terça-feira, 10 de maio de 2011

O Sentido da visão: Calão

 MULHER COM VÉU - Jaime Martins Barata (1899-1970). Óleo sobre tela.

PREÂMBULO
Seja qual for o contexto em que nasceu ou seja usado, o calão transvaza largamente o seu núcleo inicial de cultores e é incorporado na linguagem corrente do cidadão comum. Daí fazer sentido aqui, uma abordagem do mesmo, em termos de literatura oral e no contexto do sentido da visão.
Uma tal abordagem será centralizada em termos tais como “vista”, “olho”, “ver”, “olhar”, “luz”, “cor”, “doenças da visão” e “cegueira”.
VISTA
A visão (vista) será, porventura o sentido mais eficaz na gestão da nossa interacção com o mundo que nos cerca. Por sua vez, o calão potencia fortemente o substantivo feminino, adjectivando-o em cada caso, da maneira mais adequada:
- Vista aguda = Perspicácia [3]
- Vista alegre = O lenço [2] (Calão de Minde)
- Vista armada = Visão com o auxílio de instrumentos ópticos [3]
- Vista baixa = O porco [2] (Calão de Minde)
- Vista de olhos = Relance rápido, superficial [3]
- Vista desarmada = Visão sem o auxílio de instrumentos ópticos [3]
- Vista grossa = Cumplicidade [3]
- Vista grossa = Ver e fazer de conta que não vê [1]
- Vistas curtas = Diz-se de pessoa pouco inteligente = De espírito tacanho [3]
- Vistas largas = Diz-se de pessoa inteligente e de espírito liberal e aberto [3]
OLHO
O calão adjectiva amplamente o(s) olho(s) como órgãos sensoriais da visão. E com tudo isso, a língua portuguesa sai mais rica:
- Medir a olhómetro = Avaliar à vista [4]
- Olho à Belenenses = Olho azul devido a uma pancada [3]
- Olho alerta! = Chamada para algum perigo [3]
- Olho ao peito = Olho negro [3]
- Olho atrás, olho adiante = Cautelosamente [3]
- Olho clínico = Aptidão = Capacidade = Perspicácia [3]
- Olho comprido = Bisbilhotice [3]
- Olho da providência – Protecção divina [3]
- Olho da rua = Ao ar livre =No meio da rua [3]
- Olho de águia = Perspicaz = Inteligente [3]
- Olho de azougue = Perspicaz = Inteligente [3]
- Olho do céu = O Sol [3]
- Olho gordo (grande) = Diz-se que o tem pessoa invejosa [3]
- Olho no Cristo que é de prata = Frase com que se chama a atenção para se vigiar algo que pode ser furtado [3]
- Olho por olho = Pagar-se na mesma moeda [3]
- Olho traseiro = O cu [3]
- Olho vê, mão pilha = Diz-se de gatuno que age com rapidez [3]
- Olho vivo = Olhar de pessoa inteligente
- Olho vivo! = Atenção! = Cautela! [3]
- Olho vivo, pé ligeiro = É preciso estar com atenção e pronto a desaparecer [3]
- Olho-de-boi = Clarabóia [3]
- Olhos envinagrados = Olhos avermelhados, de bêbado [3]
- Olhos atravessados = Olhos vesgos ou travessos [3]
- Olhos de amêndoa = Olhos oblíquos [3]
- Olhos de besugo = Olhos esbugalhados [3]
- Olhos de carneiro mal morto = Olhos mortiços [3]
- Olhos de garça = Olhos verdes ou azuis [3]
- Olhos de gazela = Olhos suaves, meigos [3]
- Olhos de goraz = Olhos esbugalhados, protuberantes [3]
- Olhos em alvo = Olhos mortiços [3]
- Olhos em bico = Ficar espantado = Olhos parecidos com os dos chineses [3]
- Olhos nos olhos = Frente a frente [3]
- Olhos que te viram ir = Diz-se quando se perde uma oportunidade que já não voltará [3]
VER
O exercício da visão consiste no acto de ver, termo que é verbo e substantivo com largo espectro de significâncias, reforçadas em contexto de calão:
- Ver a Deus pelos pés = Receber uma fortuna inesperada [3]
- Ver à légua = Ver longe = Prever [3]
- Ver a primeira luz = Nascer [3]
- Ver a vida a andar para trás = Andar em maré de azar [3]
- Ver arder as barbas do vizinho = Ver em outrem algo que também lhe pode acontecer [3]
- Ver Braga por um canudo = Não alcançar o que se desejava [3]
- Ver cabelos num ovo = Ver de mais [3]
- Ver cobra = Ficar espantado = Assustar-se
- Ver com estes que a terra há-de comer = Jura em que se invocam os olhos [3]
- Ver com olhos de ver = Observar com atenção [3]
- Ver com os olhos e comer com a testa = Desejar algo inacessível que se contempla, mas não se pode usufruir [3]
- Ver com sete olhos = Observar minuciosamente [3]
- Ver de que lado sopra o vento = Esperar pelos acontecimentos para agir conforme as circunstancias [3]
- Ver em que param as modas = Aguardar os acontecimentos [1]
- Ver as estrelas = Sofrer de repente uma grande dor [3]
- Ver estrelas = Referência a uma situação que se gora [4]
- Ver flamingos à meia-noite = Sofrer de repente uma grande dor = Ver-se embaraçado ou perdido [3]
- Ver furo = Reconhecer uma possibilidade = Ver uma oportunidade [3]
- Ver lobo = Diz-se de pessoa que ficou assustada com o que viu [3]
- Ver longe = Prever = Ser perspicaz [3]
- Ver moscas (mosquitos) na outra banda = Ver muito bem = Estar a inventar coisas [3]
- Ver navios = Não se conseguir o que se deseja = Ter uma desilusão [1]
- Ver o argueiro no olho alheio e não ver a trave no seu = Criticar os defeitos alheios e não conhecer os próprios [3]
- Ver o caso mal parado = Não descortinar solução para um problema [3]
- Ver o céu por dentro = Morrer [3]
- Ver o cu ao pé das calças = Apanhar um grande susto [3]
- Ver o fim do túnel = Ver o resultado final = Admitir melhoria de situação [3]
- Ver o fundo ao tacho (prato, canastra, saco) = Acabarem-se os rendimentos = Acabar-se tudo [3]
- Ver o padeiro = Ter cópula [4]
- Ver o padeiro = Ver navios [4]
- Ver o sol aos quadradinhos = Ser ou estar preso [4]
- Ver os touros de palanque = Presenciar qualquer tumulto em lugar seguro [1]
- Ver para crer (como S. Tomé) = Só acreditar no que se vê ou está irrefutavelmente provado [3]
- Ver passar os comboios = Não estar ocupado = Não ser contemplado numa situação de favor [4]
- Ver passarinho novo (verde) = Andar optimista = Ter uma surpresa agradável [3]
- Ver pelo mesmo prisma = Analisar segundo o mesmo ponto de vista [3]
- Ver pelo rabo (canto) do olho = Ver de esguelha = Ver sem querer ver = Ver superficialmente [3]
- Ver pelos olhos de outrem = Julgar pelo que outro viu ou disse [3]
- Ver por um canudo = Não conseguir o desejado [3]
- Ver por um óculo = Perder = Deixar distanciar-se = Perder de vista [4]
