quarta-feira, 15 de julho de 2015

Touradas a Património Cultural Imaterial da Humanidade - II

Imagem recolhida em http://arpose.blogspot.pt/

No número anterior deste jornal, defendi a candidatura das touradas a Património Cultural Imaterial da Humanidade, o que deixou algumas pessoas perplexas, por pensar que tal proposta não era compatível com o conceito de Património Cultural Imaterial da Humanidade.
O que diz a UNESCO
Para a compreensão do conceito de Património Cultural Imaterial, há que ter em conta a CONVENÇÃO PARA A SALVAGUARDA DO PATRIMÓNIO CULTURAL IMATERIAL, aprovada a 17 de Outubro de 2003, pela Conferência Geral da UNESCO reunida em Paris. A Convenção no seu Capítulo I – DISPOSIÇÕES GERAIS, tem dois artigos que importa aqui destacar: “ARTIGO 1º: FINALIDADES DA CONVENÇÃO. As finalidades da presente Convenção são: (a) a salvaguarda do património cultural imaterial; (b) o respeito do património cultural imaterial das comunidades, grupos e indivíduos envolvidos; (c) a sensibilização a nível local, nacional e internacional para a importância do património cultural imaterial e da sua apreciação recíproca; (d) a cooperação e assistência internacionais. ARTIGO 2º: DEFINIÇÕES. Para efeitos da presente Convenção, 1. Entende-se por “património cultural imaterial” as práticas, representações, expressões, conhecimentos e competências – bem como os instrumentos, objectos, artefactos e espaços culturais que lhes estão associados – que as comunidades, grupos e, eventualmente, indivíduos reconhecem como fazendo parte do seu património cultural. Este património cultural imaterial, transmitido de geração em geração, é constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função do seu meio envolvente, da sua interacção com a natureza e da sua história, e confere-lhes um sentido de identidade e de continuidade, contribuindo assim para promover o respeito da diversidade cultural e a criatividade humana. Para efeitos da presente Convenção, só será tomado em consideração o património cultural imaterial que seja compatível com os instrumentos internacionais relativos aos direitos humanos existentes, bem como com a exigência do respeito mútuo entre comunidades, grupos e indivíduos, e de um desenvolvimento sustentável. 2. O “património cultural imaterial” tal como é definido no parágrafo I supra, manifesta-se nomeadamente nos seguintes domínios: (a) tradições e expressões orais, incluindo a língua como vector do património cultural imaterial; (b) artes do espectáculo; (c) práticas sociais, rituais e actos festivos; (d) conhecimentos e usos relacionados com a natureza e o universo; (e) técnicas artesanais tradicionais.”
As touradas em Portugal
O toureio a cavalo remonta à Idade Média, como nos relata Fernando Teixeira no seu livro TOUROS EM PORTUGAL – UM PATRIMÓNIO HISTÓRICO, ARTÍSTICO E CULTURAL, dado à estampa em 1992, pelos Correios de Portugal. As touradas incluem-se nas artes do espectáculo e as suas práticas têm sido transmitidas de geração em geração, encontrando-se registadas ao longo dos séculos na literatura portuguesa, como bem documenta a antologia: O MUNDO DO TOUREIO NA LITERATURA DE LÍNGUA PORTUGUESA, editada pela Portugália em 1966, com selecção e prefácio de Urbano Tavares Rodrigues. Aí se toma conhecimento de que no âmbito da POESIA, a tauromaquia foi abordada sucessivamente por autores como: João Roiz de Castel Branco, Nicolau Tolentino, Alexandre da Conceição, António Nobre, Mário Beirão, Carlos Queiroz e Azinhal Abelho. No domínio da PROSA daquela temática, regista-se a existência de autores como Almeida Garrett, Rebelo da Silva, Camilo Castelo Branco, Ramalho Ortigão, Marcelino Mesquita, Abel Botelho, Fialho de Almeida, João Viegas de Paulo Nogueira, Manuel Teixeira Gomes, Trindade Coelho, Augusto de Castro, Norberto de Araújo, Noel Teles, Sousa Costa, Mário Domingues, Augusto Casimiro, Vitorino Nemésio, Miguel Torga, Alves Redol, Fernando Reis e Miguel Urbano Rodrigues. A nível do TEATRO há a referir autores como Júlio Dantas e Bernardo Santareno.
Uma proposta que faz sentido
De acordo com o exposto, faz todo o sentido, a defesa da candidatura das touradas a Património Cultural Imaterial da Humanidade. De resto, existem que eu saiba, 40 municípios com tradições taurinas, que constituem uma secção da Associação Nacional de Municípios, alguns dos quais já declararam as touradas como Património Cultural Imaterial de Interesse Municipal. É o primeiro passo no sentido de concretização da candidatura a apresentar à UNESCO.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Villa lusitano-romana de Santa Vitória do Ameixial

Mosaico: ULISSES. Datação: Época Romana.

