quarta-feira, 8 de abril de 2015

Feira Medieval de Estremoz – 2015

Esta imagem, tal como as restantes refere-se à Feira Medieval de Estremoz - 2014

De alguns anos a esta parte que têm proliferado um pouco por toda a parte, eventos a que se convencionou chamar “Feiras Medievais”. Estremoz não podia deixar de fugir à regra e daí que no ano transacto, por iniciativa da Escola Secundária e com o apoio do Município, tenha ocorrido a 17 de Maio a chamada “I Feira Medieval de Estremoz”. O acontecimento para além dos objectivos pedagógicos pré-fixados pela Escola, contribuiu para a animação sócio-cultural e turística, que figura e muito bem nos objectivos do Município. Incluiu a parte baixa da Cidade e o Bairro do Castelo.
Os estremocenses gostaram do que viram no ano passado e neles eu me incluo. Todavia, esse facto não me impede de enumerar algumas críticas que visam contribuir para o aperfeiçoamento da realização de um evento, o qual é desejável que se consolide e fortaleça. Naturalmente que com credibilidade. Para tal é recomendável o máximo de rigor histórico. Tal não é compatível com a utilização de acessórios pessoais e o comércio de produtos inexistentes na época, assim como a utilização visível de tubagem de ferro. Uma Feira Medieval não pode ser um albergue espanhol, onde tudo cabe. Daí que não deva ser vendido gato por lebre. Assim o exige a nobreza dos objectivos pedagógicos da Escola Secundária e que o Município subscreve.
Provavelmente será difícil fugir a clichés que têm sido seguidos noutros lados. Todavia há que saber resistir à tentação de o fazer. A organização da Feira deve ter uma contextualização sócio-cultural e espaço-temporal credível. Daí que tenha ficado perplexo com a designação "Festival da Rainha -  II Feira Medieval de Estremoz", concedida ao evento deste ano, a decorrer nos próximos dias 16 e 17 de Maio. É que a Rainha Santa Isabel morreu em Estremoz em 1336 e a I Feira Medieval de Estremoz, teve lugar 127 anos depois, entre 20 e 30 de Junho de 1463, já na 2ª Dinastia, graças a carta de mercê datada de Estremoz aos 25 de Janeiro de 1463, concedida por D. Afonso V, que nesse sentido tinha sido solicitado pelos oficiais e homens-bons do Concelho, no decurso da sua permanência em Estremoz, na última quinzena de Janeiro desse ano. De salientar também que em 1463 era inexistente o culto oficial à Rainha Santa, o que só aconteceu após a beatificação concedida em 1516 pelo Papa Leão X, por solicitação de D. Manuel I.
Em Estremoz tem-se usado e abusado do nome da Rainha Santa Isabel para tudo e mais alguma coisa. Creio que o respeito devido à sua memória deveria inspirar mais comedimento na utilização do seu nome.












segunda-feira, 30 de março de 2015

22 – A hierarquia do presépio de trono

Presépio de trono (1961-62)
Marca: OLARIA ALFACINHA/ESTREMOZ/PORTUGAL.
Colecção particular.
Fotografia de Luís Mariano.

