sábado, 28 de março de 2015

Procissão do Senhor dos Passos de Estremoz - 2013


Em Estremoz, a Procissão do Senhor dos Passos, tem lugar no domingo anterior ao Domingo de Ramos ou seja duas semanas antes do Domingo de Páscoa. O trajecto da Procissão passa pelas Capelas dos Passos existentes na cidade, mandadas construir no início do séc. XVIII pela Irmandade do Senhor Jesus dos Passos. Inicialmente eram cinco, tendo desaparecido em 1960, a que estava junto da extinta Igreja de Santo André. As restantes, estão situadas na Rua da Porta da Lage (Bairro de Santiago), na embocadura da Rua Alexandre Herculano com o Largo do Espírito Santo, no alçado exterior direito da Igreja de São Francisco e do lado esquerdo da frontaria do Convento das Maltesas.
A Procissão do Senhor dos Passos, se num ano tem início na Igreja de Santa Maria do Castelo e termina na Igreja do Convento de São Francisco de Assis, no ano seguinte segue o trajecto inverso. Quando sai da Igreja de Santa Maria, o trajecto da Procissão é o seguinte: Largo de D. Dinis, Rua do Arco de Santarém, Rua Direita, Rua da Freirinha, Rua da Porta da Lage, Rua Alexandre Herculano, Largo do Espírito Santo, Rua Magalhães de Lima (antiga Rua das Freiras), Rua Vasco da Gama, Praça Luís de Camões, Largo da República e Rossio Marquês de Pombal (passagem frente à Igreja dos Congregados, seguida de viragem à esquerda e paragem junto ao Paço do Convento das Maltesas, para depois virar à esquerda, em direcção ao Paço da Igreja de São Francisco, onde para, para depois prosseguir em direcção à Igreja do Convento de São Francisco de Assis, no Largo dos Combatentes da Grande Guerra, onde termina.

terça-feira, 24 de março de 2015

Dia Mundial da Poesia

A poetisa Constantina Babau, de Estremoz,  declamando um poema de sua autoria.
(Fotografia de Jorge Pereira)

No passado dia 21 de Março comemorou-se o Dia Mundial da Poesia. Em Estremoz, a celebração da efeméride consistiu na apresentação do livro da poetisa Constantina Babau “Estremoz, eu e a caneta de Deus”. O evento decorreu na Casa de Estremoz e teve o apoio do Município.
Com a sala literalmente cheia, a sessão reuniu na mesa, para além das poetisa e da Vereadora da Cultura, o Cónego Júlio Esteves e o autor destas linhas, tendo os dois últimos, cada um dos quais à sua maneira, falado da obra e da autora.
No livro, a modalidade de poesia dominante é a décima, embora ao sabor da inspiração também brotem quadras, quintilhas e sextilhas, já que Constantina aprendeu as formas seguidas pelo seu pai, o lendário Hermínio Babau, a quem acompanhava no seu confronto poético com outras figuras igualmente lendárias, como Jaime da Manta Branca. É caso para dizer, que “quem sai aos seus não degenera” e “filho de peixe sabe nadar”.
Constantina fala da Família, revelando sentir uma grande saudade da mãe e do pai. Confessa o seu grande Amor a Deus e uma grande devoção pela Rainha Santa Isabel e por Nossa Senhora da Conceição. Verseja também sobre dignitários da Igreja. Relata a sua experiência de escrita, a sua participação na Academia Sénior, na Rádio Despertar, bem como sentimentos íntimos como a saudade e a tristeza e de atitudes como a amizade, a solidariedade e o voluntariado. Fala igualmente de outras terras e de personalidades de âmbito nacional.
Fala de Estremoz e dos seus monumentos, bem como de barro e olaria, de bonecos de Estremoz e de arte pastoril. Evoca também figuras locais que lhe são gratas: José de Alter, Joaquim Vermelho, António Simões, José Sena e José Gonzalez.
Confessa que recebeu de braços abertos o 25 de Abril. Canta o Alentejo, fala da gastronomia alentejana e mostra preocupações ambientalistas.
Constantina é fortemente crítica em relação àquilo que considera injustiças. Fala da fome, da pobreza e da emigração dos jovens na procura de melhores condições de vida. Verseja contra os governantes: Desta seguinte forma/ Eu queria-os convidar /Eu dou-lhes a minha reforma/Dão-me o que estão a ganhar/ Queria vê-los governar/ Como me estou governando/Queria vê-los penando/ Por esse mercado fora/ Eu estaria gozando/ Como eles gozam agora. Como corolário disto tudo, faz uma chamada às armas: À luta vamos meu povo/ Ao chão não vai a toalha/ Em força contra a canalha/ Que ameaça de novo/ Que ninguém seja estorvo/ Para as fileiras integrar/ A hora é de lutar/ Ter fé, sentir confiança/ Não os deixaremos passar/ Às armas, com força e esperança.
Fazendo minhas as palavras de Constantina, apetece-me dizer:
- VAMOS A ELES, CONSTANTINA!

