quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Luvas brancas


Hoje, sem razão aparente ou talvez não, ofereceram-me um par de luvas brancas, o que não deixou de me surpreender por vários motivos. Em primeiro lugar, tenho as mãos limpas e não preciso de esconder a sujidade. Em segundo lugar, porque acho que as minhas mãos não contaminam ninguém. E finalmente, porque as minhas mãos grandes, correspondentes ao quarenta e seis biqueira larga dos meus pés, são a minha forma de comunicar afectos.
Luvas brancas para quê?


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

9 – Santo António no figurado de Estremoz

Santo António (séc. XVIII). 
Oficinas de Estremoz.
Colecção Júlio Reis Pereira.
Museu Municipal de Estremoz.

O culto de Santo foi incentivado em Estremoz pelos religiosos da ordem de S. Francisco de Assis, sediados no Convento de S. Francisco, desde os primórdios da sua construção no século XIII, em data imprecisa, balizada pelos reinados de D. Sancho II – D. Afonso III (1239-1255).
A popularidade do culto antoniano levou o povo a recriar pequenos altares nas suas casas e a ter o Santo exposto em oratórios. A procura de imagens estará na origem do aparecimento da figura de Santo António na barrística popular estremocense. As fontes de inspiração possíveis são: - A imagem seiscentista de Santo António em lenho dourado, do altar homónimo do Convento de São Francisco em Estremoz, situado no lado esquerdo da Capela Maior e referenciada nas Memórias Paroquiais de 1758; - A Imagem seiscentista de Santo António em mármore branco existente no nicho da parte superior das Portas de Santo António, em Estremoz.
No acervo do Museu Municipal de Estremoz existem imagens que vão desde o século XVIII até à actualidade e com dimensões e atributos variáveis. Nessas imagens, Santo António enverga um hábito franciscano cingido à cintura por um cordão e uma capa. Calça sandálias e está assente numa peanha oca que pretende imitar as de talha. Na mão esquerda, o Doutor da Igreja segura um livro no qual está sentado o Menino Jesus. Qualquer das imagens ostenta auréolas. A mão direita do taumaturgo segura um lírio ou um crucifixo, que conjuntamente com o livro e o Menino Jesus, são outros dos atributos deste Santo.
De salientar que nas imagens há elementos amovíveis (auréolas, Menino Jesus, cruz, lírio e até a própria cabeça de Santo António), que eram retirados da imagem e guardados, até o devoto ver o ser desejo satisfeito. Daí que em muitas destas imagens faltem alguns destes elementos. A pressão sobre o Santo a fim de que produzisse milagres, ia ao ponto de alguns porem a sua imagem de castigo, virada para a parede. Em casos extremos, a imagem era posta de cabeça para baixo e até mesmo atada a um cordel e mergulhada num poço. Seria para o Santo refrescar as ideias e fazer o milagre pretendido? Vejam lá o extremo a que podia chegar a religiosidade popular…

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Estremoz - Defesa do Património - 3

A hoje inexistente Igreja de Santo André, situava-se na Rua 5 de Outubro, em
Estremoz. Muito rica e Imponente no seu estilo barroco, foi sede de Paróquia.
A sua construção iniciada em 1705, levou 20 anos, tendo sido inaugurada em
26 de Novembro de 1725. Diz-nos Marques Crespo em “Estremoz e o seu Termo
Regional”, que a Igreja de Santo André, de uma só nave, sete capelas e exterior
majestoso, viu abater com muito estrondo a sua abobada, no dia 8 de Outubro
de 1940, cerca das 22 horas e 30 minutos, não tendo ocorrido felizmente qualquer
desastre pessoal. A partir daí, o culto e a actividade paroquiana passaram a ser
exercidos no vizinho templo do Convento de S. Francisco. Diz-nos ainda Marques
Crespo, que desde logo foram tentadas as reparações necessárias, que foram
sofrendo interrupções, por serem dispendiosas. A demolição da Igreja de Santo
André no ano de 1960, foi sem sombra de dúvida, o maior crime perpetrado
contra o património construído em Estremoz. A demolição foi efectuada às
ordens do regime de Salazar, então no poder e em força, pois ainda não eclodira
a guerra colonial. O arrasamento criminosamente executado visou a construção
no local, do chamado Palácio da Justiça, edifício cinzento e incaracterístico,
símbolo de uma distorcida capacidade empreendedora do Estado Novo, que
não olhava a meios para atingir os seus fins. Este viria a ser inaugurado a 3 de
Abril de 1964 com pompa e circunstância pelo mais alto magistrado da Nação,
modo como se designava então, eufemísticamente, o Presidente da República,
Almirante Américo Tomaz - Foto de C. J. Walowski (1891).