Todas as imagens aqui apresentadas se referem a espólio recolhido na
Villa lusitano-romana de Santa Vitória do Ameixial e que se encontra
depositado no Museu Nacional de Arqueologia, Lisboa.


Na sua reunião de 17 de Junho passado, a Câmara Municipal de Estremoz deliberou por unanimidade, aprovar a celebração de um Contrato Interadministrativo de Delegação de Competências entre o Município e aPresidência do Conselho de Ministros, que tem por objecto a delegação de competências da Secretaria de Estado da Cultura no Município para a transferência da titularidade do património, relativo à Villa lusitano-romana de Santa Vitória do Ameixial (Sítio Arqueológico de Santa Vitória do Ameixial –ruínas romanas) e ao Castelo de Evoramonte – fortificações, com excepção da Torre do Paço do Castelo, que se mantém património dependente da Direcção Regional de Cultura do Alentejo. A deliberação da Câmara foi ratificada por unanimidade na reunião da Assembleia Municipal de Estremoz, realizada no passado dia 26 de Junho.
Congratulo-me com esta unanimidade, a qual era esperada, dado a importância do assunto e o facto de o mesmo não ser fracturante. De salientar que a transferência de competências é acompanhada da transferência de recursos.

A Villa lusitano-romana de Santa Vitória do Ameixial
A descoberta da Villa lusitano-romana de Santa Vitória do Ameixial ocorreu na sequência de trabalhos de exploração de uma pedreira na aldeia de Santa Vitória. O proprietário dos terrenos comunicou o facto ao director do Museu Etnológico Português, José Leite de Vasconcelos (1858-1941), que enviou o conservador do Museu, Luis Chaves (1888-1975), para proceder a escavações, o que ocorreu em 1915 e 1916. A publicação dos resultados só viria a ocorrer bastante mais tarde, no volume 30 da 1ª série de “O Arqueólogo Português”, de 1938. Tratava-se de uma Villa lusitano-romana, de grande proprietário, senhor das terras que a circundavam e que terá sido construída entre finais do século I e inícios do IV, no contexto da Romanização da Península Ibérica, estando inserida na província da Lusitânia, cuja capital se situava em Mérida (Emerita Augusta).
Luis Chaves escavou parte dessa Villa, que se encontrava já muito destruída, pelo saque a que vinha sendo sujeita pela população local, para a recuperação e reaproveitamento dos materiais de construção, nomeadamente a pedra. Luís Chaves pôs então a descoberto o peristilo da residência senhorial e as termas, ambas com notáveis pavimentos de mosaico, num total de 13. Para além dos mosaicos, o espólio recolhido no local e transportado para Lisboa, onde se encontra depositado no Museu Nacional de Arqueologia, integra ainda importantes vestígios de escultura de vulto e escultura arquitectónica, materiais de construção, utensílios variados, loiças domésticas, vidros variados, vasos de bronze, adornos femininos de ouro e osso, jogos, anéis de metal ou de vidro e o rico tesouro de 3000 moedas.
A Villa terá tido uma primeira ocupação no séc. I, como é documentado pelo aparecimento de uma moeda de Nero e cerâmica datada deste período. No entanto, a ocupação mais significativa, em termos de vestígios materiais, é já do Baixo-império (finais do séc. III - inícios do séc. IV).
As escavações foram posteriormente retomadas entre 1970 e 1980.
Nas condições do contrato agora celebrado entre a Câmara Municipal de Estremoz e a Secretaria de Estado da Cultura, está prevista a conservação, segurança e reabilitação de estruturas. Não se sabe é se as escavações vão ou não prosseguir.

Centro Interpretativo da Villa
A meu ver torna-se necessário a construção no local de um “Centro Interpretativo da Villa lusitano-romana de Santa Vitória do Ameixial”, à semelhança do que se passa em Miróbriga, visando permitir o desenvolvimento de uma oferta turística de base cultural, com envolvimento da comunidade local. Santa Vitória precisa de turismo, como um pobre de pão para a boca.

