensões (cm): altura: 48; largura: 62; espessura: 28.
Guarnição parietal em mármore. Época Romana. Dimensões (cm):
altura: 26,5; largura: 41; espessura: 5.
Jarro de cerâmica comum. Época Romana. Dimensões (cm): altura: 17,9;
diâmetro: 13,5.
Pote de cerâmica comum. Datação: Época Romana. Dimensões (cm):
altura: 10,8; diâmetro: 14,5.
Pote de cerâmica comum. Dimensões (cm): altura: 16,5; espessura: 0,6;
diâmetro: 14,7. Datação: Época Romana.
Peso de tear em barro. Dimensões (cm): altura: 11; largura: 7,3.
Datação: Época Romana.
Lucerna de 1 bico, em barro. Fabrico por molde. Dimensões (cm):
largura: 4,7; comprimento: 7,1. Datação: III d.C. - IV d.C. - Época Romana.
Lucerna de dois bicos, em barro. Fabrico por molde, Dimensões (cm):
altura: 5,1; diâmetro: 7,9; comprimento: 11.Datação: Época Romana.
Lucerna em ferro. Dimensões (cm): altura: 2,2; largura: 6,7; comprimento:
10,6. Datação: Época Romana.
Ralo de canalização. Séc. II - Época Romana. Fundição em chumbo.
Dimensões (cm): altura: 27,5; largura: 15; espessura: 9,8.
Manilha em chumbo. Séc. II – Época Romana. Dimensões (cm): altura: 9,5;
largura: 10;  comprimento: 47.
Torneira de distribuição. Séc II -  Época Romana. Fundição em bronze.
Sega. Ferro fundido. Época Romana. Dimensões (cm): comprimento: 22,5.
Machado de ferro. Dimensões (cm): largura: 5,6; comprimento: 19,8. Datação:
Época Romana.
Martelo em ferro. Dimensões (cm): comprimento: 12,3. Datação: Época Romana.
Enxó em ferro. Dimensões (cm): diâmetro: 8,8; comprimento: 13,2. Datação:
Época Romana.
Alvião em ferro. Dimensões (cm): comprimento: 19,9. Datação: Época Romana.
Armela de asa de sítula. Bronze fundido em molde. Época Romana.
Dimensões (cm): altura: 7,2; largura: 7; espessura: 0,5.
Argola de bronze, de secção circular e aro circular fechado. Dimensões (cm):
espessura: 0,8; diâmetro: 4,2. Datação: Época Romana.
Tripé de bronze composto por argola circular achatada e três pés de apoio.
Dimensões (cm): diâmetro: 7,1. Datação: Época Romana.
Fíbula de bronze. Dimensões (cm): altura: 3,1; comprimento: 8,6. Datação:
Época Romana.
Elemento decorativo de um carro, em bronze. Datação: Época Romana.
Dimensões: 10,8 x 6,7 cm.
Anel de bronze. Dimensões (cm): diâmetro: 1,7. Datação: Época Romana.
Alfinete de cabelo, em osso. Dimensões (cm): espessura: 0,3; comprimento: 5,7.
Datação: Época Romana.
Bracelete em ouro martelado. Datação: Século I d.C. Dimensões (mm):
Diâmetro: 68; Espessura: 2 mm. Peso (g): 10,6 g.
Boneca de osso. Época Romana. Técnica: Talhe, polimento e incisão.
Dimensões (cm): altura: 11,3; largura: 1,5; espessura: 0,7.
Instrumento cirúrgico – Sonda em bronze. Dimensões (cm): espessura: 0,75;
comprimento: 11.77. Datação: Época Romana.
Moeda de Arcádio. Centro de Fabrico: Nicomedia. Datação: 393 d.C. - 395 d.C.
- Época Romana. Cunhada em bronze. Dimensões (cm): espessura: 0,2; diâmetro: 2.
Moeda de Honorius. Datação: 393 d.C. - 395 d.C. - Época Romana.
Cunhada em bronze. Dimensões (cm): espessura: 0,1; diâmetro: 2,2.
Moeda de Adriano. Datação: 117 d.C. - 135 d.C. - Época Romana.
Cunhada em Bronze. Dimensões (cm): espessura: 0,3; diâmetro: 3,3;
Moeda de Trajano Decius. Datação: Época Romana. Cunhada em bronze.
Dimensões (cm): espessura: 0,3; diâmetro: 2,7.
Moeda de Magno Máximo. Centro de Fabrico: Lugdunum (Lyons, França).
Datação: 383 d.C. - 388 d.C. - Época Romana. Cunhada em bronze.
Dimensões (cm): espessura: 0,1; diâmetro: 2,4.
Moeda de Theodosius. Centro de Fabrico: Nicomedia. Datação:
392 d.C. - 395 d.C. - Época Romana. Cunhada em bronze.
Dimensões (cm): espessura: 0,1; diâmetro: 2,1.
Moeda de Maximinus. Centro de fabrico. Roma. Datação: 235 d.C. - 236 d.C.
- Época Romana. Cunhada em bronze. Dimensões (cm): espessura: 0,3;
diâmetro: 2,5.