Outra estrutura associativa de defesa do património cultural em Estremoz é:
Associação Filatélica Alentejana
Fundada em 1983 e liderada por Hernâni Matos, vocacionada para as actividades exposicionais, tem desenvolvido entre outras, actividades que se situam na área da Defesa do Património. São de referir as seguintes exposições:
- NO ÂMBITO DA ARTE POPULAR: No princípio foi a Arte Pastoril (2004); Exposição Retrospectiva do Trabalho das Irmãs Simões (2008); Bonecos da Gastronomia (2009 e 2010); Arte Conventual – O Falar das Mão de Guilhermina Maldonado (2010); Alentejo do Passado (2011); António Canoa – Artesão da Ruralidade (2012); António Coelho – Memórias dos Campos (2012); António Moreira – Artes do Fogo (2012); Arte Pastoril – Memórias de um Coleccionador (2012); O Vasilhame de Barro de Estremoz (2012).
- NO DOMÍNIO DA ETNOGRAFIA: Memórias dos Campos de Além-Tejo (2006); O Natal Português (2007); O Traje Popular Português (2007); É Natal (2008); O Traje Popular Alentejano (2010); As Mulheres do Meu País (2011); Comemorações do Cinquentenário do Cortejo do Trabalho de 1963 (2013).
- Na ÁREA DO PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO: Rossio de Outros Tempos (2006); Estremoz vista por Rogério Carvalho (2007); Memórias do Espírito Santo (2009); Igreja de Santo André - História dum Crime (2010); Defesa do Património (2010).
Noutros sectores são de referir:
- NO CAMPO DA POESIA POPULAR foram realizados até ao presente, vinte e um Encontros de Poetas Populares do Concelho de Estremoz, os quais foram convidados a fazer décimas, glosando motes subordinados a temas locais ou regionais.
- NO PLANO DAS CONFERÊNCIAS, foram proferidas até ao presente, as seguintes:
“O Pastor Como Ex-Líbris do Alentejo” (2006), por Hernâni Matos; “A romaria de Santo Amaro de 1729 – Projecto de História ao Vivo”, por Pedro Silva e Francisca de Matos (2007); “Mestre Mariano da Conceição, o Alfacinha” (2013), por Hernâni Matos; “Santo António na Tradição Popular Estremocense” (2013), por Hernâni Matos;
De salientar ainda que na Sala de Exposições da Associação Filatélica Alentejana no Centro Cultural de Estremoz, estão permanentemente patentes ao público as colecções de bonecos de Estremoz “O Traje Popular Português” e “Alentejo do Passado”, bem como uma colecção de “Vasilhame de Barro de Estremoz.
(Continua)


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Figurado de Barro de Estremoz reconhecido como Património Imaterial de Interesse Municipal

Primavera.
Oficinas de Estremoz do séc. XVIII
Colecção Júlio dos Reis Pereira
Museu Municipal de Estremoz

Transcrevo com regozijo e com a devida vénia,
a Notícia do Município de Estremoz, nº 1746,
de 17 de Setembro de 2014.
  