Retorno ao local do espólio recolhido
Actualmente, a legislação sobre património proíbe a deslocalização do mesmo, o que não acontecia na época das primeiras escavações. Todavia, se houver sensibilidade da parte da Secretaria de Estado da Cultura, visando ampliar e aprofundar o protocolo actual, há que promover o retorno ao local do espólio então recolhido. De contrário, parafraseando Jerónimo de Sousa, é caso para dizer:
- DÃO-NOS OS OSSOS E FICAM COM OS BIFES DE LOMBO!   


BIBLIOGRAFIA
- CHAVES, Luís - "Latifúndios de Romanos no Alentejo. Uma “villa” romana". Separata do Boletim da Associação Central da Agricultura Portuguesa, nº4. Lisboa, Abril de 1922.


Mosaico: AS ESTAÇÔES DO ANO. Datação: Época Romana.
 Mosaico: O VENTO EURUS.
Mosaico: JÚPITER TOCADO POR UMA SETA DO CUPIDO.
Mosaico: COROAÇÃO DO ATLETA VENCEDOR NO DITIRAMBO EM JOGOS
DIONISÍACOS.
Carranca fontanária em mármore. Séc. II – Época Romana. Dimensões (cm):
altura: 27,2; largura: 21,3; espessura: 13,5.
Estátua de Inverno. Escultura em mármore. Séc. II - Época Romana.
Dimensões (cm): altura: 48; largura: 62; espessura: 28.
Guarnição parietal em mármore. Época Romana. Dimensões (cm):
altura: 26,5; largura: 41; espessura: 5.
Jarro de cerâmica comum. Época Romana. Dimensões (cm): altura: 17,9;
diâmetro: 13,5.
Pote de cerâmica comum. Datação: Época Romana. Dimensões (cm):
altura: 10,8; diâmetro: 14,5.
Pote de cerâmica comum. Dimensões (cm): altura: 16,5; espessura: 0,6;
diâmetro: 14,7. Datação: Época Romana.
Peso de tear em barro. Dimensões (cm): altura: 11; largura: 7,3.
Datação: Época Romana.
Lucerna de 1 bico, em barro. Fabrico por molde. Dimensões (cm):
largura: 4,7; comprimento: 7,1. Datação: III d.C. - IV d.C. - Época Romana.
Lucerna de dois bicos, em barro. Fabrico por molde, Dimensões (cm):
altura: 5,1; diâmetro: 7,9; comprimento: 11.Datação: Época Romana.
Lucerna em ferro. Dimensões (cm): altura: 2,2; largura: 6,7; comprimento:
10,6. Datação: Época Romana.
Ralo de canalização. Séc. II - Época Romana. Fundição em chumbo.
Dimensões (cm): altura: 27,5; largura: 15; espessura: 9,8.
Manilha em chumbo. Séc. II – Época Romana. Dimensões (cm): altura: 9,5;
largura: 10;  comprimento: 47.
Torneira de distribuição. Séc II -  Época Romana. Fundição em bronze.
Sega. Ferro fundido. Época Romana. Dimensões (cm): comprimento: 22,5.
Machado de ferro. Dimensões (cm): largura: 5,6; comprimento: 19,8. Datação:
Época Romana.
Martelo em ferro. Dimensões (cm): comprimento: 12,3. Datação: Época Romana.
Enxó em ferro. Dimensões (cm): diâmetro: 8,8; comprimento: 13,2. Datação:
Época Romana.
Alvião em ferro. Dimensões (cm): comprimento: 19,9. Datação: Época Romana.
Armela de asa de sítula. Bronze fundido em molde. Época Romana.
Dimensões (cm): altura: 7,2; largura: 7; espessura: 0,5.
Argola de bronze, de secção circular e aro circular fechado. Dimensões (cm):
espessura: 0,8; diâmetro: 4,2. Datação: Época Romana.
Tripé de bronze composto por argola circular achatada e três pés de apoio.
Dimensões (cm): diâmetro: 7,1. Datação: Época Romana.
Fíbula de bronze. Dimensões (cm): altura: 3,1; comprimento: 8,6. Datação:
Época Romana.
Elemento decorativo de um carro, em bronze. Datação: Época Romana.
Dimensões: 10,8 x 6,7 cm.
Anel de bronze. Dimensões (cm): diâmetro: 1,7. Datação: Época Romana.
Alfinete de cabelo, em osso. Dimensões (cm): espessura: 0,3; comprimento: 5,7.
Datação: Época Romana.
Bracelete em ouro martelado. Datação: Século I d.C. Dimensões (mm):
Diâmetro: 68; Espessura: 2 mm. Peso (g): 10,6 g.
Boneca de osso. Época Romana. Técnica: Talhe, polimento e incisão.
Dimensões (cm): altura: 11,3; largura: 1,5; espessura: 0,7.
Instrumento cirúrgico – Sonda em bronze. Dimensões (cm): espessura: 0,75;
comprimento: 11.77. Datação: Época Romana.
Moeda de Arcádio. Centro de Fabrico: Nicomedia. Datação: 393 d.C. - 395 d.C.
- Época Romana. Cunhada em bronze. Dimensões (cm): espessura: 0,2; diâmetro: 2.
Moeda de Honorius. Datação: 393 d.C. - 395 d.C. - Época Romana.
Cunhada em bronze. Dimensões (cm): espessura: 0,1; diâmetro: 2,2.
Moeda de Adriano. Datação: 117 d.C. - 135 d.C. - Época Romana.
Cunhada em Bronze. Dimensões (cm): espessura: 0,3; diâmetro: 3,3;
Moeda de Trajano Decius. Datação: Época Romana. Cunhada em bronze.
Dimensões (cm): espessura: 0,3; diâmetro: 2,7.
Moeda de Magno Máximo. Centro de Fabrico: Lugdunum (Lyons, França).
Datação: 383 d.C. - 388 d.C. - Época Romana. Cunhada em bronze.
Dimensões (cm): espessura: 0,1; diâmetro: 2,4.
Moeda de Theodosius. Centro de Fabrico: Nicomedia. Datação:
392 d.C. - 395 d.C. - Época Romana. Cunhada em bronze.
Dimensões (cm): espessura: 0,1; diâmetro: 2,1.
Moeda de Maximinus. Centro de fabrico. Roma. Datação: 235 d.C. - 236 d.C.
- Época Romana. Cunhada em bronze. Dimensões (cm): espessura: 0,3;
diâmetro: 2,5.