- Ver se pegam as bichas = Lançar um argumento, opinião ou acção a ver se os outros aceitam = Tentar convencer [3]
- Ver sombras no escuro = Idem [3]
- Ver tudo cor-de-rosa = Só ver o lado bom do mundo [3]
- Ver tudo negro = Não encontrar solução para um assunto ou problema = Diz-se de pessoa pessimista [3]
- Ver uma bruxa = Apanhar uma repreensão severa [1]
- Ver uma bruxa = Ver-se embaraçado [3]
- Veremos, como diz o cego = Frase com que se manifesta dúvida ou incredulidade perante um facto possível de acontecer [3]
- Ver-se à brocha = Estar aflito ou em apuros [3]
- Ver-se à rasca = Estar aflito ou em apuros [3]
- Ver-se à vara = Estar aflito ou em apuros [3]
- Ver-se amarelo = Estar aflito ou em apuros [3]
- Ver-se azul = Estar aflito ou em apuros [3]
- Ver-se da cor da abelha = Estar aflito ou em apuros [3]
- Ver-se da cor da pele do Diabo = Estar aflito ou em apuros [3]
- Ver-se doido = Sentir-se atarantado, sem saber o que fazer [3]
- Ver-se e desejar-se = Estar muito atrapalhado = Estar sobrecarregado [3]
- Ver-se em assados = Estar em dificuldades [3]
- Ver-se em calças pardas = Estar em dificuldades [3]
- Ver-se em calças pardas = Ser severamente castigado [4]
- Ver-se em calças pardas = Ver-se em dificuldades [1]
- Ver-se em maus lençóis = Estar em dificuldades [3]
- Ver-se em palpos de aranha = Ver-se em situação embaraçosa e difícil = Estar desorientado [3]
- Ver-se em panças = Estar em dificuldades [3]
- Ver-se em talas = Ver-se em dificuldades [1]
- Ver-se entre a cruz e a caldeirinha = Ver-se em dificuldades = Estar perante um dilema [3]
- Ver-se gago = Ver-se em dificuldades = Estar perante um dilema [3]
- Ver-se grego = Deparar-se uma dificuldade que muito trabalho e tempo demora a resolver-se [3]
- Ver-se grego = Estar em dificuldades [4]
- Ver-se nas amarelas = Ver-se em dificuldades ou perigo [3]
- Ver-se nas ataqueiras = Ver-se em dificuldades ou perigo [3]
OLHAR
O “olhar”, verbo de sentido abrangente, mas também substantivo preciso, marca tal como o verbo e substantivo “ver”, um significativo registo no nosso calão:
- Olha o bicho! Olha o bicho! = Expressão com que se chama a atenção para algo que se estreia, como uma peça de vestuário [3]
- Olha o bufo = Vem gente = Vem polícia [2] (Calão do Porto)
- Olha o passarinho = Forma de chamar a atenção, sobretudo de crianças [3]
- Olhar com bons olhos = Ver ou avaliar com aprovação [3]
- Olhar como boi para palácio = Não compreender nada de um assunto ou do que se passa [3]
- Olhar como boi para palácio = Não ligar apreço = Não dar importância [1]
- Olhar contra o governo = Olhar de esguelha = Estar contra [3]
- Olhar contra o governo = Ser vesgo [1]
- Olhar das chedas o carro = Olhar alguém com desprezo [3]
- Olhar de alto = Olhar com sobranceria [3]
- Olhar de banda = Olhar com desconfiança [3]
- Olhar de banda como o Miranda = Referência a quem olha de esguelha [3]
- Olhar de esconso (esguelha) = Referência a quem olha de esguelha [3]
- Olhar de frente = Manifestar coragem [3]
- Olhar de lado = Olhar com sobranceria [3]
- Olhar para (ante) ontem = Estar pensativo ou distraído [3]
- Olhar para a sombra = Começar a ter vaidade = Namoriscar [3]
- Olhar para dentro = Dormir [3]
- Olhar para o ar = Estar sem fazer nada [3]
- Olhar para o boneco = Estar sem fazer nada = Distrair-se [3]
- Olhar para o próprio umbigo = Ser narcisista e egoísta [3]
- Olhar para o Sete-Estrelo = Olhar o céu = Estar distraído = Estar sem fazer nada [3]
- Olhar para o tempo = Andar na vadiagem = Andar sem fazer nada [1]
- Olhar pelo canto (rabo) do olho = Olhar de soslaio = Olhar disfarçadamente [3]
- Olhar pelo físico = Defender-se de excessos [3]
- Olhar por alguém = Tratá-lo = Protegê-lo [3]
- Olhar por baixo = Diz-se fingidora, sonsa [3]
- Olhar por cima da burra = Olhar alguém com desprezo ou superioridade [3]
- Olhar por cima da burra = Ser severo com alguém [4]
- Olhar por cima dos ombros = Tratar alguém com severidade [1]
- Olhar por si = Defender as suas conveniências [3]
- Olhar quebrado = Olhar lânguido [3]
LUZ
A luz que atinge o globo ocular está na base do mecanismo da visão e de alguns termos de calão no âmbito da visão:
- Deitar o luzio = Olhar = Observar [2]
- Luz = Dinheiro [2]
- Luzeiro = Pedra preciosa = Brilhante = Dia [5]
- Luzente = Pedra preciosa = Brilhante = Dia [5]
- Luzento = Brilhante [2]
- Luzernas = Os olhos [1]
- Luzes = O dia [2]
- Luzio = Dia [1]
- Luzio = Lampião [1]
- Luzio = Olho [1]
- Luzio = Olhos = Olhar [4]
- Luzir-lhe o olho = Mostrar muito interesse por algo [4]
- Pescas de luzio = Olhadela 0 Piscadela de olhos [2]
COR
Como característica da imagem, a cor não deixa de estar presente no calão:
- Cor de burro quando foge = Cor esquisita = Cor inqualificável [1]
- Cor do Senhor dos Passos da Graça = Roxo desbotado [3]
DOENÇAS DA VISÃO
Sendo a visão uma mais valia, as perturbações da visão teriam necessariamente que estar presentes no calão:
- Pitosca = Zarolho = Míope [1]
- Pitosga = Pitosga [1]
- Zambaio = Vesgo [1]
- Zanaga = Vesgo [1]
- Zarolho = Cego de um olho [2]
- Zarolho = Vesgo [1]
CEGUEIRA
A cegueira ou perda do sentido de visão, está igualmente presente no calão, através de termos ou frases, alguns de conteúdo vernáculo:
- Bater uma ceguinha = Masturbar-se [5]
- Cega = Bebedeira [4]
- Cega = Bebedeira = Masturbação [5]
- Cegada = Grupo de mascarados que percorrem as ruas no Carnaval = Grande confusão = festa muito animada [5]
- Cegante = Alfinete com brilhantes [4]
- Cegante = Anel com brilhantes [2]
- Cego = Estudante que interrogado pelo professor e não tendo estudado, responde: “Peço desculpa, mas não vi. Não pude ver.” [2]
- Cego como uma toupeira = Alguém que vê muito mal [3]
- Cegueta = Indivíduo cego dum olho [2]
- Cegueta = Indivíduo cego dum olho ou estrábico [4]
- Cegueta = Pessoa que vê mal [5]
- Ceguinha = Masturbação [5]
- Ceguinho = Pénis [5]
- Ceguinho seja eu = Forma de jura com que se pretende que acreditem em, nós [3]
NOTA FINAL
Independentemente do fascínio que a abordagem do calão exerceu sobre nós, tivemos que dar a mesma por terminada, para não fastidiar mais o leitor. Muito ainda ficou, naturalmente por dizer.