Na reunião de Câmara de hoje, 17 de Setembro de 2014, foi aprovado por unanimidade, o reconhecimento da Produção de Figurado de Barro de Estremoz como Património Imaterial de Interesse Municipal, processo que vai ainda ser submetido à Assembleia Municipal para finalização do processo de classificação.
O Município de Estremoz assume o dever de proteger, valorizar e divulgar o Património Cultural da sua zona geográfica, nomeadamente na área do Imaterial. O Saber-Fazer de uma Figura de Barro de Estremoz (vulgo Boneco de Estremoz), é um património imaterial local de expressão única no mundo que importa valorizar, num primeiro momento, através de um reconhecimento municipal, para que assim os Barristas vejam reconhecido o mérito de continuarem uma tradição, com mais de 300 anos de existência, mas também para que o concelho assuma esta herança cultural como de relevância excepcional para o seu desenvolvimento integral.
Assume-se assim este património imaterial como uma herança multissecular de inestimável valor cultural para o concelho, bem como para os seus cidadãos e que importa transmitir devidamente valorizado, estudado e preservado às novas gerações.
Este é o primeiro passo de um processo, já iniciado pelo Município e que procura chegar ao registo da Produção de Figurado em Barro de Estremoz na Lista Representativa de Património Cultural Imaterial da UNESCO.

domingo, 14 de setembro de 2014

Adagiário da caça

  
 A Família Real Portuguesa em Queluz (1876). Joseph-Fortuné Séraphin Layraud
(1834-1912). Óleo sobre tela (325 x 251 cm). Palácio Nacional da Ajuda, Lisboa.
Da esquerda para a direita, D. Maria Pia (1847-1911), o Infante D. Afonso
(1865-1911),  o Príncipe Real D. Carlos (1863-1908) e o Rei D. Luís I (1838-1889).
  
