domingo, 21 de agosto de 2011

O carapuço na barrística popular estremocense (2ª edição)

Fig. 1 - Pastor a fazer as migas, sentado.
Peça da barrística popular estremocense,
da autoria das Irmãs Flores. 
Fig. 2 - Pastor a fazer as migas, deitado. Peça da barrística popular estremocense,
da autoria das Irmãs Flores. 
Fig. 3 - Matança do porco. Peça da barrística popular estremocense,
da autoria das Irmãs Flores.

Esta é a 2ª edição do post O CARAPUÇO NA BARRÍSTICA POPULAR ESTREMOCENSE, editado em 6 de Junho de 2011, agora revisto, reformulado e ampliado, com a introdução de mais uma oitava e uma quadra do cancioneiro popular alentejano, ligadas à temática do carapuço, bem como mais uma referência bibliográfica.

Há três peças do figurado de Estremoz, que representam camponeses de barrete na cabeça. São elas: “Pastor a fazer as migas sentado” (Fig. 1), “Pastor a fazer as migas deitado” (fig. 2) e “Matança do porco” (fig. 3). Algumas pessoas menos informadas, pensam tratar-se de representações abusivas, já que segundo elas, o barrete não seria característico do Alentejo. Estão redondamente enganadas, já que o barrete se usou literalmente em todo o país. Do Norte para o Sul e do Litoral para o Interior. Todavia, as imagens habitualmente veiculadas pelos nossos ranchos folclóricos, associam mais o barrete às zonas piscatórias (Póvoa de Varzim, Aveiro, Nazaré), bem como ao Ribatejo.
Há que esclarecer o assunto duma forma aprofundada e duma vez por todas, o que faremos duma tríplice maneira, com recurso a referências etnográficas, de literatura oral e fotográficas, que passamos de imediato a referir.
No Alentejo, o vestuário do trabalhador do campo, incluía em 1896, em vez do chapéu e principalmente de Inverno, o barrete, também chamado gorro (Tolosa, Barrancos) ou carapuço (Estremoz, Alandroal, Montemor-o-Novo) [2].
O cancioneiro popular alentejano refere o uso do gorro preto:

“Ó rapaz da cinta verde,
Ó rapaz do gorro preto,
Vou cantar uma cantiga,
E vai ser a teu respeito.” [3]

“Ó rapaz do gorro novo,
Ó rapaz do gorro preto,
A respeito do que cantam,
Preciso é falar com jeito.” [3]

“Ó rapaz do gorro preto,
Volta-o de dentro p’ra fora;
Inda estou do mesmo lado,
Inda me não volto agora.” [3]

“Ó rapaz do gorro, gorro.
Ó rapaz do gorro preto,
A respeito de namoro
É preciso muito jeito.” [3]

O mesmo cancioneiro refere igualmente o uso do gorro verde:

“Ó fêra de S. Mateus,
Onde se vendem pinhões,
Anda agora muito em moda
Gorros verdes à Camões.” [3]

“Ó rapaz do gorro verde,
Quem te mandou cá entrar?
Se não cantas ‘ma cantiga,
Já te podes retirar.” [3]

“Eu venho detrás da serra
Com o meu gorro à campina;
Quem é mestre também erra,
Quem erra também se ensina.” [3]

Consta-se [1] que no início do século XIX, havia o costume de as raparigas do campo, oferecerem aos namorados, um gorro de linha azul, por si confeccionado com cinco agulhas, no decurso dos longos serões de Inverno. Terá havido um rapaz, receptor de uma dessas prendas, que denunciou o acabamento da mesma, de acordo com a oitava:

“Tenho vergonha de pôr
Esta obra na cabeça!
Oh! Vê lá, não te aconteça
Eu perder-te o amor…!
Busca outro superior,
Outro que tenha mais geito,
Que eu sempre te quer’dizer
- Que o gorro não está bem feito!” [1]

Provavelmente haveria rapazes que usavam gorro azul, sem este lhe ter sido oferecido pela namorada. Daí que alguma rapariga interessada no “enganador”, lhe pudesse dizer por gracejo:

“Ó rapaz do gorro azul,
Está-te bem, porque és trigueiro,
Diz-me quanto te custou,
Quero-te dar o dinheiro.” [3]

O uso do gorro preto ou vermelho, está, de resto, referenciado como tradição popular nesta região. [4]
A nível fotográfico, o uso do barrete no Alentejo, está documento por bilhetes-postais ilustrados referentes a actividades agro-pastoris: lavra e sementeira (Fig. 4), apanha da azeitona (Fig. 5) e maioral e ajuda, figuras da pastorícia alentejana (Fig. 6).
Julgamos que com estas considerações tenha ficado demonstrado duma forma insofismável, o uso do barrete no Alentejo, o que legitima as representações da barrística popular estremocense que o utilizam.
Barristas como Mariano da Conceição, Liberdade da Conceição, Sabina Santos, Maria Luísa da Conceição, Quirina Marmelo, Irmãs Flores e Fátima Estróia, cobriram a cabeça destas figuras com o tradicional barrete. Já José Moreira, substituiu nas mesmas figuras, a partir de uma certa altura, o barrete pelo tradicional chapéu aguadeiro, conforme ilustramos com a “Matança do porco" (Fig. 7), de sua autoria.