BIBLIOGRAFIA
[1] - BESSA, Alberto. A Gíria Portugueza. Gomes de Carvalho- Editor. Lisboa, 1901.
[2] – LAPA. Albino. Dicionário de Calão. Edição do Autor. Lisboa, 1959.
[3] - NEVES, Orlando. Dicionário de Expressões Correntes. Editorial Notícias. Lisboa, 1998.
[4] – NOBRE, Eduardo. Dicionário de Calão. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1986.
[5] – PRAÇA, Afonso. Novo Dicionário de Calão. Editorial Notícias. Lisboa, 2001.

domingo, 8 de maio de 2011

O sentido da visão: Adagiário

CEIFEIRA DE ESTREMOZ (1926) - aguarela de Mestre ALBERTO DE SOUZA (1880-1961), notável aguarelista e ilustrador, que calcorreou o país de lés a lés na primeira metade do século XX, funcionando como consciência plástica da Nação.

Na sequência do post anterior, subordinado à epígrafe "O sentido da visão: Cancioneiro", apresentamos hoje mais de dezasseis dezenas de adágios, sistematizados por vinte e quatro tópicos, os quais integram o conjunto por nós catalogado. Naturalmente, que mais uma vez, estre trabalho corresponde a uma sinopse que deixa de parte, variantes e corruptelas.

A visão (vista) é um dos sentidos que permite observar e analisar o meio ambiente:

- A cegueira quando dá é pela vista.
- A malícia tem vista fraca e memória forte.
- A paciência é boa para a vista.
- Cada um vê mal ou bem, conforme os olhos que tem.
- Doença que não é vista, não é conhecida.
- Entre amigos, a vista basta.
- Longe da vista, longe do coração.
- Mais faz a vista do amo do que as suas mãos.
- Morte não vista é mal crida.