De acordo com o Génesis, o primeiro livro da Bíblia, Adão e Eva foram expulsos do Jardim do Éden, pelo que por necessidade de sobreviver, Adão terá sido o primeiro caçador. Diz-nos a antropologia que de facto, foi a necessidade de sobreviver que levou o homem primitivo a caçar, isto é, a perseguir outras espécies animais, com a finalidade de os abater e consumir na alimentação.
É abundante o adagiário português referente a caça. O actor principal da caça é o caçador:
- A cabeça é do caçador.
- A caça da ria em Fevereiro caga para o espingardeiro.
- A caça é uma imagem da guerra.
- A caça só sai aos inocentes. 
- A caçar e a comer, não te fies no prazer.
- À porta de caçador, nunca grande monturo.
- Caça, guerra e amores, por um prazer cem dores.
- Caça, guerra e amores, por um prazer muitas dores.
- Caçar e comer, começo quer.
- Cada um caça e coça.
- De má mata, nunca boa caça.
- De uma fraca toca sai um bicho bom.
- Diminui a pólvora em Setembro e faze, em Outubro, o contrário.
- Duma fraca toca nasce um bicho bom.
- Em caça e amores, por um prazer, cem dores.
- Em tempo de caça e de guerra, mentira como terra.
- Enquanto não é tempo de muda, caçai comigo aos perdigotos.
- Enquanto uns batem o mato, os outros apanham a caça.
- Fome de caçador, sede de pescador.
- Guerra, caça e amores, por um prazer, cem dores.
- Guerra, caça e amores, por um prazer, mil dores.
- Ir à caça sem espingarda.
- Ir à guerra, nem caçar, não se deve aconselhar.
- Mal haja o caçador doido, que gasta a vida com um pássaro.
- Mau caçador, bom mentidor.
- Mentiras de caçadores são as maiores.
- Não caça do coração senão o dono do furão.
- Não é regra certa, caçar com besta.
- Nem boa moça na praça, nem homem rico por caça.
- Ninguém caça do coração como o dono do furão.
- No amor e na caça, começa-se quando se quer e acaba-se quando se pode.
- O caçador de lebres tem que ser coxo.
- Para caçador novo, cão velho.
- Para caçar, calar.
- Porfia mata caça.
- Porfia mata veado e não besteiro cansado.
- Prestes tem a mentira, caçador que mal atira.
- Quando se atira o tiro, é que se apanha o coelho.
- Quem caça de coração é o dono do furão.
- Quem caça e acha não é desgraça.
- Quem caça uma arvela, é mais fino que ela.
- Quem caça, vá à praça.
- Quem em caça, guerra e amores se mete, não sairá quando quiser.
- Quem em caça, política, guerra e amores se meter, não sairá quando quiser.
- Quem não acha o que caça, pega no que acha.
- Quem não pega o que caça, pega no que acha.
- Quem porfia, mata caça.
- Quem quer caça diz xó.
- Quem quer caça vai à praça.
- Quem quer caçar, não diz xó.
- Quem quiser caça, vá á praça.
- Quem vai à caça, perde a graça.
- Quem vai caçar, perde o lugar.
- Quem vai em caça, perde o que não acha.
- Quem, à toa, o tiro acerta, não se gabe de mão certa.
- Se caçares, não te gabes; e, se não caçares, não te enfades.
- Se esta cotovia mato, três me faltam para quatro.
- Sede de caçador, e fome de pescador.
- Um sabor tem cada caça, mas o porco cento alcança.
- Uma vez é da caça, outra do caçador.
Na caça, o homem pode ser auxiliado por animais como o cão:
- A galgo velho deita-lhe a lebre e não coelho. 
- Alentejanos, algarvios e cães de caça, é tudo a mesma raça.
- Algarvios, burros brancos e cães de caça, são todos da mesma raça.
- Bom cão de caça, até à morte dá ao rabo.
- Bom rafeiro caça o ano inteiro.
- Cachorro amarrado não caça.
- Cão azeiteiro, nunca bom coelheiro.
- Cão bom caça por instinto.
- Cão de boa raça, até à morte caça.
- Cão de boa raça, se não caça hoje, amanhã caça.
- Cão de caça puxa à raça.
- Cão de caça sai à raça.
- Cão de caça vem de raça.      
- Cão de caça, caça bem.
- Cão de raça, caça.
- Cão que muito ladra, nunca bom para a caça.
- De casta lhe vem ao galgo ter o rabo longo.
- Em Dezembro, a uma lebre galgos cento. 
- Em Janeiro, nem galgo lebreiro, nem açor perdigueiro. 
- Enquanto mija o cão, vai-se o lobo.
- Galgo que muitas lebres levanta, nenhuma mata. 
- Galgo varzino, ou muito velhaco ou muito mofino.
- Galgo, comprá-lo e não creá-Io.
- Metes os cães à mata e arredas-te para fora.
- Metes os cães à moita, arredaste-a fora.
- Mulher e cachorro de caça, escolhe-se pela raça.
- Mulher e cão de caça, procura-os pela raça.