quarta-feira, 8 de julho de 2015

29 - Santa Catarina de Alexandria, Virgem e Mártir

Santa Catarina de Alexandria.
Maria Luísa da Conceição (1934-2015).
Colecção particular.

De acordo com a lenda, Catarina era filha do rei Costes de Alexandria, cidade onde nasceu no ano de 288. Após a morte do pai, emigrou com a mãe para a Cilícia e converteu-se ao cristianismo, sendo instruída na fé cristã por um eremita de nome Ananias, que a baptizou e lhe prometeu o mais formoso dos noivos.
Aos 12 anos teve um sonho no qual lhe apareceu o menino Jesus nos braços da Virgem e que lhe disse que ela seria a sua noiva e que não deveria entregar-se a nenhum homem. Colocou-lhe então no dedo, o anel de casamento, que ela descobriu ao acordar.
Catarina estudou filosofia, teologia e outras ciências, sendo dotada de uma inteligência superior e de singular beleza.   
Nessa época, Maximino II, Imperador de Alexandria, perseguia os cristãos. Catarina, então com 17 anos, censurou o opressor pela sua crueldade e procurou convencê-lo a abandonar o culto pagão.  Incapaz de refutar os argumentos da jovem, o imperador mandou chamar cinquenta filósofos para discutirem com ela. No confronto verbal, ela conseguiu demolir os seus argumentos e convertê-los ao cristianismo, pelo que foram mandados queimar vivos pelo déspota.
Surpreendido com o êxito da jovem e encantado pela sua beleza, o imperador procurou ganhar a sua simpatia, visando levá-la a abandonar o cristianismo. Para tal, prometeu elevá-la à dignidade de Imperatriz, o que ela rejeitou, visto que estava casada misticamente com Jesus. Foi então encarcerada e alvo de flagelações e de privações. Na prisão recebeu a visita da Imperatriz, acompanhada de escolta militar, tendo-se convertido todos ao cristianismo. Tal circunstância reforçou a fúria do tirano, que ordenou que Catarina fosse colocada sobre uma roda com lâminas cortantes e ferros pontiagudos. Quando lhe tocou, a roda desconjuntou-se e ela saiu ilesa, enquanto que alguns dos espectadores foram mortos por fagulhas, o que causou espanto entre os presentes e determinou a conversão de alguns.
Maximino deu então ordem para que Catarina fosse decapitada no dia 25 de Novembro de 307. A jovem recebeu alegremente a sentença, louvando o dia que lhe ia proporcionar a maior das venturas: a união com Jesus. Ainda segundo a lenda, quando lhe cortaram a cabeça, em vez de sangue, jorrou leite.
Por ter sido torturada na roda, é padroeira de todos os que trabalham com rodas: oleiros, torneiros, amoladores, carpinteiros e curtidores. Pela sua sabedoria, é invocada como protectora por estudantes e intelectuais. É também padroeira das mães que desejam ter leite para amamentar os filhos.   Os seus atributos são a roda de tortura, a palma de mártir, a espada, o anel e o livro. A  sua festa litúrgica tem lugar a 25 de Novembro e foi incluída no calendário litúrgico pelo Papa João XXII (1249-1334).
Santa Catarina está presente na nossa literatura de tradição oral. A nível de adagiário temos “De Santa Catarina ao Natal, um mês igual”. A nível de cancioneiro popular alentejano, conhece-se entre outras a seguinte quadra: “Senhora Santa Cath'rina,/ Minha santinha de prata,/ De vagar se vae ao longe,/ Muito tolo é quem se mata.”