BIBLIOGRAFIA
[1] – DIAS NUNES, M. “Miscelânea Tradicionalista” in “A Tradição”, Ano IV-Nº 1, Volume IV. Serpa, Janeiro de 1902.
[2] – LEITE DE VASCONCELLOS, J. Etnografia Portuguesa, Vol. VI. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Lisboa, 1975.
[3] - THOMAZ PIRES, A. Cantos Populares Portuguezes. Vol. IV. Typographia e Stereotipía Progresso. Elvas, 1912.
[4] - THOMAZ PIRES, A. Tradições Populares Transtaganas. Tipographia Moderna. Elvas, 1927.
 fig. 4 - A lavra e a sementeira no Alentejo, no início do século XX.
Postal edição Malva (Lisboa). 
Fig. 5 - A apanha da azeitona no Alentejo, no início do século XX.
Postal edição Tabacaria Gonçalves (Lisboa).
Fig. 6 - Maioral e ajuda, figuras da pastorícia alentejana,
no início do séc. XX. Postal edição Malva (Lisboa).
Fig. 7 - Matança do porco. Peça da barrística popular estremocense,
da autoria de José Moreira.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A origem das alheiras

                              

À  Manuela Mendes:                      

Por diligência de D. João III junto da cúria romana, o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição, foi imposto em Portugal pela bula "Cum ad nihil mugis", de 23 de Maio de 1536 e só seria extinto em 1821.
A Inquisição foi singularmente activa em Lisboa, Coimbra e Évora, com poder religioso, político, social e cultural, que institucionalizou o espírito de intolerância, particularmente anti-judaico e organizou um autêntico genocídio cultural através da censura literária.
Quando o pesado braço da Inquisição iniciou a perseguição aos judeus portugueses, estes viram-se na necessidade de se converter ao cristianismo, adoptando os seus costumes, pelo menos na aparência.
Como a tradição judaica, recusava o consumo da carne de porco, em virtude de esta ser considerada "impura", os nossos judeus viram-se na contingência de inventar a alheira, enchido no qual a carne de porco era substituída por uma extensa gama de carnes, que incluía galinha, peru, pato, perdiz, coelho, vitela, perdiz, os quais eram envolvidos por uma massa de pão, que lhes conferia consistência.
A alheira é, hoje, um dos mais afamados ex-libris transmontanos. Lá diz o rifão: "A necessidade é mestra de engenho". Na verdade, as disposições regimentais do Tribunal do Santo Ofício, em contraposição com as leis e garantias do direito civil, permitiam o secretismo das testemunhas de acusação, a inviabilização da defesa do réu, a viciação do sistema de provas admissíveis e a validade da tortura, muitas vezes pelo fogo, na ratificação das confissões, ainda que estas fossem posteriormente desmentidas. Muitas vezes, as sentenças acarretavam a confiscação de bens e a morte pelo fogo.
Foi nesse contexto repressivo, que os nossos “marranos”, temerosos de perderem os bens e a vida, criaram a saborosa alheira. É caso para dizer:
- "Bem hajam, por isso!"
- "Honra e glória à criatividade da comunidade judaica portuguesa!"

BIBLIOGRAFIA
- DIVERSOS. Dicionário ilustrado da História de Portugal. Publicações Alfa, Lisboa, 1985.
- DIVERSOS. História da Arte em Portugal. Publicações Alfa, Lisboa, 1986.
- DIVERSOS. Marcos da Arte Portuguesa. Publicações Alfa, Lisboa, 1986
- SARAIVA, José Hermano. Imagens da História de Portugal. Publicações Alfa, Lisboa, s/d.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A menina quer bailar?

Esta é a 2ª edição do post A MENINA QUER DANÇAR?, editado em 20 de Fevereiro de 2010, agora revisto, reformulado e ampliado, com a introdução de mais vinte quadras do cancioneiro popular alentejano, ligadas à temática do baile popular, assim como três provérbios desse tema e mais duas referências bibliográficas. Quanto ao título, ele próprio foi reformulado.