O chamado presépio de trono ou de altar, não aparece em qualquer imagem da Exposição do Mundo Português (1940), onde os bonecos de Estremoz se revelaram e se impuseram ao Mundo. Todavia, aparece na capa da revista Mensário das Casas do Povo, nº 18, de Dezembro de 1947. Terá sido então criado entre 1941 e 1947. Provavelmente entre 1941 e 1945, já que terá sido projectado pelo escultor José Maria de Sá Lemos (1892-1971), natural de Mamafude (Vila Nova de Gaia), onde existia a tradição de cascatas e de tronos, por ocasião dos Santos Populares. Sá Lemos foi Director da Escola Industrial António Augusto Gonçalves, entre 21 de Abril de 1932 e 30 de Setembro de 1945 e a ele se deve o renascimento dos bonecos de Estremoz.
No presépio de trono, as figuras são em número de nove e encontram-se distribuídas por três degraus, hierarquizadas de baixo para cima e da esquerda para a direita do observador:
1º DEGRAU - OS PASTORES: - pastor ofertante em pé, com um cesto contendo uma pomba branca; - pastor ajoelhado e de cabeça descoberta, orando com o chapéu à frente; - pastor ofertante em pé, segurando um borrego e com tarro enfiado no braço esquerdo. O 1º degrau corresponde à base da escala social.
2º DEGRAU – A SAGRADA FAMÍLIA: - Nossa Senhora ajoelhada; - Menino Jesus deitado numa manjedoura; - São José ajoelhado.
3º DEGRAU – OS REIS MAGOS: Todos de pé e segurando as respectivas ofertas: Gaspar, representante da raça asiática (de túnica cor de rosa: incenso); Baltasar, representante da raça africana (de túnica vermelhão: mirra) e Belchior, representante da raça europeia (de túnica azul: ouro). O 3º degrau corresponde ao topo da escala social.
No presépio de trono há um eixo de simetria que passa pelas figuras centrais, que têm qualquer coisa que as distingue daquelas que as ladeiam. Assim: - o rei central é negro e os outros dois têm pele clara; - o Menino Jesus tem natureza celeste e Nossa Senhora e São José têm natureza terrena; - o pastor ajoelhado está ladeado de dois pastores em pé.
Analisemos agora a hierarquia, da esquerda para a direita. Numa sociedade patriarcal e conservadora como a da época de Jesus, há supremacia do homem nas relações sociais e a direita é valorizada em relação à esquerda. Por isso: - o rei que oferece ouro está posicionado à direita, enquanto o que oferta incenso está situado à esquerda, visto que o metal é mais valioso que a resina aromática; - São José está ajoelhado à direita do berço e Nossa Senhora está genuflectida à esquerda; - O pastor ofertante que segura o borrego está localizado à direita, ao passo que o pastor ofertante da pomba, está posicionado à esquerda, pois o ovino vale mais que a ave. 



sábado, 28 de março de 2015

Procissão do Senhor dos Passos de Estremoz - 2013


Em Estremoz, a Procissão do Senhor dos Passos, tem lugar no domingo anterior ao Domingo de Ramos ou seja duas semanas antes do Domingo de Páscoa. O trajecto da Procissão passa pelas Capelas dos Passos existentes na cidade, mandadas construir no início do séc. XVIII pela Irmandade do Senhor Jesus dos Passos. Inicialmente eram cinco, tendo desaparecido em 1960, a que estava junto da extinta Igreja de Santo André. As restantes, estão situadas na Rua da Porta da Lage (Bairro de Santiago), na embocadura da Rua Alexandre Herculano com o Largo do Espírito Santo, no alçado exterior direito da Igreja de São Francisco e do lado esquerdo da frontaria do Convento das Maltesas.
A Procissão do Senhor dos Passos, se num ano tem início na Igreja de Santa Maria do Castelo e termina na Igreja do Convento de São Francisco de Assis, no ano seguinte segue o trajecto inverso. Quando sai da Igreja de Santa Maria, o trajecto da Procissão é o seguinte: Largo de D. Dinis, Rua do Arco de Santarém, Rua Direita, Rua da Freirinha, Rua da Porta da Lage, Rua Alexandre Herculano, Largo do Espírito Santo, Rua Magalhães de Lima (antiga Rua das Freiras), Rua Vasco da Gama, Praça Luís de Camões, Largo da República e Rossio Marquês de Pombal (passagem frente à Igreja dos Congregados, seguida de viragem à esquerda e paragem junto ao Paço do Convento das Maltesas, para depois virar à esquerda, em direcção ao Paço da Igreja de São Francisco, onde para, para depois prosseguir em direcção à Igreja do Convento de São Francisco de Assis, no Largo dos Combatentes da Grande Guerra, onde termina.

terça-feira, 24 de março de 2015

Dia Mundial da Poesia

A poetisa Constantina Babau, de Estremoz,  declamando um poema de sua autoria.
(Fotografia de Jorge Pereira)