quinta-feira, 19 de março de 2015

Morra o saco de plástico! Morra! Pim!

Rua Vitor Cordon, Estremoz, 1955. Fotografia de Henri Cartier-Bresson.
Ao fundo do lado esquerdo, um camponês carrega dois taleigos.

Desde tempos imemoriais que nas suas deslocações, o Homem teve necessidade de transportar mercadorias e entre elas, alimentos. Para tal, com a sua imaginária inventou sabiamente recipientes que facilitavam o seu transporte e que eram fáceis de manufacturar a partir daquilo que a Terra dá: - cestos de vime ou de cana; - alcofas de esparto, sisal, palha ou ráfia; - alforges de lã ou de couro; - taleigos de linho, lã, algodão ou seda, muitas vezes confeccionados por mãos femininas a partir de retalhos ou primorosamente bordados.
Quando se danificavam e ficavam impedidos de cumprir a sua missão, eram lançados à Terra Mãe que os tinha gerado e cujas entranhas, após degradação, passavam de novo a integrar:  “Todos saem do pó e para o pó voltam (Eclesiastes 3:20).
A utilização de recipientes como cestos, alcofas, alforges e taleigos está profusamente documentada nas iluminuras que ilustram os códices medievais e renascentistas, bem como em quadros pintados nos séculos posteriores.
Em meados do século passado, era vulgar a utilização de qualquer daqueles recipientes. Do mercado trazia-se fruta num cesto e batatas e hortaliça numa alcofa. Havia um taleigo para o pão, outro para os queijos, bem como outro para o feijão ou para o grão. Pagava-se com moedas ou notas que se traziam num taleigo dentro dum bolso. Eu, puto de bibe e de pião, tinha um taleigo para os berlindes e outro para os botões.
Nas mercearias e drogarias, as mercadorias eram embaladas em cartuchos de papel ou embrulhadas nele. O mesmo se passava com os medicamentos nas farmácias. Nas retrosarias, os tecidos, os acessórios ou a roupa confeccionada, eram embrulhados em papel.
Dos locais de compra, as mercadorias eram transportadas em taleigos, cestos ou alcofas, que se levavam de casa. E a vida lá ia decorrendo, em equilíbrio harmónico do Homem com a Terra Mãe. Todavia, sobretudo a partir da Segunda Guerra Mundial, foi assumindo importância crescente a nível mundial, uma matéria-prima conhecida genericamente por plástico, a qual por ganância da indústria química, passou a ser utilizada em tudo e mais alguma coisa, nomeadamente no fabrico de sacos de plástico.
Por influência maléfica do marketing agressivo daquela indústria, os comerciantes avalizam então uma política de utilização dos sacos de plástico, vantajosa para os fabricantes. É veiculada a mensagem errónea de que é chique ir às compras, de mãos a abanar, porque lá nos dão sacos de plástico. Como se o custo dos sacos não estivesse incluído no valor da transacção. Porém, toda a moeda tem duas faces. Foi assim que os cientistas descobriram que na prática, o plástico deve ser considerado como não biodegradável, uma vez que o seu tempo de decomposição, oscila entre os 100 e os 500 anos, dependendo do tipo de plástico. Uma tal estimativa, traduz a dificuldade de o plástico se fundir com a Terra Mãe, a qual irreversivelmente irá poluir, quebrando o ancestral equilíbrio harmónico entre os materiais perecíveis e a Natureza. Foi então que a responsabilidade social dos cientistas, os induziu a advogar a reciclagem do plástico, bem como o abandono do seu uso.
Em nome da sobrevivência, a civilização que inventou o saco de plástico, vê-se forçada a marginalizá-lo e a substitui-lo por produtos amigos do ambiente. É caso para dizer:
- VIVA O TALEIGO! VIVA!
- MORRA O SACO DE PLÁSTICO! MORRA! PIM!