Nos bailes populares alentejanos dos finais do séc. XIX – princípios do séc. XX, era sacramental a pergunta endereçada pelo rapaz, à moça que lhe enchera as medidas:
- A menina quer bailar?
A resposta, podia assumir a forma dum rotundo “Não!”, tradicionalmente conhecido por “cabaço”. Mas a resposta podia igualmente revestir a forma dum rasgado sorriso, acompanhado dum entregar de corpo, às mãos e braços do varão inquiridor, que conduziria a moça durante o baile.
Eles bailavam de chapeirão, de bota cardada e calças com boca-de-sino. Elas, de saia a rasar o chão, o que levava alguns rapazes a confessar que:

"Toda a vida me agradou
Moça de saia rasteira,
Porque pranta o pé no chão
Devagar, não faz poeira." [3]

Todavia, os rapazes não gostavam que as moças dançassem de socos:

“Os sóccos para dançar
Fazem mui ruim effêto,
Ainda que as damas usem
Ricas jóias em sê pêto. ” [3]

No descanso, dava para eles enrolarem um paivante e tirar umas quantas fumaças, que isso de ser homem dá para fumar. E é sempre bom levar o varapau, que o diabo às vezes assume a forma de maltês. Também dava para elas comporem as saias à cinta, aperaltar os colares e compor os carrapitos.
Como vêem existia uma grande diferença de género.
Eu tenho uma certa pena das moças, porque os aprestos dos homens deviam ser algo incómodos, a menos que eles fossem ágeis e cuidadosos. De contrário, dançar de botifarras, devia dar para pregar cada pisadela que fervia. Uma botas alentejanas que se prezem, não são propriamente uns sapatos à Fred Astaire.
Também o chapeirão devia ser uma grande chatice, a menos que a moça fosse mais baixa.
Se a moça fosse mais alta, o chapeirão batia-lhe no peito e mantinha as distâncias, o que convenhamos era um grandessíssimo inconveniente para o homem.
Se a moça fosse da mesma altura, o chapeirão devia estar sempre a embirrar com a cabeça dela, a menos que dançassem de cabecinha ao lado, correndo o risco de dar um jeito ao pescoço. E o dinheiro que sobrara da romaria já não dava para ir ao endireita.
Um dos locais mais afamados para bailar no Alentejo, era o terreiro das Festas de S. Mateus, em Elvas:

“Eu também já fui à festa
e fiz promessas a deus
de cá voltar outra vez
a dançar no São Mateus.” [2]

Os bailes populares eram abrilhantados por tocadores de viola ou de acordeão, que eram também cantadores.
O bailar chegava a ser apontado como recomendação divina:

“Deus do céu mandou à terra
Um aviso à mocidade,
Que cantassem e bailassem,
Divertissem-se à vontade.” [1] (Amareleja)

A maioria dos rapazes gostava de bailar e versejar:

“Canto saias, bailo saias,
Eu saias ando bailando,
Gosto de bailar as saias
Com quem as andas trajando.” [3]

Alguns indicavam minuciosamente, as características a que devia obedecer o baile:

“O bailar quer-se mexido,
Puladinho e bem cantado,
Quer-se alegre e chegadinho
Ao par que levo ao meu lado.” [1] (Beja)

Bailar bem, era uma virtude a que os rapazes aspiravam:

“Quatro coisas ha no mundo
Que eu desejava apprender:
Cantar bem, tocar viola,
Báilhar bem e saber ler.” [3]

Algumas das moças seriam vaidosas. Pelo menos, era essa a opinião de alguns dos rapazes:

“Estas meninas d’gora
São bonitas, bailam bem;
Mas em tendo um fato novo,
Já não falam a ninguém.” [3]

Algumas moças recusar-se-iam mesmo a bailar:

“Menina que é cabaceira,
Tantos cabaços tem dado,
Veja lá se tem algum
Também para mim guardado.” [3]

Por vezes, a rapariga não sabia dançar:

“Oh! Que pernas, oh! que boca,
Henriqueta, vossê tem!
P´ra que quer vossê as pernas,
Se vossê não dança bem?” [3]

Havia rapazes que sabendo cantar e bailar, não percebiam porque é que as raparigas não gostavam deles:

“Tu dizes que não me queres,
Meu amor diz-me porquê,
Eu sei cantar e bailar,
E rir e falar tambem.” [3]

Havia rapazes que lamentavam não saber cantar tão bem, quanto sabiam versejar:

“S’eu soubesse cantar bem,
Como sei fazer cantigas,
Andava de bàlho em bàlho
Divertindo as raparigas.” [1] (Aljustrel)

Quando faltavam raparigas no baile, havia rapazes que procuravam desfazer os pares, originando frequentes zaragatas:

“Camarada, dá licença,
Um bocadinho, faz favor?
Quero dar palavra e meia
Ó seu par, que é meu amor.” [3]