No passado dia 21 de Março comemorou-se o Dia Mundial da Poesia. Em Estremoz, a celebração da efeméride consistiu na apresentação do livro da poetisa Constantina Babau “Estremoz, eu e a caneta de Deus”. O evento decorreu na Casa de Estremoz e teve o apoio do Município.
Com a sala literalmente cheia, a sessão reuniu na mesa, para além das poetisa e da Vereadora da Cultura, o Cónego Júlio Esteves e o autor destas linhas, tendo os dois últimos, cada um dos quais à sua maneira, falado da obra e da autora.
No livro, a modalidade de poesia dominante é a décima, embora ao sabor da inspiração também brotem quadras, quintilhas e sextilhas, já que Constantina aprendeu as formas seguidas pelo seu pai, o lendário Hermínio Babau, a quem acompanhava no seu confronto poético com outras figuras igualmente lendárias, como Jaime da Manta Branca. É caso para dizer, que “quem sai aos seus não degenera” e “filho de peixe sabe nadar”.
Constantina fala da Família, revelando sentir uma grande saudade da mãe e do pai. Confessa o seu grande Amor a Deus e uma grande devoção pela Rainha Santa Isabel e por Nossa Senhora da Conceição. Verseja também sobre dignitários da Igreja. Relata a sua experiência de escrita, a sua participação na Academia Sénior, na Rádio Despertar, bem como sentimentos íntimos como a saudade e a tristeza e de atitudes como a amizade, a solidariedade e o voluntariado. Fala igualmente de outras terras e de personalidades de âmbito nacional.
Fala de Estremoz e dos seus monumentos, bem como de barro e olaria, de bonecos de Estremoz e de arte pastoril. Evoca também figuras locais que lhe são gratas: José de Alter, Joaquim Vermelho, António Simões, José Sena e José Gonzalez.
Confessa que recebeu de braços abertos o 25 de Abril. Canta o Alentejo, fala da gastronomia alentejana e mostra preocupações ambientalistas.
Constantina é fortemente crítica em relação àquilo que considera injustiças. Fala da fome, da pobreza e da emigração dos jovens na procura de melhores condições de vida. Verseja contra os governantes: Desta seguinte forma/ Eu queria-os convidar /Eu dou-lhes a minha reforma/Dão-me o que estão a ganhar/ Queria vê-los governar/ Como me estou governando/Queria vê-los penando/ Por esse mercado fora/ Eu estaria gozando/ Como eles gozam agora. Como corolário disto tudo, faz uma chamada às armas: À luta vamos meu povo/ Ao chão não vai a toalha/ Em força contra a canalha/ Que ameaça de novo/ Que ninguém seja estorvo/ Para as fileiras integrar/ A hora é de lutar/ Ter fé, sentir confiança/ Não os deixaremos passar/ Às armas, com força e esperança.
Fazendo minhas as palavras de Constantina, apetece-me dizer:
- VAMOS A ELES, CONSTANTINA!

quinta-feira, 19 de março de 2015

Morra o saco de plástico! Morra! Pim!

Rua Vitor Cordon, Estremoz, 1955. Fotografia de Henri Cartier-Bresson.
Ao fundo do lado esquerdo, um camponês carrega dois taleigos.

Desde tempos imemoriais que nas suas deslocações, o Homem teve necessidade de transportar mercadorias e entre elas, alimentos. Para tal, com a sua imaginária inventou sabiamente recipientes que facilitavam o seu transporte e que eram fáceis de manufacturar a partir daquilo que a Terra dá: - cestos de vime ou de cana; - alcofas de esparto, sisal, palha ou ráfia; - alforges de lã ou de couro; - taleigos de linho, lã, algodão ou seda, muitas vezes confeccionados por mãos femininas a partir de retalhos ou primorosamente bordados.
Quando se danificavam e ficavam impedidos de cumprir a sua missão, eram lançados à Terra Mãe que os tinha gerado e cujas entranhas, após degradação, passavam de novo a integrar:  “Todos saem do pó e para o pó voltam (Eclesiastes 3:20).
A utilização de recipientes como cestos, alcofas, alforges e taleigos está profusamente documentada nas iluminuras que ilustram os códices medievais e renascentistas, bem como em quadros pintados nos séculos posteriores.
Em meados do século passado, era vulgar a utilização de qualquer daqueles recipientes. Do mercado trazia-se fruta num cesto e batatas e hortaliça numa alcofa. Havia um taleigo para o pão, outro para os queijos, bem como outro para o feijão ou para o grão. Pagava-se com moedas ou notas que se traziam num taleigo dentro dum bolso. Eu, puto de bibe e de pião, tinha um taleigo para os berlindes e outro para os botões.
Nas mercearias e drogarias, as mercadorias eram embaladas em cartuchos de papel ou embrulhadas nele. O mesmo se passava com os medicamentos nas farmácias. Nas retrosarias, os tecidos, os acessórios ou a roupa confeccionada, eram embrulhados em papel.
Dos locais de compra, as mercadorias eram transportadas em taleigos, cestos ou alcofas, que se levavam de casa. E a vida lá ia decorrendo, em equilíbrio harmónico do Homem com a Terra Mãe. Todavia, sobretudo a partir da Segunda Guerra Mundial, foi assumindo importância crescente a nível mundial, uma matéria-prima conhecida genericamente por plástico, a qual por ganância da indústria química, passou a ser utilizada em tudo e mais alguma coisa, nomeadamente no fabrico de sacos de plástico.
Por influência maléfica do marketing agressivo daquela indústria, os comerciantes avalizam então uma política de utilização dos sacos de plástico, vantajosa para os fabricantes. É veiculada a mensagem errónea de que é chique ir às compras, de mãos a abanar, porque lá nos dão sacos de plástico. Como se o custo dos sacos não estivesse incluído no valor da transacção. Porém, toda a moeda tem duas faces. Foi assim que os cientistas descobriram que na prática, o plástico deve ser considerado como não biodegradável, uma vez que o seu tempo de decomposição, oscila entre os 100 e os 500 anos, dependendo do tipo de plástico. Uma tal estimativa, traduz a dificuldade de o plástico se fundir com a Terra Mãe, a qual irreversivelmente irá poluir, quebrando o ancestral equilíbrio harmónico entre os materiais perecíveis e a Natureza. Foi então que a responsabilidade social dos cientistas, os induziu a advogar a reciclagem do plástico, bem como o abandono do seu uso.
Em nome da sobrevivência, a civilização que inventou o saco de plástico, vê-se forçada a marginalizá-lo e a substitui-lo por produtos amigos do ambiente. É caso para dizer:
- VIVA O TALEIGO! VIVA!
- MORRA O SACO DE PLÁSTICO! MORRA! PIM!