A barrista Liberdade da Conceição (1913-1990), pintando Bonecos de Estremoz
na Exposição do Mundo Português. Do lado esquerdo da cadeira está  pendurado
 um taleigo. Imagem do filme "A Grande Exposição do Mundo Português (1940)",
de António Lopes Ribeiro

segunda-feira, 16 de março de 2015

21 - Os Bonecos de Estremoz na Exposição do Mundo Português

A barrista Liberdade da Conceição na Exposição do Mundo Português.

A "Exposição do Mundo Português", foi um evento de grande dimensão e impacto, que se realizou em Lisboa, de 23 de Junho a 2 de Dezembro de 1940. Visava comemorar simultaneamente as datas da Fundação do Estado Português (1140) e da Restauração da Independência (1640). Estava implantada entre a margem direita do rio Tejo e o Mosteiro dos Jerónimos, ocupando cerca de 560 mil metros quadrados.
António Ferro (1895-1956), Secretário-Geral da Comissão Executiva da Exposição, era próximo de José Maria de Sá Lemos (1892-1971), Director da Industrial António Augusto Gonçalves. Por isso, esteve em Estremoz, onde convidou Mariano da Conceição (1903-1959) a participar na Exposição. Este não o pôde fazer presencialmente, dada a sua condição de funcionário público, uma vez que era Mestre de Olaria naquela Escola. Todavia, participou indirectamente, já que os bonecos confeccionados por ele em Estremoz, eram transportados para Lisboa, onde na Exposição eram pintados por sua mulher, Liberdade da Conceição (1913-1990), que ali esteve presente durante todo o período da mesma.  No filme "A Grande Exposição do Mundo Português (1940)", de António Lopes Ribeiro, vê-se aquela barrista, vestida de camponesa, a pintar bonecos de Estremoz. Estes foram na Exposição do Mundo Português, o ex-líbris de excelência da cidade que lhes deu o nome, bem como os melhores embaixadores da nossa Arte Popular e da nossa identidade cultural local e regional. Foram também a prova insofismável de que na nossa terra existiam criadores populares de elevado gabarito. A mensagem transmitiu-se através do feedback de cerca de 3 milhões de visitantes, originários dos mais distintos locais, não só de Norte a Sul do país, como também das Ilhas e mesmo das Sete Partidas do Mundo.
Os bonecos de Estremoz, até então relativamente pouco conhecidos, adquiriram por mérito próprio e muito justamente, grande notoriedade pública. Foram eles que desalojaram a nossa Arte Popular do estatuto comezinho em que se encontrava acantonada e lhe conferiram dimensão humana à escala planetária.
Com a Exposição do Mundo Português houve uma mudança de paradigma na produção de bonecos de Estremoz. Mariano da Conceição resolveu dar uma inflexão à sua actividade. Até ali só manufacturava bonecos na Escola. A partir daí, passa também a executá-los em casa e a comercializá-los em diversos locais de Estremoz. Demonstra assim que a produção de figurado é uma actividade viável, abrindo caminho para aqueles que se lhe seguiram, após a sua morte prematura em 1959.

terça-feira, 10 de março de 2015

Fé precisa-se!

O oleiro Mariano da Conceição (1903-1959) a trabalhar na roda,
em Março de 1931.

Os Bonecos de Estremoz
Estremoz é terra de bonequeiras, cuja arte remonta ao século XVII. Apesar de chegar a ter sido dada como extinta, a manufactura de bonecos de Estremoz não se perdeu, fruto da acção de Sá Lemos, director nos anos 30 do século passado, da Escola Industrial António Augusto Gonçalves. Para tal contou com a colaboração de ti Ana das Peles e do oleiro Mariano Augusto da Conceição.
Em boa hora, o Município candidatou a Património Cultural da Humanidade, a “Produção de Figurado em Barro de Estremoz”. Esta está em fase de consulta pública desde o passado dia 25 de Fevereiro e terá a duração de 30 dias. A iniciativa é da Direcção Geral do Património Cultural e visa a sua ulterior inscrição no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial. Trata-se de um marco importante e indispensável à Candidatura dos Bonecos de Estremoz a Património Cultural Imaterial da Humanidade,a qual todos  desejamos seja coroada de êxito.