Os órgãos sensoriais da visão são os olhos:

- A juventude é a idade em que os olhos brilham sem ver.
- Dois olhos enxergam mais que um só.
- Graça de olhos tarde envelhece.
- Olho de mãe, olho de falcão.
- Olho de menino, olho de diabinho.
- Olhos que não choram não sabem ver.
- Os mortos aos vivos abrem os olhos.
O mecanismo da visão tem por base os raios luminosos que atingem o globo ocular:

- A luz que vai adiante é a que alumia.
- A candeia que vai à frente alumia duas vezes.
- A candeia, debaixo do alqueire, não comunica a sua luz.
- À luz da candeia faz tua meia.
- À luz da candeia, não há mulher feia.
- A luz se apaga mais depressa do que se acende.
- A luz, onde está o fogo, aparece.
- Mais vale um raio de Sol que um arrátel de sabão.
- O excesso de luz produz a cegueira.
- O sol quando nasce é para todos.

Para a maioria de nós:

- Os ouvidos são mais infiéis que os olhos.

Os olhos dizem muita coisa:

- Os olhos não enganam, nem mesmo quando pretendem enganar.
- Os olhos são o espelho da alma.

À cor dos olhos são atribuídos significados:

- Olho azul em portuguesa é erro da natureza.
- Olho azul em raça portuguesa é velhaco com certeza.
- Olhos verdes, olhos de traidor.

O movimento dos olhos cronometra o tempo:

- Menos tempo gasta um postilhão a andar uma légua, que um preguiçoso a abrir os olhos.
- Num volver de olhos ao mau vento, volta-lhe o capelo.

È através do mecanismo da visão que se forma no cérebro a imagem do que vemos, assim como dela a forma, a volumetria, a medida, a profundidade, a textura, o contraste, a luminosidade, o brilho e naturalmente a cor:

- Azul e verde, ranho na parede.
- Das cores a grã; da fruta a maçã.
- Em vendo amarelo, todo me descanelo.
- Gostos e cores não se discutem.
- O azul é o almoço do sol.
- O castanho-escuro corre o mole e o duro.
- O verde é esperança; quem espera sempre alcança.

Os espelhos reflectem a nossa imagem e assim, através deles, a maioria de nós consegue observar o seu rosto:

- Ao cego não dão cuidado os espelhos.
- Levantou-se a torta e pôs-se ao espelho.
- Para quê cego com espelho?
- Tiraram-me o espelho por feia, e deram-no à cega.

Há dificuldades de visão (astigmatismo, estrabismo, hipermetropia, miopia) que podem ser corrigidas, através do uso de óculos com lentes adequadas:

- Quatro-olhos vêem mais que dois.
- Se não vejo pelos olhos, vejo pelos óculos.

A falta do sentido da visão constitui a cegueira:

- A cegueira quando dá é pela vista.
- A ver vamos como diz o cego.
- A ver vamos, dizia o cego e cada vez via menos.
- Achou o cego um dinheiro.
- Antes cegues que mal vejas.
- Antes torto que cego de vez.
- Bem cego é quem muito vê por aro de peneira.
- Cego é aquele que vê e não quer ver.
- Cego é quem não vê por uma peneira.
- Deus podia ter botado os cegos no mundo, para vigiar os que vêem.
- É mais cego aquele que não quer ver do que aquele que não vê.
- Janelas fechadas são olhos de cego.
- Louvar-me num cego para julgar das cores.
- Maria, antes com um olho só, do que com um filho.
- Marido, não vejas! Mulher, cega não sejas!
- Na terra dos cegos, quem tem um olho é rei.
- Não há cego que se veja.
- Não pode o cego distinguir cores.
- O ambicioso é um cego a caminhar com pernas de pau.
- O olho do cego é na mão.
- O pior cego é o que não quer ver.
- Os cegos desesperados por si se consolam.
- Quem dá a vista aos outros, cego fica.
- Quem não enxerga por trás de cerca de vara é cego.
- Se o cego guia o cego, correm ambos o risco de cair.
- Sonhava o cego que via.
- Um cego não pode ser guia de outro cego.
- Um cego não pode ser juiz em cores.

Uma boa visão exige cuidados de saúde:

- A palha no olho alheio e não a trave no nosso.
- Cada um vê o argueiro no olho do vizinho, e não vê a tranca no seu.
- Nada é bom para os olhos.
- O mal do olho cura-se com o cotovelo.
- Quando o nó se faz piolho, com mal anda o olho.
- Quem quiser olho são, ate a mão.
- Sol roxo, água a olho.

Quando dormimos fechamos os olhos:

- Se não dorme meu olho, folga meu osso.

A religião não podia deixar de ter múltiplas ligações aos olhos:

- Com o olho e com a fé não zombarei.
- Fui para me benzer e quebrei o olho.
- O amor e a fé nos olhos se vê.
- Quem, por virtude, se abate aos olhos dos homens, eleva-se aos olhos de Deus.
- Santos da Catalunha, olhos grandes e vista nenhuma.

O amor nasce com o próprio acto de visão:

- O amor e a fé nos olhos se vê.
- O amor é cego mas vê muito longe.
- O amor, ainda que cego para ver, é lince para adivinhar.
- A mão na dor e o olho no amor.
- Os olhos da namorada têm luz mais viva do que a do sol.
- Coração de mãe, olhos de mãe.
- O amor nasce da vista e vai ao coração.

Os olhos são sentinelas que nos mantêm alerta em relação às ameaças a que podemos estar sujeitos:

- Abre um olho para comprar e os dois para vender.
- Ao amigo que não é certo, com um olho fechado e outro aberto.
- Chaves de Faro, prados de Loulé, e criados de S. Brás, olho vivo e pé atrás.
- Contas na mão e olho no ladrão.
- Mãos na roca, olhos na porta.
- Não fies nem um tostão de quem põe os olhos no chão.
- Não metas em tua casa quem dois olhos haja, senão trigo e cevada.
- Os que falam com olhos fechados querem ver os outros enganados.
- Quem com mau vizinho há-de vizinhar, com um olho há-de dormir e com outro vigiar.
- Traze de olho o criado que ronha.
- Um olho no burro, o outro no cigano.
- Um olho no prato, outro no gato.

