terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

As mulheres do meu país



A ALEGADA SUBALTERNIDADE DA MULHER EM RELAÇÃO AO HOMEM
As mulheres são nossas avós, nossas mães, nossas companheiras, nossas filhas. Com elas vivemos e por elas vivemos. E isso é o amor nas suas múltiplas vertentes.
Segundo o Génesis (o primeiro dos cinco livros bíblicos que a tradição judaico-cristã atribui a Moisés), no sexto dia da criação do Mundo e a partir do barro, Deus moldou o primeiro homem (Adão) e mais tarde, fazendo-o mergulhar em sono profundo, retirou-lhe uma costela e a partir dela fez a primeira mulher (Eva), a fim de que o homem não vivesse sozinho e tivesse uma ajuda adequada no seu dia-a-dia.
Esta visão mitológica da criação do mundo coloca imediatamente a mulher numa posição subalterna em relação ao homem. Com efeito na 1ª Epístola de São Paulo aos Coríntios, afirma-se a dado passo, que não foi o homem que foi tirado da mulher, mas a mulher do homem, assim como tão pouco foi o homem criado para a mulher, mas sim a mulher para o homem.
Também de acordo com a mesma epístola, é uma desonra para o homem usar cabelo comprido, ao passo que é uma glória para a mulher usar uma longa cabeleira, porque esta lhe foi dada por Deus como um véu e sobre a sua cabeça a mulher deve usar um sinal da sua submissão. Ao orar a Deus, deve assim estar coberta com um véu.
Numa sociedade democrática, a imagem que hoje fazemos da mulher nada tem a ver com aquela que é sugerida pela 1ª Epístola de S. Paulo aos Coríntios.
Ao longo dos séculos e a nível planetário, a mulher tem sido vítima de descriminação e de violência e tem procurado melhores condições de vida e de trabalho, através da luta por si desenvolvida, sobretudo a partir dos primeiros anos do século XX, nos Estados Unidos da América e na Europa. Foi graças a essas lutas que a mulher alcançou conquistas sociais, políticas e económicas.
Há dois aspectos que têm a ver com o meu trabalho na área cultural, nos quais se encontra bem vincada a subalternidade da mulher em relação ao homem. Trata-se de algumas tradições orais e de imagens humorísticas da mulher.
Como arqueólogo da nossa literatura oral, interesso-me por provérbios, cancioneiros, adivinhas, calão, rezas, benzeduras, topónimos, alcunhas, etc. Limitando-me aos provérbios, chamo a atenção para estes:
- “A mulher e o vinho tiram o homem do seu juízo.“
- “A mulher e a galinha, com sol recolhida.“
- “A mulher e o pedrado, quer-se pisado.“
- “A mulher e a pega fala o que dizeis na praça.“
- “A mulher e a cereja, por seu mal se enfeita.“
- “Da laranja e da mulher, o que ela der.“
- “Nem o rouxinol de cantar, nem a mulher de falar.“
- “O homem na praça, e a mulher em casa.“
É péssima a imagem da mulher transmitida por estes provérbios, compilados em 1651, pelo padre jesuíta eborense António Delicado. Estes provérbios, encarados como sentenças contextualizadas na época em que ele viveu ou anteriores a ela, continuam a aparecer completamente descontextualizados, para gáudio de alguns homens, nos livros de provérbios que por aí se vão editando. Uma compilação séria de provérbios terá necessariamente de identificar o colector e o contexto de tempo e de lugar, o que não tem sido feito.
Passemos agora ao segundo aspecto onde ficou registado o vinco da subalternidade da mulher em relação ao homem. Trata-se da cartofilia. Na verdade, a mulher sai muito maltratada na imagem que dela é dada por alguns bilhetes-postais ilustrados humorísticos tanto do tempo da nossa I República como do Estado Novo.
No contexto actual, em que a igualdade de género ainda não é plena, o respeito que nos merece a mulher, leva a que encaremos estes bilhetes-postais ilustrados como produto de uma época, em que nos mais diferentes domínios, a mulher era encarada como um ser inferior ao homem, atitude que hoje é desprovida de qualquer sentido.
O que se passou, entretanto, a nível social? 
A LUTA DA MULHER PELA IGUALDADE DE GÉNERO
Em 1907, um grupo de mulheres fundara o “Grupo Português de Estudos Feministas”, visando difundir os ideais da emancipação feminina e doutrinar as portuguesas através da edição de uma colecção de livros relacionados com a propaganda feminista.
A partir daquele grupo vai fundar-se em 1908, uma associação política e feminista, a “Liga Republicana das Mulheres Portuguesas”, com a finalidade de orientar, educar e instruir, nos princípios democráticos, a mulher portuguesa, fazer propaganda cívica inspirada no ideal republicano e democrático e promover a revisão das leis na parte respeitante à mulher, visando a sua independência económica e a conquista de direitos civis e políticos. A Liga era apoiada pelo Partido Republicano e em particular por dirigentes como António José de Almeida, Bernardino Machado e Magalhães Lima, que na perspectiva de criarem mais uma frente de combate à Monarquia, incentivavam a luta das mulheres pela igualdade de direitos que lhes possibilitassem uma maior intervenção na vida do país, a nível social, económico e político.
Após a revolução republicana de 5 de Outubro de 1910, é criada em 1911 a “Associação de Propaganda Feminista”, em cujos objectivos se incluíam a independência política, a defesa dos direitos das mulheres e a reivindicação do sufrágio feminino restrito.
A primeira lei eleitoral da I República Portuguesa, datada de 1911, reconhecia o direito de votar aos “cidadãos maiores de 21 anos que saibam ler e escrever ou sejam chefes de família”.