A Olaria
À semelhança do figurado é igualmente rica e diversificada a produção oleira de Estremoz. Assim o atestam os acervos do Museu Municipal e do Museu Rural de Estremoz: peças com diferentes funcionalidades, geometrias, técnicas de fabrico e de decoração. Algumas delas pela sua nobreza, viram parentes suas ser dignas de figurar à mesa de reis.
A referência mais antiga aos barros de Estremoz remonta ao foral de D. Afonso III, seguindo-se-lhe o foral de D. Manuel I. Daqui para diante as referências histórico - literárias são múltiplas: António Caetano de Sousa, Giovanni Battista Venturini, Francisco de Morais, Inventário de D. Joana (irmã de Filipe II), correspondência de Filipe II, Padre Carvalho, Francisco da Fonseca Henriques, João Baptista de Castro, Duarte Nunes de Leão, D. Francisco Manuel de Melo, Alexandre Brongniart e Carolina Michaëlis de Vasconcelos, entre outros.
Os barros de Estremoz têm sido cantados pelos nossos poetas eruditos: Camões, Gil Vicente, António de Vilas Boas e Sampaio, António Sardinha, Celestino David, Maria de Santa Isabel, Guilhermina Avelar e António Simões. Mas não só os poetas eruditos têm tomado a olaria como tema de composições, o mesmo se passando com os nossos poetas populares.
No decurso do tempo, a olaria de Estremoz tem sido igualmente objecto de estudos etnológicos e etnográficos, dos quais salientamos, os de Leite de Vasconcelos, Virgílio Correia, D. Sebastião Pessanha, Luís Chaves, Azinhal Abelho, Solange Parvaux e Joaquim Vermelho.
Tudo isto não aconteceu por acaso, uma vez que Estremoz já foi um importante centro oleiro do Alto Alentejo. Hoje resta uma única olaria que já não labora, limitando-se a escoar alguma produção que ainda tem em stock.
Correndo o risco de ser acusado de perfilhar o mito sebastianista, direi que Estremoz está à espera que surja um novo Sá Lemos, que faça renascer a olaria local, qual Fénix renascida das cinzas. Até lá, Fé precisa-se.


O oleiro Mariano da Conceição (1903-1959) a desenfornar,
em Março de 1931.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Bonecos de Estremoz em alta

 Primavera.
Oficinas de Estremoz (séc. XIX).
Colecção particular. 

Bonecos de Estremoz: Etnografia e Arte
Este o título do livro a ser lançado hoje, dia 5 de Março, pelas 18 horas, na Sala de Convívio da Sociedade de Geografia de Lisboa, na Rua das Portas de Santo Antão, 100. O livro é da autoria do Mestre José Fernando Reis de Oliveira e a apresentação será feita pelo Professor João Pereira Neto.
Darei mais informação sobre a obra quando tiver um exemplar na minha posse.
Bonecos de Estremoz em selos
O website dos Correios de Portugal informa que o plano de emissões filatélicas de 2015 contempla a emissão “BONECOS DE BARRO TRADICIONAIS”, que inclui um selo cujo motivo é um boneco de Estremoz. Apesar dos esforços desenvolvidos não consegui até ao momento reunir mais elementos sobre o assunto: data da emissão, taxas e motivos dos selos, designer dos mesmos e locais onde serão apostos carimbos de 1º dia. Informarei o leitor quando obtiver resposta a estas questões.
A candidatura a Património Cultural Imaterial da Humanidade.
A “Produção de Figurado em Barro de Estremoz” está em fase de consulta pública desde o passado dia 25 de Fevereiro e terá a duração de 30 dias. A iniciativa é da Direcção Geral do Património Cultural e visa a sua ulterior inscrição no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.
A consulta de todos os elementos constantes do processo de inventariação pode ser efectuada através do website MatrizPCI (http://www.matrizpci.dgpc.pt/ ).
A apresentação de observações poderá ser efectuada através daquele endereço web ou endereçada por correio registado, à Direcção Geral do Património Cultural, Palácio Nacional da Ajuda, 1349-021 Lisboa.
Finda a consulta pública, no prazo de 120 dias aquela entidade decidirá sobre o pedido do Município de Estremoz no sentido de o figurado local ser incluído no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial. Trata-se de um marco importante e indispensável à Candidatura dos Bonecos de Estremoz a Património Cultural Imaterial da Humanidade.


Senhora de pézinhos.
Oficinas de Estremoz (séc. XIX).
Colecção particular.

Pastor a comer.
Oficinas de Estremoz (séc. XIX).
Colecção particular. 

Sargento a cavalo (assobio).
Oficinas de Estremoz (séc. XIX).
Colecção particular.