Alguns rapazes faziam do cantar e tocar nos bailes, o seu ganha-pão:

“A cantar e a bailar
É que o meu bem ganha pão,
De viola a tiracolle
E panderêta na mão.” [3]

Havia quem exteriorizasse a sua liberdade de poder cantar e bailar:

“Inda canto, inda bailo.
Inda cá não ha tristeza,
Inda cá não ha quem tenha
Minha liberdade presa.” [3]

Havia mulheres que desejavam ficar sem o marido, a fim de poderem cantar e bailar, tal como em solteiras:

“Já não canto, já não bailo,
Que não quer o meu marido,
Deixem-no ir embora,
Restaurarei o perdido.” [3]

Havia quem, talvez por despeito de não ter par, considerasse que quem estava a bailar, não tinha dinheiro:

“Dos pares que andam bailando
Ali no meio do terreiro,
Não se me dá de apostar:
Nenhum d’elles tem dinheiro.” [3]

Havia quem, por estar triste, desejasse que os pares a bailar, caíssem, a fim de se divertir:

“Os pares que andam bailando,
Quem m’os dera ver cair!
Tenho o meu coração triste,
Q’ria fartar-me de rir.” [3]

Os rapazes reconheciam que, bailar de empreitada, dava cabo deles:

“Não é o cantar que dá
Cabo da rapaziada;
É o muito andar de noite
E o bàlhar de empreitada.” [1] (Odemira)

Enquanto houvesse cantadores, havia baile:

“Eu vejo o baile acabado
À falta de cantadores:
Agora começo eu,
Com licença, meus senhores.” [3]

Uma coisa é certa: nem todos os homens gostavam de bailar:

“Para bailar doe-me um dente,
Para cantar uma perna,
Onde tenho algum alívio
É à porta da taberna.” [3]

Alguns homens, por questões anatómicas, dançariam mesmo mal. Lá diz o rifão: "Barrigudo não dança, só sacode a pança". Todavia, também por questões anatómicas, ainda hoje persiste a crença de que: “Homem pequenino, ou velhaco ou dançarino”. De resto, o rifão “Assim como cantares, assim dançarás", talvez possa significar que “Se tiveres voz de cana rachada, então terás, decerto, pé de chumbo”.
Era este o contexto sociológico e lúdico dos bailes populares, nas feiras, festas e romarias do Alentejo, de finais do séc. XIX – inícios do séc. XX.

BIBLIOGRAFIA
[1] – DELGADO, Manuel Joaquim Delgado. Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo. Vol. I. Instituto Nacional de Investigação Científica. Lisboa, 1980.
[2] - SANTOS, Victor. Cancioneiro Alentejano. Livraria Portugal. Lisboa, 1959.
[3] - THOMAZ PIRES, António. Cantos Populares Portugueses. Vol. IV. Typographia e Stereotypia Progresso. Elvas, 1910.























































































sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Cancioneiro popular da água


Camponesa do Redondo. Bilhete-postal ilustrado, edição do Museu de Ovar, reproduzindo aguarela de Alfredo Moraes (1872- 1971).

PREÂMBULO

A importância da água é incomensurável, já que é utilizada como simples bebida ou com fins medicinais, na preparação e confecção de alimentos, no banho, na lavagem de roupa e de loiça, na rega, etc. Daí que seja natural que no cancioneiro popular alentejano, existam múltiplos registos que referem a água. Seleccionámos, sistematizámos e estudámos algumas dessas referências, fruto da nossa pesquisa em quatro fontes bibliográficas distintas, cujos autores, cada um na sua época, as recolheu da tradição oral. Sistematizámo-las em quatro grupos distintos:

1 – Mitologia no Cancioneiro Popular
2 – A obtenção da água
3 – O vasilhame de água
4 – Matar a sede

Passemos, de seguida, em revista, estes grupos:

MITOLOGIA NO CANCIONEIRO POPULAR

Faz parte da Mitologia Popular Portuguesa, a crença de que no princípio do mundo, a água foi condenada a correr sempre [2]. Daí que o cancioneiro popular alentejano constate que a água corra sempre, naturalmente, para baixo:

“A agua p’ra baixo corre,
P’ra cima não faz corrente;
Meu amor, se estás zangado,
Eu também não ‘stou contente.” [3]

Por isso e em contrapartida, para cima, a água só segue forçada:

“Água de ladeira acima,
Sem a levarem não vai.
Se queres qu´ê seje tua,
Vai-me pedir ò mé pai.” [1] (Vale de Santiago – Odemira)

A chuva faz correr água nos barranquinhos e revitaliza a natureza:

“Graça a Deus que já chove,
Já correm nos barranquinhos,
Já os campos ‘stão alegres,
Já cantam nos passarinhos.” [1] (Beja)