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Companheiros de estrada

O passeio de domingo (1841).
Carl Spitzweg (1808-1885).
Óleo sobre tela (28 x 34 cm).
Museum Carolino Augusteum, Salzburg.

Em 7 de Maio do ano passado, publiquei no meu blogue, um texto intitulado “Companheiros de estrada”, que diz o seguinte:É bem conhecida a minha postura perante o mundo e a vida, bem como a capacidade de trilhar caminhos com quem pensa de maneira distinta da minha. São aqueles a quem chamo os companheiros de estrada. Naturalmente que aquilo que consigo caminhar com cada um deles é diferente, porque eles são diferentes entre si e ninguém pode impor passos a outro.
Sou um homem livre, sem peias nem albardas no pensamento. Não sigo cartilhas, sejam elas da Rua da Palma, da Soeiro Pereira Gomes, do Largo do Rato, da Rua de S. Caetano ou do Largo do Caldas. Sou um franco-atirador, como gosto de dizer. Prezo muito a amizade e lidar com pessoas com carácter. São factores que para mim, valem mais que quaisquer interesses político-partidários e não se veja aqui da minha parte qualquer formulação axiomática contra os partidos, os quais considero pilares da democracia. Veja-se sim a importância que atribuo à amizade e ao carácter das pessoas. Para mim, a palavra é sagrada e os compromissos assumidos devem ser respeitados. Não se pode fazer como alguns miúdos que quando estão a perder, mudam as regras do jogo. Isso é falta de carácter e ao proceder assim, quem o faz perde credibilidade e fiabilidade em acordos futuros. Quando um companheiro de estrada me impõe passos que eu não queria dar, termina o companheirismo de estrada. Sabem porquê? “Gato escaldado, de água fria tem medo””.
Foi na qualidade de companheiro de estrada que fui convidado a integrar o Conselho Consultivo Independente da Federação de Évora do PS, tido como “um espaço de diálogo político e de auscultação da sociedade civil”, “constituído por cidadãos independentes de reconhecido mérito social, residentes ou naturais de todos os concelhos do Distrito de Évora”. São atribuições do Conselho: “Receber informação sobre as propostas do PS e sobre todos os demais aspectos da vida política nacional, regional e local onde o PS intervenha; - Emitir opinião sobre assuntos relevantes, prioritariamente para o distrito, e, ou, para cada um dos seu municípios, que podem revestir a forma de recomendações formais aos órgãos do PS, aos seus autarcas e aos seus deputados”.
A tomada de posse do Conselho foi conferida pelo Presidente do PS, Carlos César, e teve lugar no passado sábado, 30 de Maio, no Hotel Vila Galé, em Évora. Seguiu-se a discussão e emissão de parecer sobre o projecto de programa eleitoral para o distrito de Évora, intitulado "20 Prioridades para a Próxima Legislatura". Houve um debate vivo e mutuamente enriquecedor. O documento apresentado reuniu na sua generalidade o consenso de todos os conselheiros, tendo sido dadas sugestões de melhoria do documento base à Comissão Política Distrital do PS, visando a sua integração na proposta final.
As “20 Prioridades para a Próxima Legislatura" são medidas que os deputados do PS, eleitos pelo Círculo Eleitoral de Évora para a próxima Legislatura, assumem o compromisso de defender perante a população do distrito. Creio que o farão. Se não fizerem, têm aqui um amigo à perna.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Touradas a Património Cultural Imaterial da Humanidade