- Mulher, cavalo e cachorro de caça, se escolhe pela raça.
- Não crie cão quem lhe não sobeje pão.
- O bom cão caça por raça.
- O bom cão de caça até à morte dá ao rabo.
- O galgo, à larga, lebre mata.
- O que é de raça, caça.
- Para caçador novo, cão velho.
- Quem não tem cachorro, caça com gato.
- Quem não tem cachorro, caça com gato; quem não tem gato bota pé no mato.
- Quem não tem cachorro, caça com gato; quem não tem penico, caga no mato.
- Quem não tem cão caça com gato.
- Quem quer um bom cão de caça, escolhe a raça.
- Se queres bons cães de caça busca-lhes a raça.
- Se queres cão de caça, procura-o pela raça.
Pode também ser auxiliado por animais como o furão:
- Andar com furão morto à caça.
- Não caça do coração senão o dono do furão.
- Ninguém caça do coração como o dono do furão.
- O dono do furão caça do coração.
- Quem caça de coração é o dono do furão.
- Só caça de coração o dono do furão.
Pode igualmente ser auxiliado por aves de rapina como o falcão, o açor e o gavião, usados na caça de altanaria:
- Do gavião maneiro se faz o çafaro; e do çafaro o maneiro, segundo a têmpora do cetreiro.
- Em Janeiro, nem galgo lebreiro, nem açor perdigueiro. 
- Gavião temporão, Santa Marinha na mão.
- Inda que a garça voe alta, o falcão a mata.
- Nunca bom gavião de francelho, que vem à mão.
- O açor e o falcão, na mão.
- O açor e o falcão, na mão.
Há adágiário específico de determinadas espécies cinegéticas:
Arvela:
- Quem caça uma arvela, é mais fino que ela.
Codorniz:
- Das aves, boa é a perdiz, mas melhor a codorniz.
Coelho:
- A coelho ido, conselho vindo.
- A galgo velho deita-lhe a lebre e não coelho.
- A lebre é de quem a levanta e o coelho de quem o mata. 
- Antes coelho magro no mato que gordo no prato.
- Ao coelho ido, conselho vindo.
- Cada coelho a seu santo.
- Coelho duma cama só, morre depressa.
- Com este cajado mataste já outro coelho.  
- De onde não se espera salta um coelho.
- De uma má moita pode sair um bom coelho.
- Depois de fugir o coelho, todos dão conselho.
- Depois de fugir o coelho, toma o vilão conselho.
- Deste mato não sai coelho.
- Não é mato donde saia coelho.
- O coelho, onde se cria; a lebre, onde amanhece o dia.
- Quando se atira o tiro, é que se apanha o coelho.
Cotovia:
- Se esta cotovia mato, três me faltam para quatro.
Javali:
- Feriste o javali, deixará quem seguia e tomará a ti.
- Não é no seu fojo que se apanham os javalis.
Lebre:
- A galgo velho deita-lhe a lebre e não coelho.
- A lebre é de quem a levanta e o coelho de quem o mata. 
- Às vezes, corre mais o Demo que a lebre. 
- Em Dezembro, a uma lebre galgos cento. 
- Em Janeiro, nem galgo lebreiro, nem açor perdigueiro. 
- Fazer como a lebre: comer e rodar longe do covil.
- Galgo que muitas lebres levanta, nenhuma mata. 
- Levantas a lebre, para que outrem medre. 
- Não levantes lebre, que outrem leve. 
- Não se caçam lebres tocando tambor.
- O caçador de lebres tem que ser coxo.
- O coelho, onde se cria; a lebre, onde amanhece o dia.
- O galgo, à larga, lebre mata.
- Quem caça veado despreza a lebre.
- Se assim corres como bebes, vamos às lebres.
Lobo :
- Quando o lobo vai por seu pé, não come o que quer.
- Se queres apanhar o lobo, prende-lhe a loba.
Narceja:
- Caça à perdiz com o vento pelo nariz e às narcejas pelas costas o vejas.
Pássaro :
- A pássaro dormente, tarde entra o cevo no ventre.
- A pequeno passarinho, pequeno ninho.
- Mal haja o caçador doido, que gasta a vida com um pássaro,
- Quem pássaro há-de tomar, não o há-de enxotar.
Perdiz:
- A perdiz é perdida, se quente não é comida.
- A perdiz, com a mão no nariz.
- Caça à perdiz com o vento pelo nariz e às narcejas pelas costas o vejas.
- Das aves, boa é a perdiz, mas melhor a codorniz.
- Em Janeiro, nem galgo lebreiro, nem açor perdigueiro. 
- Enquanto não é tempo de muda, caçai comigo aos perdigotos.
- Fevereiro couveiro faz a perdiz ao poleiro: Março, três ou quatro: Abril, cheio está o covil: Maio,
Pombo:
- Tenho-te no laço, pombo torcaz.
Rola:
- Bem sabe a rola em que mão pousa.
Veado:
- Nunca vi veado baleado que não fosse grande e gordo.
- Porfia mata veado e não besteiro cansado.
- Quem caça veado despreza a lebre.
- Veado baleado lodo ele é grande e gordo.
- Veado corre muito mas também morre na cama.


sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Palácio Tocha – Quem lhe acode? - 2

 PALÁCIO TOCHA (Traseiras) - Telhas levantadas nos telhados, um dos quais totalmente abatido
e paredes exteriores sem reboco algum e com tijolo a descoberto. Fotografia de Luís Mariano,
Julho de 2014.


Um pombal gigante
Em artigo anterior revelámos preocupação pelo estado de degradação do edifício a partir de imagens da fachada e do interior. Posteriormente viemos a recolher imagens das traseiras da construção, as quais nos deixaram chocados. Não é caso para menos. Vimos telhas levantadas nos telhados, um dos quais totalmente abatido e paredes exteriores sem reboco algum e com tijolo a descoberto. Uma chaminé tem o capelo destruído. Várias janelas e portas estão totalmente desprovidas de madeiramento. O edifício em si, está transformado num gigantesco pombal, pois vêem-se pombos a sair do seu interior, sobretudo da zona do telhado abatido. O jardim que se estende até à Travessa de São Pedro, é um autêntico matagal. No local onde outrora existiu uma fonte, está um buraco onde estão amontoadas manilhas de grés.
Tendo sido classificado como de interesse público, de acordo com a Lei 107/2001, de 8 de Setembro, o edifício devia estar identificado através de sinalética própria (Art. 60.º, nº 2f), o que não acontece. Quem o devia ter feito e não fez?
E nós?
Assiste-nos o direito à fruição dos valores e bens que integram o património (Art. 7.º) e temos igualmente o dever de o defender e conservar, impedindo a sua destruição, deterioração ou perda (Art. 11.º, nº 2). Daí que entendamos por bem, fazer uma análise da situação, recorrendo a uma malha mais fina que a anterior. 
Deveres do proprietário
O proprietário tem o dever de conservar, cuidar e proteger devidamente o edifício, de modo a assegurar a sua integridade e a evitar a sua perda, destruição ou deterioração (Art. 21.º, nº 1b). Deve além disso, observar o regime legal instituído sobre acesso e visita pública, à qual pode, todavia, eximir-se mediante a comprovação da respectiva incompatibilidade, no caso concreto, com direitos, liberdades e garantias pessoais ou outros valores constitucionais (Art. 21.º, nº 2a). Deve também executar os trabalhos ou as obras que o serviço competente, após o devido procedimento, considerar necessários para assegurar a salvaguarda do edifício (Art. 21.º, nº 2d). Deve ainda avisar imediatamente o órgão competente da administração central ou regional, os serviços com competência inspectiva, o presidente da câmara municipal ou a autoridade policial logo que saiba de algum perigo que ameace o edifício ou que possa afectar o seu interesse como bem cultural (Art. 32.º).
Será que o proprietário cumpriu estes deveres? É que a negligência é punível (Art. 107.º).
Deveres da Administração
Logo que a Administração Pública tenha conhecimento de que algum bem classificado, ou em vias de classificação, corra risco de destruição, perda, extravio ou deterioração, deverá o órgão competente da administração central, regional ou municipal determinar as medidas provisórias ou as medidas técnicas de salvaguarda indispensáveis e adequadas, podendo, em caso de impossibilidade própria, qualquer destes órgãos solicitar a intervenção de outro (Art. 33.º, nº1). Se as medidas ordenadas importarem para o detentor a obrigação de praticar determinados actos, deverão ser fixados os termos, os prazos e as condições da sua execução, nomeadamente a prestação de apoio financeiro ou técnico (Art. 33.º, nº2). Além das necessárias medidas políticas e administrativas, fica o Governo obrigado a instituir um fundo destinado a comparticipar nos actos referidos no Art. 33.º, nº2 e a acudir a situações de emergência ou de calamidade pública (Art. 33.º, nº3).
Obras de conservação obrigatória
Os municípios e os proprietários de imóveis classificados devem executar todas as obras ou quaisquer outras intervenções que a administração do património cultural competente considere necessárias para assegurar a sua salvaguarda (Art. 46.º, nº 1).
Os órgãos competentes da administração do património cultural têm de ser previamente informados dos planos, programas, obras e projectos, tanto públicos como privados, que possam implicar risco de destruição ou deterioração de bens culturais, ou que de algum modo os possam desvalorizar (Art. 40.º, nº 1).
Deslocação
É de salientar que nenhum imóvel classificado, poderá ser deslocado ou removido, em parte ou na totalidade, do lugar que lhe compete (Art. 48.º) e estamos a pensar no rico património azulejar do edifício classificado.
Tem a palavra o Município
O Palácio Tocha veio a ser classificado como imóvel de interesse público na sequência de proposta da Câmara Municipal de Estremoz, datada de 4 de Junho de 2000. Importa pois saber o que o Município tem a dizer sobre o assunto.