A água que corre na ribeira tem peixes:

“O barranco leva água.
Há peixinhos na ribeira.
Nesse teu peito amoroso,
Amizade verdadeira.” [1] (Montes Velhos - Aljustrel)

É frequente, o desejo de que a água fique retida:

“Agua, sustem-te nos valles,
Não sejas tão corredia;
Ja não há amor’s leaes,
Como n’outro tempo havia.” [3]

Integra igualmente a Mitologia Popular Portuguesa, a crença de que, no princípio do mundo, a água também tinha fala [2] e comunicava com quem junto a ela manifestava as suas emoções:

“Puz-me a chorar saudades
A’beira d’agua que corre,
A agua me respondeu:
Quem tem canceiras não dorme.” [3]

A própria água podia falar até dos seus progenitores:

“A minha mãe é ribeira,
O meu pae é rio corrente,
Sou filha das aguas claras,
Não tenho nenhum parente.” [3]

Pertence também ao domínio da Mitologia popular portuguesa, a convicção de que a água dorme todas as noites [2].

“Dormes ao pé da ribeira,
Hás-de-me saber dizer
Quantas horas dorme a água
Antes da manhã romper.” [1] (Mértola)

Daí que também alguém responda:

“Contas horas drome a água,
Isso nã’ le sê dezer:
Qu’é drumo à bêra do rio,
Toda a noite oiço correr.” [1] (Odemira)

Daí que alguém pergunte:

“Menina, que sabe tanto,
Há-de-me saber dizer:
Contas horas drome a água
Entes da manhã romper?” [1] (Mértola)

A OBTENÇÃO DA ÁGUA

É considerado uma ventura, morar próximo de água:

“É um regalo na vida,
Ao pé da água morar,
Quem tem sêde vai beber,
Quem tem calor vai nadar.” [3]

Por vezes, bebia-se água do pego:

“Tinha sêde e fui beber
Lá no pêgo de Vianna;
Val’ mais uma hora d’amor,
Que o ganho d’uma semana.” [3]

Bebia-se muita água do poço, o qual era um local de encontros amorosos:

“Quanto mais fundo é o pôço,
Mais fresca n’el’ são as aguas
Quanto mais falo contigo,
Mais gosto das t’as palavras.” [3]

Alguns conseguiam escapar às tentações de amor junto ao poço:

“Adeus, poço do terraço,
Onde eu mato a minha sede,
Armaram-me lá um laço
Mas eu não cahi na rede.” [3]

O poço podia ser um local de infidelidade amorosa:

“Vi-te ao poço mai-la outra,
enquanto eu ceifava o trigo;
ai quem pudesse ceifar
a dor que trago comigo.” [4]

Havia quem admitisse por saudade, arrojar-se ao poço:

“Hei-de-me deitar ao poço,
Fazer de mim caldeirão.
As saudades são tantas,
Que elas por mim puxarão.” [1] (Beja)

Havia poços que tinham um engenho para tirar água, a nora:

“Como alcatruzes de nora
São as vaidades do mundo,
Os que enchem vão a cima,
Os que vasam vão ao fundo.”  [3]

As fontes à beira dos caminhos sempre foram muito apreciadas pelos viajantes:

“Benditas sejam as fontes
À beirinha dos caminhos,
Onde vão matar a sede
Os alegres passarinhos.” [1] (Amareleja)

Poder beber água de todas as fontes era motivo de inveja:

“Nã’ m’enleva de quem tem
Carros, parelhas e “montes”;
Só m’enleva de quem bebe
Água de todas as fontes.” [1] (Beja)

Nenhuma fonte se podia menosprezar:

“Ninguém diga eu não hei-de
Desta fonte água beber;
Pode a sede apertar muito,
E outro remédio não ter.” [1] (Vale de Santiago – Odemira)

A fonte era um local de encontro, onde se bebia sem ter sede:

“Fui à fonte beber agua,
Por baixo da canna verde,
E só p’ra vêr os teus olhos
Bebi agua sem ter sede.” [3]

“Fui beber a uma fonte
Debaixo da fresca murta,
Fui só para ver os teus olhos,
Que a sede não era muita.” [1] (Mina da Juliana – Aljustrel)

A fonte era, algumas vezes, um local de encontros imprevistos:

“Fui à fonte beber agua,
Julgando que não te via.
Mas fiquei tão distrahida,
Que nem a água bebia.” [3]

A fonte era ainda um local de namoro:

“Andam na eira os rapazes
O seu trigo a debulhar,
E à noite vão para a fonte,
As moças a namorar.” [3]

A fonte era também um local de brincadeiras:

“Menina, se for á fonte,
Não brinque lá com ninguém,
‘Stá a louça muito cara
Cada cântaro um vintem.” [3]

O caminho da fonte era um caminho muito percorrido:

“Adeus praça, adeus castelo,
Adeus caminho da fonte:
Por causa das raparigas
Muito calçado se rompe.” [2] (Alandroal)

Na fonte achavam-se, por vezes, objectos perdidos:

“Fui à fonte beber água,
Achi um lencinho verde.
Quem no perdeu, tinha amores,
Quem no achou, tinha sede.” [1] (Beja)

Os desentendimentos amorosos, levavam a mudar de fonte:

“Algum dia em tendo sede,
Ia beber ao teu “monte”;
Agora estou mal contigo,
Vou beber a outra fonte.” [1] (Beja)

A água muitas vezes corria da fonte para um chafariz e daqui para um lavadouro:

“Deixa lá falar, quem fala,
Deixa lá dizer quem diz,
Deixa lá correr as aguas,
Da fonte p’r’o chafariz.” [3]

Por vezes também se consumia água da chuva, guardada em cisternas:

“O regalo do soldado
É ter a cama no chão,
Beber agua da cisterna,
Comer pão de munição.” [3]

A água é um bem finito, que deve ser conservado:

“Quem quer boêr não turva a água,
Quelara a quer conservar,
Que assim faz o homem serio
Quando pretende casar.” [3]

O VASILHAME DA ÁGUA

As bilhas de barro eram conhecidas por tornar a água mais saborosa:

“Aquela bilha de barro
comprada em Vla Viçosa
p’ra matar sede de amor,
faz a água mais gostosa.” [4]

As bilhas tinham como único inconveniente, o serem frágeis:

“Caiu-me a bilha no monte.
lá deixou ficar a asa…
Culpa tem quem fez a fonte
tão longe da minha casa.” [4]

Dava-se água pelo púcaro, o que não era privilégio de todos:

“Senhora, que a todos daes
Agua por púcaro novo,
Só a mim é que deixaes
Desconsolado de todo.” [3]

Havia quem implorasse água do púcaro:

“M’nina que estás à janella,
Co’ pucarinho na mão,
Dá-lhe volta, se tem agua
Réga-me este coração.” [3]

Em casa, além do púcaro, usava-se também o copo:

“Em cima daquela mesa
Está um copo d’água fria
Onde se baptizou a Cristo,
Filho da Virgem Maria.” [1] (Amareleja)

MATAR A SEDE

A sede leva a pedir água:

“Dá-me uma pinguinha d’agua,
Que eu bem na sinto correr,
Onde há silvas e montrastos
Alguma pinga ha de haver.” [3]

“Dá-me uma pinguinha d’agua
Pela tua propria mão,
Que das terras d’onde eu venho
Nem as fontes agua dão.” [3]

Todavia, o pedido pode ser recusado:

“Passei pela tua porta,
Pedi-te agua, não m’a deste;
Nem os moiros na moirama
Fazem, o que tu fizeste.” [3]

“Eu pedi uma pinga d’agua
Á ingrata d’uma prima,
Vinha com ella da fonte,
E disse-me que a não tinha.” [3]

As recordações podem fazer esquecer a sede:

“De tanta sede que tinha
Nenhuma água bebi.
Quando ia para beber
Tive lembranças de ti.” [1] (Beja)

Ver as bicas da fonte, não mata a sede:

“D’aqui onde estou bem vejo
Correr as bicas da fonte;
Ai de mim! que morro à sêde,
Tendo o remedio defronte.” [3]

Os bêbados têm sede, mas de vinho:

“Ó meu amor, vinho, vinho,
Agua não posso beber,
A agua tem sanguessugas,
Tenho medo de morrer.” [3]

Além de matar a sede, a água permite aclarar a voz:

“Dá-me uma gotinha de água
Para lavar a garganta;
Quero cantar como a rola,
Como a rola ninguém canta.” [1] (Beja)

O despeito de amor, pode levar alguém a rogar pragas, nas quais intervém a água:

“Meu amor abandonou-me
Não sei qual fosse a razão,
Ao beber lhe falte a água,
Ao comer lhe falte o pão.” [3]

BIBLIOGRAFIA

[1] – DELGADO, Manuel Joaquim Delgado. Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo. Vol. I. Instituto Nacional de Investigação Científica. Lisboa, 1980.
[2] - LEITE DE VASCONCELLOS, José. Etnografia Portuguesa, Vol. V. Imprensa Nacional – Casas da Moeda. Lisboa, 1982.
[3] - PIRES, A. Tomaz. Cantos Populares Portuguezes. Vol. I. Typographia Progresso. Elvas, 1902.
[4] - SANTOS, Victor. Cancioneiro Alentejano. Livraria Portugal. Lisboa, 1959.