Nas eleições para a Assembleia Constituinte de 1911, realizadas em 28 de Maio desse ano, votaria a primeira mulher portuguesa, Carolina Beatriz Ângelo, médica cirurgiã, activista dos direitos femininos e fundadora da Associação de Propaganda Feminista. Invocando a sua condição de chefe de família, uma vez que era viúva e mãe, Carolina Beatriz Ângelo conseguiu que um tribunal lhe confirmasse o direito a votar com base no sentido do plural da expressão "cidadãos portugueses", cujo masculino se refere simultaneamente a homens e a mulheres. Para evitar que tal exemplo pudesse ser repetido, a lei eleitoral foi alterada em 1913, reconhecendo agora o direito de votar aos “cidadãos do sexo masculino, maiores de 21 anos que saibam ler e escrever”.
Só com Salazar em 1931, é que o direito de voto das mulheres foi formalmente estabelecido, ainda que com muitas restrições, visto que só podiam votar as mulheres que tivessem cursos secundários ou superiores, enquanto para os homens bastava saber ler e escrever.
Ainda com Salazar em 1946, a lei eleitoral alargou o direito de voto às mulheres chefes de família e às casadas que, sabendo ler e escrever, tivessem bens próprios e pagassem pelo menos 200 escudos de contribuição predial, assim como aos homens que, sendo analfabetos, pagassem ao Estado pelo menos 100 escudos de impostos.
Em Dezembro de 1968, já com Marcelo Caetano, foi reconhecido o direito de voto às mulheres portuguesas, ainda que as Juntas de Freguesia continuassem a ser eleitas apenas pelos chefes de família. Só depois de 25 de Abril de 1974, seriam revogadas todas as restrições à capacidade eleitoral dos cidadãos tendo por base o género. Convém salientar que antes do 25 de Abril:
- As mulheres tinham menos direitos que os homens;
- As professoras primárias tinham de pedir autorização para casar, que só era concedido se o pretendido tivesse um ordenado igual ou superior ao da mulher;
- As mulheres precisavam de autorização do marido para poderem ser comerciantes, para arrendarem uma casa e para viajar para o estrangeiro;
- Nas eleições só podiam votar os chefes de família, com um grau de instrução mínima e rendimentos. Assim ficavam de fora as mulheres, os analfabetos e os pobres.
A actual Constituição da República Portuguesa consigna no seu Artigo 13.º (Princípio da igualdade) que:
“1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.
2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.”
Significa isto que entre outras coisas, a Constituição da República Portuguesa consigna a igualdade de género, a qual tem merecido especial atenção por parte do Parlamento Europeu ao longo dos últimos 30 anos, especialmente no que se refere a condições de trabalho, violência e discriminação. Para concretizar este objectivo, o Parlamento Europeu tem recorrido a instrumentos como: legislação, apoio a projectos de organizações não governamentais e campanhas de sensibilização.
Em Portugal existe uma Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG). Integrada na Presidência do Conselho de Ministros e sob a tutela do Gabinete da Secretária de Estado da Igualdade, a CIG é um dos mecanismos governamentais para a Igualdade de Género e tem a missão de garantir a execução das políticas públicas no âmbito da cidadania e da promoção e defesa da igualdade de género. 
MOSTRA ICONOGRÁFICA “AS MULHERES DO MEU PAÍS”
Os três primeiros quartéis do século XX foram entre nós, anos de luta da mulher pela igualdade de género, que ainda continua.
Como etnógrafo amador, socorro-me dos bilhetes-postais ilustrados antigos como documentário topográfico, etnográfico, histórico, sociológico e artístico do país. Foi assim que do meu vasto acervo, seleccionei 36 exemplares da primeira metade do século XX, 3 por cada uma das nossas 12 regiões (Minho, Trás-os-Montes e Alto Douro, Douro Litoral, Beira Litoral, Beira Alta, Beira Baixa, Ribatejo, Estremadura, Alentejo, Madeira e Açores). Foram esses postais que estiveram na génese da montagem da mostra iconográfica sob o título em epígrafe, onde se mostram com toda a sua força anímica, as mulheres do povo, da serra à campina, da charneca à beira-rio e à beira mar, no continente e nas ilhas. Mulheres com trajos de trabalho ou de romaria, mas sempre em perfeita sintonia com o meio, o clima e a identidade cultural regional. Lavradoras, camponesas, mondadeiras, ceifeiras, azeitoneiras, vindimadeiras, aguadeiras, pastoras, peixeiras, varinas, lavadeiras, regateiras, vendedoras de flores, fiandeiras, bordadeiras ou simplesmente mulheres. Mulheres que arrostando com a descriminação, mas lutando contra ela, ajudaram a fazer este país, com a força do seu trabalho, com o seu exemplo e maternidade. Mulheres que lutaram ao lado do homem. Mulheres que foram avós, mães, companheiras e filhas. Mulheres de ontem, tais como as de hoje, com quem vivemos e por quem vivemos por amor. Mulheres que são “As Mulheres do Meu País”, título da mostra iconográfica que entronca no título homónimo do livro da escritora, tradutora, jornalista e resistente anti-fascista Maria Lamas, Presidente em 1947 do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, organização centrada na defesa dos direitos sociais e políticos das mulheres, fundada em 1914 pela médica ginecologista Adelaide Cabete. Este Conselho foi encerrado por ordem de Salazar em Julho de 1947, no ano de presidência de Maria Lamas. Esta terminaria em 1948, a obra “As Mulheres do Meu País”, que dedica a todas as mulheres portuguesas. Trata-se de uma monumental reportagem sobre a vida das mulheres portuguesas, publicada sob a forma de 15 fascículos, o último dos quais em Abril de 1950, no ano a seguir a ter estado presa pela primeira vez, no forte de Caxias.
À memória de Maria Lamas e a todas “As Mulheres do Meu País” que têm sabido lutar contra a discriminação, se dedicou a presente mostra iconográfica.