Fotografia recolhida em  www.oribatejo.pt

As touradas
Quando era miúdo, o meu avô Manuel Alturas, ferroviário aposentado, republicano e amante da Festa Brava, levava-me aos touros e comprava rebuçados que comíamos durante a corrida. Eu ficava encantado com o ritual das cortesias e o evoluir elegante do ginete de Mestre João Branco Núncio, a quem os mais velhos chamavam “O Califa de Alcácer”.
Quando ia às touradas usava calças de cós alto e jaqueta que o meu pai, alfaiate de lavradores e de toureiros, confeccionara para mim. Um pequeno chapéu à Mazantino completava os meus adereços. Desse tempo, guardo como relíquia, a minúscula jaqueta que levava às touradas.
O cavalinho de pau
Nos anos cinquenta do século passado, eram frequentes, em Estremoz, o carro de tracção animal, os trens e as caleches, bem como o próprio acto de montar a cavalo. Natural era, pois, que eu, habilitado com as asas da minha imaginação, sonhasse em ser cavaleiro. E fazia-o, brincando com o meu cavalinho de pau, o qual durante muito tempo foi a vassoura de cabo alto, lá de casa.
Nas minhas cavalgadas, fazia como o “Califa de Alcácer”. Por vezes mudava de montada e passava a cavalgar a cana de caiar.
Certo dia, a minha mãe, farta das minhas traquinadas com os utensílios domésticos, acabou por me comprar um cavalinho de pau, mesmo a sério, com cabeça de cavalo, crinas, arreios e tudo. E logo que o estreei, como ele não dizia nada, com todo o meu contentamento fui eu próprio que relinchei por ele, o que emprestou mais realismo à minha representação. E sabem que mais? Quando montava o meu corcel, usava sempre um barrete feito de papel de jornal, que o meu avô me ensinara a fazer numa tourada, quando me esqueci de levar o meu chapéu à Mazantina.
O meu barrete de papel era um acessório importante. Quando fazia de militar a cavalo, usava o barrete posto de trás para diante e uma espada de madeira presa no cinto das calças. Já quando era cavaleiro tauromáquico, punha o barrete de papel atravessado na cabeça e usava um pau a fazer de farpa. Mas nada de usar jaqueta ou chapéu à Mazantina, porque isso era só nos dias de festa.
As minhas representações equestres eram diversificadas, iam do trote ao galope, passando pelo volteio. Nelas, na minha imaginação, eu era sempre um garboso cavaleiro montado num puro-sangue de Alter, que cavalgava horas a fio no Largo do Espírito Santo. Acontecia às vezes que uma tourada ficava a meio do seu curso ou, o que era bem pior, não conseguia concretizar uma carga de cavalaria. Sabem porquê? É que a minha mãe aparecia à janela a gritar:
- “Hernâni anda para a mesa, que são horas de comer!”
E eu não resistia à chamada, porque com tanta cavalgada, já tinha a barriga a dar horas.
Aficionado de gema
Como devem ter percebido, aprendi a gostar de touradas como o meu avô e ainda hoje sou aficionado. Reconheço que as touradas estão muito para além do mundo taurino: ganadeiros, campinos, forcadagem, cavaleiros, toureiros, bandarilheiros, apoderados e empresários. É minha firme convicção que as touradas estão na massa do sangue do Zé Povinho e integram a Cultura Popular deste país. Daí que tal como os chocalhos de Alcáçovas devam ser candidatadas a Património Cultural Imaterial da Humanidade. É caso para dizer:
- MÃOS À OBRA!
Todavia, há por aí pessoas que não gostam de touradas e que fazem campanha contra elas. Provavelmente irão atirar-se a mim, como gato a bofe. Lembro-lhes que as touradas são um espectáculo legal e que ninguém é obrigado a ir lá, tal como à missa ou ao futebol. O resto são filmes que se passam na cabeça deles. O que vale é que como nos diz o rifoneiro popular:
- VOZES DE BURRO NÃO CHEGAM AO CÉU.     


Fotografia recolhida em http://farpasblogue.blogspot.pt 
Fotografia recolhida em http://farpasblogue.blogspot.pt 
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 Fotografia recolhida em http://farpasblogue.blogspot.pt 
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 Fotografia recolhida em http://farpasblogue.blogspot.pt 
Fotografia recolhida em http://corridatouros.blogspot.pt/