Hernâni Matos

sábado, 6 de agosto de 2011

Sexta-Feira Santa e rock and roll

Elvis Presley (1935-1973)

Há cinquenta anos atrás, estávamos em 1961. Os rapazes da minha geração tinham quinze anos e estavam quase a ir “tirar as sortes”. Eram nuvens negras no horizonte de cada um, pois em Fevereiro desse ano começara a Guerra em Angola.
A sociedade era bastante conservadora. Vivíamos num regime de partido único e não era permitida a expressão pública de opiniões contra o regime e contra a guerra. A censura e a polícia política controlavam toda a comunicação social, pelo que não nos era dado ouvir ou ver, nada que pusesse em causa o regime ou aquilo que era considerado por eles, os bons costumes.
Ainda não acontecera o Maio de 68 e ainda não déramos pelos Beatles. Não usávamos cabelos compridos, nem barbas crescidas. Tínhamos um ar normal na época. Vestíamos de maneira convencional, conforme as posses de cada um. Alguns já fumavam um cigarrito à escondida dos pais. Íamos ao futebol, ao hóquei e ao cinema. Elvis Presley era o nosso ídolo no celulóide, sempre divertido, a cantar e a tocar guitarra, rodeado de miúdas giras. Como nós o
invejávamos. Alguns de nós, imitavam-no, penteando o cabelo para trás, com brilhantina e a competente popa.
A América era para muitos de nós um sonho de liberdade, já que para bebermos coca-cola, tínhamos que ir a Espanha. Não havia discotecas por aqui e nos bailes as mães ficavam sentadas atrás das filhas. E os filmes do Elvis que nos continuavam a dar a volta à cabeça… Tinha que haver uma saída… E ela aconteceu precisamente numa Sexta-Feira Santa, dia de enterro do Senhor. Um de nós descobrira a pólvora sem fumo:
- Eh rapaziada, os meus pais foram de viagem e eu estou sozinho em casa. Que tal convidarmos umas miúdas para fazer lá uma matiné.
- Eh pá! Bestial! Vamos a isso!
Lá convidámos umas miúdas e dançámos ao som do Elvis, debitado pelo gira-discos do nosso anfitrião. Até foram irmãos e irmãs, tendo decorrido tudo dentro da maior compostura. E ao som do Elvis, lá descarregámos as tensões acumuladas dentro de nós, pela sociedade que nos oprimia. O pior estava para vir. As miúdas apanharam um raspanete de todo o tamanho lá em casa. E pela cidade de Estremoz, correu célere a notícia:
- Vejam lá estes hereges. Com o Senhor morto e o corpo a pedir folia!
- Excomungados é que precisavam!
- Onde é que já se viu, Sexta-Feira Santa e rock and roll?
Cinquenta anos decorridos, reconheço que foi positivo ninguém ter sido excomungado, já que muitos eram católicos praticantes e desse credo nunca se afastaram. Nem mesmo com Sexta-Feira-Santa e rock and roll…

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Novamente o "Barbeiro sangrador"

Barbeiro sangrador, peça da barrística popular estremocense da autoria das afamadas barristas Irmãs Flores. Inspirada na imaginária popular do séc. XVIII, é uma representação ingénua do acto de sangrar.(Imagem recolhida no blogue do extinto Museu do Artesanato, Évora).


DATAÇÃO E ORIGEM
Em Junho - Julho de 1962, esteve patente ao público no palácio de D. Manuel I, em Évora, a importante exposição “BARRISTAS DO ALENTEJO”, organizada pelo Grupo Pró-Évora e que contou com o alto patrocínio da Fundação Calouste Gulbenkian. Para o prestigiado evento foi editado um catálogo de 72 páginas e 40 ilustrações a preto e branco.
Nessa interessante publicação [5] com prefácio de José Régio e Júlio dos Reis Pereira, é feito o inventário de 362 lotes de peças do figurado alentejano, pertencentes a colecções particulares de Estremoz, Azaruja, Évora e Portalegre, bem como a colecções institucionais de Estremoz, Elvas, Vila Viçosa e Redondo.
No conjunto das peças expostas havia uma vasta representação de figurado de Estremoz, pertencente a diferentes épocas. Uma delas com a tipologia da descrita por nós em post anterior, como “barbeiro sangrador”, era pertença do médico João do Couto Jardim, de Vila Viçosa. Tinha 22 cm de altura e 13 cm de largura. Foi identificada como “operação cirúrgica” e reconhecida como peça do séc. XVIII. Independentemente da designação que lhe foi atribuída e da qual discordamos, ficámos a saber que o modelo que ainda hoje é fabricado pelos nossos barristas, remonta ao séc. XVIII.
Por sua vez, Solange Parvaux [2], investigadora francesa que realizou trabalho de campo sobre cerâmica alentejana em Agosto de 1959, 1960 e 1961, chama “cirurgião" àquela peça. 
Joaquim Vermelho [6], Director do Museu Municipal de Estremoz já falecido, chama-lhe também “cirurgião”, referindo tratar-se de uma “paródia ao barbeiro numa operação de sangria”. Posteriormente, Joaquim Vermelho [7], evoluiu para a designação “barbeiro cirurgião”, que creio ser mais aceitável. Todavia, prefiro a designação de “barbeiro sangrador”, pois como referi em post anterior, segundo Manoel Leitam (1), cirurgião do Hospital Real de Todos os Santos, em Lisboa, a médicos e cirurgiões competia a prescrição das sangrias e a barbeiros sangradores e Barbeiros cirurgiões, a sua execução. Deste modo a execução duma sangria apenas legitima a meu ver, a atribuição da designação de “barbeiro sangrador”, uma vez que não está a executar qualquer cirurgia.