(Presidente da Associação Filatélica Alentejana)

 MINHO
Mulheres na fonte


TRÁS-OS MONTES E ALTO
Camponeses numa feira de gado – Montalegre

 DOURO
Lavradora - Póvoa de Varzim


 BEIRA ALTA
Camponesas - Caramulo


 BEIRA BAIXA
Fiandeira - Monsanto


BEIRA LITORAL
Vendedoras no mercado - Leiria


 RIBATEJO
Dançarinos


 ESTREMADURA
Lavadeira - Caneças


 ALENTEJO
Azeitoneira - Estremoz


 ALGARVE
Camponesa


 MADEIRA
Rapariga moendo trigo


  
AÇORES
Camponesas - Angra do Heroísmo

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O amor é cego


O Amor é cego.
Jorge da Conceição.

“O amor é cego” é uma das peças mais estimadas da barrística popular estremocense, que está na origem do título deste post, hoje dia 14 de Fevereiro, Dia de São Valentim ou Dia dos Namorados, em que os amantes celebram o amor, a paixão e a partilha de sentimentos entre si.
Com este post, continuamos a associar provérbios da nossa tradição oral, a exemplares da barrística popular estremocense.
“O amor é cego” é um provérbio que traduz a cegueira do amor (falta de objectividade), relativamente à qual conhecemos provérbios, alguns dos quais admitem variantes, que considerámos desnecessário assinalar aqui:

- “A amizade deve ser vidente e o amor, cego.“
- “O amor é cego e a Justiça também.“
- “O amor é cego, a amizade fecha os olhos.“
- “O amor é cego, mas vê muito longe.“
- “O amor é cego. “
- “O amor não enxerga as cores das pessoas.“
- “O amor vem da cegueira, a amizade, do conhecimento.“
- “Quem anda cego de amores não vê senão flores.“
- “Quem o feio ama, bonito lhe parece.“

Porque estamos empenhados na recuperação da nossa literatura de tradição oral e na promoção da barrística popular estremocense, pensámos que este seria o post mais adequado ao dia de S. Valentim, já que assumidamente também acreditamos no amor.