Hernâni Matos

Câmara preocupada
Entretanto, conforme noticia na sua edição de 11 de Setembro de 2014, o jornal regionalista “Brados do Alentejo”, inquirido sobre a situação do Palácio Tocha, o presidente do Município, Luís Mourinha, disse que está “preocupado com a situação” e acrescentou ter sido “recentemente contactado verbalmente pelos interessados no sentido de o imóvel ser adaptado a hotel, situação a que a câmara não se opõe”.
Aquele jornal termina a nota, dizendo: “Espera-se, pois, que a solução ainda venha a tempo e seja o mais consentânea com a salvaguarda daquele valioso património histórico-cultural da cidade.”

 PALÁCIO TOCHA (Traseiras) - Uma chaminé tem o capelo destruído. Fotografia de Luís Mariano,
Julho de 2014.
  PALÁCIO TOCHA (Traseiras) - Várias janelas e portas estão totalmente desprovidas de madeiramento.
Fotografia de Luís Mariano, Julho de 2014.
  PALÁCIO TOCHA (Traseiras) - O edifício em si, está transformado num gigantesco pombal, pois
vêem-se pombos a sair do seu interior, sobretudo da zona do telhado abatido. Fotografia de
Luís Mariano, Julho de 2014.
   PALÁCIO TOCHA (Traseiras) - O jardim que se estende até à Travessa de São Pedro, é um autêntico matagal. Fotografia de Luís Mariano, Julho de 2014.
   PALÁCIO TOCHA (Traseiras) - No local onde outrora existiu uma fonte, está um buraco onde
estão amontoadas manilhas de grés.Fotografia de Luís Mariano, Julho de 2014.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Estremoz - Defesa do Património - 2

MÁQUINA DEBULHADORA - Rés-do-chão do Museu da Alfaia Agrícola de Estremoz, quando este
se situava na Rua Serpa Pinto e era visitável, o que aconteceu até Abril de 2004, data a partir
da qual e por recomendação de engenheiros da CME, deixou de receber visitas, por motivos
de segurança. Só em 15 de Julho de 2010 e na sequência de um assalto, começou a transferência
do seu recheio, para o local onde está actualmente alojado: um pavilhão junto aos silos da EPAC.

Outras estruturas associativas de defesa do património cultural em Estremoz foram:
Comissão da Alfaia Agrícola
A chamada “Comissão da Alfaia Agrícola”, liderada por Joaquim Vermelho e dependente da CME, entre 1987 e 1996 geriu o Museu da Alfaia Agrícola, então instalado em edifício devoluto da FNPT, na Rua Serpa Pinto, arrendado pela CME e que veio a acolher mais de 4000 peças da faina agro-pastoril, recolhidas pelo campaniço e encarregado de pessoal da CME, Crispim Vicente Serrano. Peças encontradas em lixeiras, em casões devolutos ou abandonadas ao ar livre, peças doadas por 23 agricultores e também peças depositadas por 24 agricultores à guarda da CME e que foram recuperadas na Horta do Quiton.
Associação Etnográfica e Cultural de Estremoz (ETM0Z)
Fundada em 1996 e hoje inactiva, era liderada pelo Eng.º José Mantero Morais e a ela pertenceram também, entre outros, Henrique Reynolds de Sousa, Pedro Borges, Ruy Zagallo Pacheco, Pedro Nunes da Silva, José Varge e Isabel Taborda Nunes de Oliveira. Os seus objectivos incluíam: - Apoiar e incentivar a recolha, conservação, valorização e investigação do Património Cultural e Ambiental das Comunidades da Região; - Promover um centro de actividades de animação cultural, de extensão educativa e de atracção turística; - Fomentar pólos de investigação científica interdisciplinar, estabelecendo protocolos para o efeito; - Incrementar relações com organizações nacionais, estrangeiras e internacionais, que prossigam fins semelhantes. Graças a um protocolo com a CME, a ETMOZ passou a gerir em Janeiro de 1996, o Museu da Alfaia Agrícola (edifício e recheio), situação que se manteve até 2003, ano em que a gestão transitou novamente para a CME, passando aquela unidade museológica a constituir um pólo museológico do Museu Municipal de Estremoz. A ETMOZ editou em 1997 “Colecção da Alfaia Agrícola (Catálogo Descritivo)”, elaborado pelos seus associados Ruy Zagallo Pacheco e Pedro Nunes da Silva.
(Continua)