A barrista Liberdade da Conceição (1913-1990), pintando Bonecos de Estremoz
na Exposição do Mundo Português. Do lado esquerdo da cadeira está  pendurado
 um taleigo. Imagem do filme "A Grande Exposição do Mundo Português (1940)",
de António Lopes Ribeiro

quarta-feira, 18 de março de 2015

segunda-feira, 16 de março de 2015

21 - Os Bonecos de Estremoz na Exposição do Mundo Português

A barrista Liberdade da Conceição na Exposição do Mundo Português.

A "Exposição do Mundo Português", foi um evento de grande dimensão e impacto, que se realizou em Lisboa, de 23 de Junho a 2 de Dezembro de 1940. Visava comemorar simultaneamente as datas da Fundação do Estado Português (1140) e da Restauração da Independência (1640). Estava implantada entre a margem direita do rio Tejo e o Mosteiro dos Jerónimos, ocupando cerca de 560 mil metros quadrados.
António Ferro (1895-1956), Secretário-Geral da Comissão Executiva da Exposição, era próximo de José Maria de Sá Lemos (1892-1971), Director da Industrial António Augusto Gonçalves. Por isso, esteve em Estremoz, onde convidou Mariano da Conceição (1903-1959) a participar na Exposição. Este não o pôde fazer presencialmente, dada a sua condição de funcionário público, uma vez que era Mestre de Olaria naquela Escola. Todavia, participou indirectamente, já que os bonecos confeccionados por ele em Estremoz, eram transportados para Lisboa, onde na Exposição eram pintados por sua mulher, Liberdade da Conceição (1913-1990), que ali esteve presente durante todo o período da mesma.  No filme "A Grande Exposição do Mundo Português (1940)", de António Lopes Ribeiro, vê-se aquela barrista, vestida de camponesa, a pintar bonecos de Estremoz. Estes foram na Exposição do Mundo Português, o ex-líbris de excelência da cidade que lhes deu o nome, bem como os melhores embaixadores da nossa Arte Popular e da nossa identidade cultural local e regional. Foram também a prova insofismável de que na nossa terra existiam criadores populares de elevado gabarito. A mensagem transmitiu-se através do feedback de cerca de 3 milhões de visitantes, originários dos mais distintos locais, não só de Norte a Sul do país, como também das Ilhas e mesmo das Sete Partidas do Mundo.
Os bonecos de Estremoz, até então relativamente pouco conhecidos, adquiriram por mérito próprio e muito justamente, grande notoriedade pública. Foram eles que desalojaram a nossa Arte Popular do estatuto comezinho em que se encontrava acantonada e lhe conferiram dimensão humana à escala planetária.
Com a Exposição do Mundo Português houve uma mudança de paradigma na produção de bonecos de Estremoz. Mariano da Conceição resolveu dar uma inflexão à sua actividade. Até ali só manufacturava bonecos na Escola. A partir daí, passa também a executá-los em casa e a comercializá-los em diversos locais de Estremoz. Demonstra assim que a produção de figurado é uma actividade viável, abrindo caminho para aqueles que se lhe seguiram, após a sua morte prematura em 1959.