A mulher marca presença no adagiário da visão:

- A mulher do cego para quem se enfeita?
- A viúva rica com um olho chora e com outro repenica.
- Devemos procurar a mulher antes com os ouvidos que com os olhos.
- Levantou-se a torta e pôs-se ao espelho.
- Mulher honrada não tem ouvidos nem olhos.
- Olho de mãe, olho de falcão.
- Quem não tem mulher, muitos olhos há mister.

Os olhos têm naturalmente a ver com sentimentos:

- A doçura tira nojo e a gordura abre olho.
- A inveja tem os olhos vesgos para o bem, e pulmões de ferro para apregoar o mal.
- Ao medo sobejam os olhos.
- Aos olhos da inveja, todo o sucesso é crime.
- Facilmente aos olhos se afigura aquilo que se pinta ao desejo.
- Gente baixa só tem olho no interesse.

Com os olhos se chora, produzindo lágrimas, em estados emocionais alterados: casos de dor, medo, aflição, raiva, tristeza, depressão, saudade, alegria exagerada, etc.:

- A linguagem das lágrimas, não a entendem os corações de argila.
- As chamas da caridade secam as lágrimas da dor.
- As grandes desventuras não têm lágrimas.
- As lágrimas são o forte das mulheres.
- As lágrimas são, quase sempre, o último sorriso do amor.
- Ás mulheres parece que trazem as lágrimas numa bilha.
- Chorar com um olho e rir com o outro.
- Chorar por um olho azeite e, por outro, vinagre.
- Chorem olhos de teu amigo e ele enterrar-nos-á vivo.
- Fugi do homem orgulhoso, que se envergonha de verter lágrimas.
- Lágrimas abrandam pedras.
- Lágrimas abrandam penas.
- Lágrimas com pão ligeiras são.
- Lágrimas de herdeiros, risos secretos.
- Lágrimas de mulher são tempero de malícia.
- Lágrimas de mulher valem muito e custam-lhe pouco.
- Lágrimas de sermão e chuva de trovoada, cai na terra e não vale nada.
- Nada seca mais depressa do que as lágrimas.
- Não choram os olhos as perdas das coisas que não cansaram os braços.
- Não os olhos que choram, senão as mãos que trabalham.
- Os olhos que não têm chorado, não vêem nada.
- Que mil olhos chorem, menos os meus.

Os animais também estão presentes no adagário sobre a visão:

- Aos olhos tem a morte quem a cavalo passa a ponte.
- Cria o corvo, tirar-te-á o olho.
- Em tempo nevado, o olho vale um cavalo.
- Não há coisa encoberta senão olhos de toupeira.
- O cavalo engorda com o olho do dono.
- O olho do amo engorda o cavalo.
- Quem a cavalo passa a ponte, ao olho vê a morte.

Através dos olhos conseguimos percepcionar a beleza:

- A beleza da mulher é uma das suas armas, as lágrimas são outra.
- A beleza depressa se acaba.
- A beleza é frágil; a virtude é eterna.
- A beleza enche os olhos mas não enche a barriga.
- A beleza está nos olhos de quem a vê.
- A beleza exterior inspira amor; a interior inspira estima.
- A beleza não se põe na mesa.
- A beleza não tem senão a profundidade da pele.

Podemos também apreender a boniteza:

- Boniteza não põe mesa.
- Bonito é o que bonito parece.
- Lindos olhos, feio bicho.

Podemos igualmente ter ou não a noção de feiura:

- À luz da candeia, não há mulher feia.
- Nem tudo o que é feio é mau.
- O desejo torna formoso o que é feio.

A acção do olhar precede a alimentação:

- Abre o olho, que assam carne.
- Comer sem beber, cegar e não ver.
- Mau é ter os olhos maiores do que a barriga.
- Os olhos comem primeiro que a boca.
- Os olhos não comem sopas.
- Os olhos também comem.
- Pão com olhos, queijo sem olhos, e vinho que salte aos olhos.

Porque julgamos que todos viram “com olhos de ver”, o que era nosso objectivo mostrar, damos por terminado o presente post.

Hernâni Matos

sábado, 7 de maio de 2011

O sentido da visão: Cancioneiro

ROSA DE GUADALUPE (1955) – Litografia de Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957).

Uma das formas possíveis de percepção do mundo é a visão, cujos órgãos sensoriais são os olhos. Façamos uma abordagem deste sentido, recorrendo ao cancioneiro popular alentejano:

A função dos olhos é ver:

"Os olhos que vivos são,
O seu alimento é ver.
Dos olhos nasce a feição,
Da feição, o bem querer." [1]

O olhar diz muito:

"O nosso olhar é espelho
Do que sente o coração.
A boca pode mentir,
O nosso olhar é que não." [1]

Os olhos atraem-nos e prendem-nos:

"Os teus olhos me prenderam
Um dia ao sair da missa.
Que prisão tão rigorosa
Sem cadeia nem justiça." [1]

O piscar de olho é declaração de amor:

"Este domingo que vem
Já não é como o passado,
Que me piscaste o olho
À cancellinha do adro." [2]

O olhar reflecte o amor:

"Ó Manel, tu vais á monda?
Eu cá também vou mondar;
diz-me lá: gostas de mim?
Eu bem vejo o teu olhar"[3]