AINDA E SEMPRE A LITERATURA ORAL
O cancioneiro popular refere-se à sangria, executada pelos barbeiros sangradores. Assim uma filha, que provavelmente não devia ter feito aquilo que fez, implora à mãe:

“Ó minha mãe não me bata
com varas de marmeleiro
que eu estou muito doente
mande chamar o barbeiro.” [3]

A quadra seguinte está naturalmente impregnada de segundo sentido. Trata-se, provavelmente, de um pai ou de uma mãe, que vociferam para um barbeiro sangrador, que sangrou uma menina onde não o devia ter feito:

“Mal hajas tu barbeiro
e mais a tua navalha!
foste sangrar a menina
na veia mais delicada!” [3]

Luís Pina [4] estudou um “Calendário Higiénico” da autoria de Vale Carneiro (1712), repleto de singulares prudências médicas. Relativamente ao mês de Janeiro, recomenda que:

“Sem causa urgente foge da sangria,
Bebe do vinho branco e delicado,
Deixa o falso, não laves todavia
A cabeça; usa sempre o mel rosado.” [4]

Também no mês de Julho, aconselha que: “Não tomes nem sangria, que é engano”. [4]
E, por enquanto, ficamos por aqui.

BIBLIOGRAFIA
(1) – LEITAM, Manuel. Pratica de Barbeiros em Quatro Tratados em que se trata de com se ha de sangrar, & as cousas necessarias para a sangria; & juntamente se trata em que parte do corpo humano se haõ de lançar as ventosas, assi secas, como sarjadas; & em que parte compitaõ sanguixugas, & o modo de as applicarem; com outras muitas curiosidades pertencentes para o tal officio, em Lisboa, à custa de Francisco Villela, 1667.
[2] - PARVAUX, Solange – La Céramique Populaire du Haut-Alentejo. Paris: Presses Universitaires de France, 1968.
[3] - PINA, Luís. Medicina e Superstição in A ARTE POPULAR EM PORTUGAL, vol. I. Editorial Verbo, 1979.
[4] - PINA, Luís. Um poético calendário português de Higiene seiscentista. Boletim da Câmara Municipal do Porto, XIII. Porto 1950.
[5] – PRÓ-ÉVORA, Grupo. Barristas do Alentejo. Évora, 1962.
[6] - VERMELHO, Joaquim – Barros de Estremoz. Limiar. Porto, 1990.
[7] – VERMELHO, Joaquim. Sobre a Cerâmica de Estremoz. Arquivos da Memória. Edição Colibri. Câmara Municipal de Estremoz. Lisboa, 1995.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Temos carácter. Somos alentejanos!


COSTUMES ALENTEJANOS (1923). Jaime Martins Barata (1899-1970).
Aguarela sobre papel. Museu Grão Vasco (Viseu).      
                                              

À Catarina, minha filha:

Muitos de nós, andamos cansados, pelos mais diversos e respeitáveis motivos. Todavia, a eminência de expulsão dos bofes não é compatível com o verbalismo retórico.
A ameaça de ingresso na zona meã da temperatura a que ferve o ângulo recto, ceifa-nos, quer por baixo, quer por cima. Mas isso, não importa. Somos neo-realistas obstinados, anarco-libertários do rebimba-ó-malho, à prova de combustão, seja ela qual for.
Somos homens e mulheres de sequeiro, que bebemos das raízes que mergulham no barro e no xisto e, quando é necessário, na dureza fria do mármore.
Não abdicamos, nem nos vendemos, nem tão pouco nos rendemos. O nosso lugar, é aqui.
Temos carácter. Somos alentejanos.
Recomendamo-nos!