Os olhos são avaliados pela cor:

"Os olhos azuis são falsos,
Os pretos são lisongeiros,
Os olhos acastanhados
São leais e verdadeiros." [1]

Os olhos podem chorar de tristeza:

"Os meus olhos com chorar
fizeram covas no chão,
coisa que os teus não fizeram,
não fizeram, nem farão." [3]

Nos olhos se reflecte o sono:

"O sonno me deu nos olhos,
Batucou, entrou p’ra dentro
Elle me disse baixinho.
Vamos á cama, que é tempo." [2]

A certa altura os olhos reflectem falta de vista:

"Os olhos da minha cara
Como eram já não são.
Fazem a mesma diferença
Que o Inverno faz do Verão." [1]

Os olhos podem ser alvo de brejeirice:

"Já não sei que faço aos olhos,
Que geitinho lhes sei dár,
Que as mulheres m’os cobiçam,
Homens querem-m’os tirar." [2]

Os olhos podem igualmente ser motivo de sarcasmo:

"Os olhos da minha sogra,
São duas sardinhas fritas.
Quando olho para ela.
‘Té me revolvem nas tripas." [1]

BIBLIOGRAFIA
[1] – DELGADO, Manuel Joaquim Delgado. Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo. Vol. I. Instituto Nacional de Investigação Científica. Lisboa, 1980.
[2] - PIRES, A. Tomaz. Cantos Populares Portuguezes. Vol. III. Typographia e Stereotipía Progresso. Elvas, 1909.
[3] - SANTOS, Victor. Cancioneiro Alentejano. Livraria Portugal. Lisboa, 1959.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

O Milagre das Rosas

Rainha Santa Isabel, peça da barrística popular estremocense,
criada pelo jovem artesão, Ricardo Fonseca.
 Fotografia de Pedro Soeiro. 

O MILAGRE DAS ROSAS
Segundo a lenda, a Rainha Isabel de Aragão (1270-1336), esposa de el-Rei D. Diniz (1261-1325) terá saído do Castelo do Sabugal, numa manhã de Inverno para repartir pães pelos mais desprotegidos. Surpreendida pelo monarca, que lhe perguntou onde ia e o que acarretava no regaço, a Rainha teria clamado: “São rosas, Senhor!” Suspeitoso, D. Dinis teria indagado: “Rosas, no Inverno?” D. Isabel expôs então o recheio do regaço do seu traje e nele havia rosas, ao envés dos pães que encobrira.
A lenda, com algumas variantes, integra a nossa tradição oral desde finais do século XIV, sendo certo que o registo mais antigo conhecido é o do retábulo quatrocentista conservado no Museu Nacional de Arte da Catalunha. Por sua vez, o primeiro registo escrito do “Milagre das Rosas” data de 1562 e encontra-se na Crónica dos Frades Menores, de Frei Marcos de Lisboa:
“(…) levava uma vez a Rainha santa moedas no regaço para dar aos pobres(...) Encontrando-a el-Rei lhe perguntou o que levava,(...) ela disse, levo aqui rosas. E rosas viu el-Rei não sendo tempo delas“
Em meados do séc. XVI, a lenda “O Milagre das Rosas” estava já amplamente disseminada. Dessa época datam o quadro anónimo, conhecido por “Rainha Santa Isabel”, do Museu Machado de Castro, em Coimbra, assim como a afamada iluminura da “Genealogia dos Reis de Portugal” de Simão Bening, baseada em desenho de António de Holanda.
A PRIMEIRA BIOGRAFIA DA RAINHA
Uma biografia anónima de Isabel de Aragão, conhecida por “Lenda ou Relação”, foi redigida imediatamente após a sua morte, por alguém que de perto com ela conviveu, provavelmente o seu confessor, Frei Salvado Martins, bispo de Lamego, ou então uma das donas de Santa Clara que a assistiram durante o tempo de viuvez. O original da biografia perdeu-se. Todavia, no Museu Machado de Castro, em Coimbra, conserva-se uma cópia quinhentista, manuscrita e iluminada, que tem o título: “Livro que fala da boa vida que fez a Rainha de Portugal, Dona Isabel, e seus bons feitos e milagres em sua vida, e depois da morte.” Nela, o autor refere que:
(…) e por qualquer lugar onde fosse não aparecia pobre que dela não recebesse esmola (…) E em cada quaresma fazia grandes esmolas a homens e a mulheres envergonhados; e no dia que se diz Ceia do Senhor lavava a certas mulheres pobres e leprosas os pés, e lhos beijava, e vestia-as e dava-lhes de calçar e contas por amor de Deus.”
Na obra, são evocados inúmeros actos de devoção e piedade cristã da Rainha e exaltadas as suas virtudes de caridade e de misericórdia, bem como as numerosas e relevantes obras sociais e o apoio prestado a conventos e congregações religiosas.
Conforme refere o biógrafo anónimo, a Rainha morreu no Castelo de Estremoz, com 66 anos de idade, no dia 4 de Julho de 1336, de uma doença súbita surgida quando se dirigia para a raia em missão de apaziguamento entre o filho, D. Afonso IV, e o neto, Afonso XI de Castela. Contra o conselho de todos, D. Afonso quis cumprir a tenção de sua mãe ser sepultada no Mosteiro de Santa Clara. A longa trasladação fez-se sob o sol aceso de Julho e, para assombro de todos, apesar dos grandes calores que se faziam experimentar, o ataúde exalava um perfume tão aprazível que "tão nobre odor nunca ninguém tinha visto", assim se lê na primeira biografia.
As virtudes da Rainha, mais tarde considerada Santa, estiveram na origem da sua beatificação por Leão X, em 1536, com autorização de culto circunscrito à Diocese de Coimbra. Em 1556, o papa Paulo IV, torna extensiva a devoção isabelina a todo o Reino de Portugal. Seria o papa Urbano VIII, dada a incorrupção do corpo e o relato dos milagres, quem proclamaria em 1625, a canonização de Isabel de Aragão como Rainha Santa.
Rainha Santa Isabel, peça da barrística popular estremocense,
criada pelas irmãs Flores.
Fotografia de Ricardo Fonseca.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Cozinha dos ganhões

 GANHÃO (Início do séc. XX).
Cliché de Faustino António Martins, Lisboa.

COZINHA DOS GANHÕES (1911).
Herdade das Pinas, de D. Theodoro Rodrigues, Estremoz.

A GANHARIA
Os “ganhões“ eram assalariados agrícolas indiferenciados, que se ocupavam de tarefas como lavras, cavas, desmoitas, eiras, etc., com excepção de mondas, ceifas e gadanhas. A sua actividade está registada no cancioneiro popular:

“Eu sou um ganhão da ribêra,
Da ribêra sou ganhão.
Lavro com dois bois vermelhos
Que fazem tremer o chão. [3]

“Bom arado e bom tomão
Faz’uma bela intanchadura;
Boa junta e bom ganhão
Deitam um rego à d’reitura”. [3]

Numa lavoura existiam duas espécies de ganhões: os de pensão e os rasos. Os primeiros ajustados ao ano, pelo S. Mateus e os segundos por temporada de faina agrícola, ganhando estes menos que aqueles.
O conjunto dos ganhões era designado por “ganharia“ ou “malta“ e tinha por dormitório a chamada “casa da ganharia “ ou “casa da malta“, casa ampla que podia acomodar vinte a trinta homens, em tarimbas improvisadas ao longo das paredes. A casa da ganharia tinha sempre uma lareira espaçosa, onde à noite, os ganhões se sentavam nos burros, bancos improvisados com pernadas de azinheira ou de sobreiro. Aí se enxugavam de eventuais molhas, se aqueciam e conversavam pelo serão fora.
A ganharia tinha como mandante o “abegão“, que só recebia ordens do grande lavrador, que o tinha como seu representante em todas as tarefas agrícolas. Era ele que dava as ordens para começar a trabalhar, comer ou parar e que tratava da acomodação e pagamentos da ganharia. Era ele quem determinava o ritmo de tudo:

“Cá ‘stou á porta da rua,
Sem manta nem cassação;
Oh rapazes, vão lá fora,
Que lá vem o abegão.” [6]

O abegão dava o apoio necessário aos ganhões:

“Corri matos e charnecas,
Eu mais o meu abegão,
Para achar um par d’aivecas
À minha satisfação.” [6]

A condição de abegão era cobiçada pelas raparigas casadoiras:

“Belo monte da Gramicha
Que já não tem abegão
Eu hei de p’ra lá mandar
O amor do meu coração.” [6]

O abegão trabalhava e comia juntamente com os ganhões, mas dormia em casa própria com o “sota“, que era coadjutor e substituto do abegão em tudo que podia e sabia. A condição de sota também era invejada. Daí que estes fossem capazes de dizer às moças:

“Sou sota no taboado,
Na Pina dou-te partido;
Se eu não sou do teu agrado
Diz-me qual é o motivo.” [6]

Algumas gostariam de ter um sota por padrinho de casamento:

“No dia em que eu casar
É que levanto a bandeira,
O meu padrinho há de ser
O sota lá da Padeira.” [5]

AS REFEIÇÕES DA GANHARIA
No monte, as refeições da ganharia tinham lugar na chamada cozinha dos ganhões. Aí se sentavam em burros dispostos ao longo de uma mesa comprida e estreita. A cozinha dispunha igualmente de uma lareira espaçosa onde se podia cozinhar em panelas de ferro.
No Outono, no Inverno e na Primavera, as refeições da ganharia consistiam em almoço (antes do nascer do sol), merenda (ao meio-dia) e ceia (ao anoitecer).
Normalmente o almoço, ao levantar, constava de açorda acompanhada com azeitonas. A merenda, no local de trabalho, consistia em pão e queijo, um para cada homem e pão à descrição. A ceia, ao regressar do trabalho, baseava-se em olha com batatas e hortaliças, condimentadas em dias alternados com toucinho ou azeite. No dias de azeite, cada homem recebia meio queijo e azeitonas.
No Verão, as refeições da ganharia constavam de almoço (às sete da manhã), jantar (ao meio-dia) e merenda ou ceia, conforme se comia respectivamente ao sol-posto ou à noite. O almoço constava de sopas de cebola acompanhadas com azeitonas e meio queijo por cabeça.

“Triste vida a dum ganhão
agarrado ao rabanejo,
de manhã é calatrão [a]
ao meio dia pão e queijo.” [7]

O jantar consistia em olha de legumes com toucinho e morcela ou badana. A merenda ou ceia compunha-se de gaspacho acompanhado com azeitonas e meio queijo por homem. Em vez do gaspacho também podiam ser batatas cozidas temperadas com azeite e vinagre.
A mesa da cozinha dos ganhões era posta pelo abegão e pelo sota, que se sentavam cada um à sua cabeceira da mesa. A entrada dos ganhões na cozinha só se verificava depois do abegão ter bradado para o exterior: “Ao almoço!”, ”À ceia!” ou “Ao jantar!”, conforme a refeição de que se tratava. A malta acudia logo à chamada, tirava o chapéu e sentava-se à mesa sempre no mesmo lugar. O que era para comer já tinha sido previamente vazado pelo abegão e pelo sota, em grandes alguidares, conhecidos por “barranhões”. Só faltava migar as sopas de pão, o que cada um fazia puxando da navalha que trazia consigo. Lá diz o adagiário: "Sopa de ganhão, cada três um pão."
Amolecidas as sopas, o abegão dava ordem de comer, soltando um “Com Jesus!”. De cada barranhão comiam quatro a seis ganhões, cada um dos quais metia sempre a colher no mesmo local do barranhão, já que "Não há guerra de mais aparato que muitas mãos no mesmo prato."
O abegão e o sota comiam cada um deles em sua tigela, mais pequena que o barranhão e que era unicamente para cada um deles.
"A hora de comer é a da fome" e por isso, as refeições corriam sem pressas, em silêncio e ordeiramente, com cada um concentrado no acto de comer, já que "Quem não é para comer não é para trabalhar."
Durante as refeições, se alguém precisava de pedir qualquer coisa, batia com a navalha na mesa. Se alguém batesse no barranhão era para pedir a rodilha para se limpar.
Quando todos tinham deixado de comer, o abegão punha-se imediatamente de pé, o que correspondia a dar ordem de retirar, o que cada um fazia, voltando a pôr o chapéu na cabeça. No exterior ou na casa da malta era então chegada a altura dos fumadores puxarem da onça de tabaco e do livro de papel, para enrolarem um cigarro que acenderiam com fuzil e isca:

“O regalo do ganhão
É comer em prato cheio,
Beber vinho, se lh’o dão,
Fumar do tabaco alheio.” [6]

No início do século passado, ainda persistia o costume de no final da refeição, o abegão juntar as mãos e dizer “Demos graças a Deus.” A malta punha então as mãos e pelo menos aparentemente, todos rezavam e só deixavam de o fazer, quando o abegão se benzia, dizendo: “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!”. Nessa altura benziam-se e só depois se retiravam.

A CONDIÇÃO DE GANHÃO
A vida de ganhão era uma vida dura e humilde, saída em sina a homens robustos, com escassa possibilidade de, por mérito próprio, conseguirem ascender à condição de sota ou de abegão. Daí o pendor negativo do pensamento de alguns deles:

“Por me ver’s de pau e manta
Não cuides que sou pastor,
Sou um pobre ganhão
Do conde de Vila-Flor.” [6]

“Triste vida a de um ganhão,
Andar sempre a trabalhar!
Dá-lhe Deus uma doença,
Vai morrer ao Hospita!” [6]

Alguns queixavam-se dos pais das moças em idade de casar:

“Já não há quem queira dar
Uma filha a um ganhão.
Pensam que lhe há de vir
Das ilhas um capitão…” [3]

Outros desiludiam as próprias moças:

“Tenho vida de ganhão,
Não te posso assistir:
De dia ganho o meu pão,
De noite quero dormir.” [3]

Todavia, alguns tinham consciência de classe, que se traduzia em profunda crítica social:

“Mais vale um ganhão
Todo roto e esfrangalhado,
Que valem trinta pandilhas
Dos que usam marrafa ao lado.” [3]

“Mais vale um ganhão
Sem manta nem nada,
Que trinta peraltas
De bota engraxada.” [7]

E que pensavam as moças casadoiras? Nem todas pensariam o mesmo. Umas diziam que:

“Eu não quero amor ganhão,
Que não quero ser ganhoa,
Quero o amor hortelão,
Que eu quero ser horteloa.” [6]

Algumas iam mesmo mais longe.

“Ò moças não queiram
casar com ganhões,
não ganham avondo [b]
p’ra comprar botões.” [7]

Porém, outras tinham opinião contrária:

“Todas me lavam a cara,
Do meu amor ser ganhão:
É bonito, eu gosto dele,
É honrado e ganha pão.” [6]

Algumas lamentavam-se da sua sina:

“Eu nasci num berço d’oiro,
Quem havia de dizer
Que nos braços d’um ganhão
Havia de vir morrer!” [6]

O que é um facto, é que a avaliação predominante, não era favorável aos ganhões:

“Quem tiver filhas bonitas,
Não as deixe ir a funções,
Que são rodilhas de todos,
Onde se limpam ganhões.” [6]

Já que “Todo o preto tem o seu dia”, anualmente o ponto alto da vida de um ganhão era a ida às Festas do S. Mateus, a Elvas:

”Ó feira de S. Matheus,
Onde as ganharias vão
A gastarem o dinheiro
Da temporada do v’rão.”


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[a] - Sopas de cebola.
[b] - O bastante.


BIBLIOGRAFIA
[1] – CAPELA E SILVA, J. A. A linguagem rústica no concelho de Elvas. Revista de Portugal. Lisboa, 1947.
[2] – CAPELA E SILVA, J. A . Ganharias. Imprensa Baroeth. Lisboa, 1939.
[3] - LEITE DE VASCONCELLOS, J. Cancioneiro Popular Português, vol. I, Acta Universitatis Conimbrigensis, Coimbra, 1971.
[4] – PICÃO, José da Silva. Através dos Campos (2ªed.). Neogravura, Limitada. Lisboa, 1941.
[5] - PIRES, A. Tomaz. Cantos Populares Portuguezes. Vol. III. Typographia e Stereotipía Progresso. Elvas, 1912.
[6] - PIRES, A. Tomaz. Cantos Populares Portuguezes. Vol. IV. Typographia e Stereotipía Progresso. Elvas, 1912.
[7] - SANTOS, Victor. Cancioneiro Alentejano. Livraria Portugal. Lisboa, 1959.
[8] – VIEIRA DE SÁ, Mário. O Alemtejo. J. Rodrigues e C.ª. Lisboa, 1911.