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O meu bigode


Uma amiga publicou no seu mural do Facebook, a folha do calendário do mês de Agosto, onde a dezanove é cognoscível a minha carantonha, o que me levou a dizer-lhe:
- “O leão bigodudo sou eu. Obrigado e um abraço.”
A minha amiga considerou que essa do leão bigodudo era o máximo, ao que eu repliquei:
- “É verdade, amiga. Um bigode que se preze, ornamenta necessariamente o lábio superior dum leão. Existirá, porventura, maior dignidade para um bigode? Ser bigode leonino, é outra loiça. É ser bigode de outra dimensão.
Implantado num leão, um bigode que se preze é capaz de atingir Vénus e dali partir à conquista do Cosmos. Na sequência do Big Bang primordial, o elo de ligação entre o nada e o tudo, é assim, o bigode leonino do leão bigodudo.
PIM!”
A minha amiga respondeu-me, dizendo primeiramente que ia contar a minha bela história à dona tesoura, para ver o que ela dizia. Depois acrescentou que ficara a imaginar a cena do bigode a viajar por Vénus e conquistando o Cosmos. Terminaria dizendo que só eu, que era bárbaro!!!!
Porque a minha amiga é encantadora, senti necessidade de lhe explicar o meu bigode:

Amiga:

O meu bigode é efectivamente um bigode barbaramente bárbaro.
Você já reparou que o meu bigode não é à Tonico Basto, da “Gabriela, Cravo e Canela”? Você já me imaginou com um bigode todo direitinho, aparadinho e penteadinho com um pentinho, sempre omipresente no bolso de fora do paletó? Acha que eu dava para fazer de galã desenxabido de uma terra qualquer do interior nordestino? Não está a imaginar, pois não? Faz bem, pois tal bigode não confere com as linhas mestras do meu ser.
O meu bigode é um bigode à Charles Bronson ou melhor à Gengis Khan, com as pontas reviradas para baixo, o que sem eu querer, me conferirá, porventura, um ar durão, o que convenhamos não assenta mal a um leão, que tem natureza intrinsecamente solar. Apesar de tudo, há quem diga que eu tenho um coração de manteiga…
O meu bigode é um bigode com as pontas reviradas para baixo. Você já me imaginou com o bigode revirado para cima, com ar de monárquico órfão à espera que El-Rei D. Sebastião regresse numa manhã de nevoeiro? (Que me perdoem os meus amigos monárquicos, que os tenho, por tecer considerações sobre os seus reais bigodes). Mas eu, que sou realmente republicano, só posso usar um bigode com as pontas reviradas para baixo.
Os meus avós começaram por ser jornaleiros sem terra, antes de endireitarem a vida, com o que quebraram as costas. Onde é que já se viu o neto de um jornaleiro sem terra, usar um bigode à Bragança? Os meus defuntos avós dariam nas tumbas, cambalhotas de indignação. Por isso, o meu bigode à Gengis Khan, é um bigode que tem a ver com as minhas origens. Um marxista diria aqui que o meu bigode tem a ver com a minha natureza de classe.
O meu bigode de pontas para baixo, nasceu nos tempos do “Make Love not War”, quando eu usava camisas às flores, com colarinhos de metro e meio.
Tempos depois, na altura do Maio de 68, dos plenários permanentes na Sorbone, nas barricadas nas ruas de Paris, quando se gritava contra o poder estabelecido “Estudantes e Operários, a mesma luta!”, o meu bigode continuou com as pontas para baixo, agora proletarizadas pela ideologia emergente. As flores das camisas murcharam, mas o bigode, esse não, revitalizou-se nos combates de então.
Mais tarde, viria Abril construído com muitos Maios. E o meu bigode desceu à rua e andou por aí em mares de gente que queriam construir um país novo. E o meu bigode, sempre de pontas para baixo, saiu retemperado dessas lutas.
É esse o bigode que mantenho, agora grisalho pela patine do tempo, que é como que a minha certidão de idade.
O meu bigode de pontas para baixo, é uma das minhas marcas identitárias. Não se vende, não se troca, não se rende.

O MEU BIGODE CONTINUA!

(O leão bigududo com carantonha supra)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A barrística de Estremoz e os provérbios - 1

Procuraremos a partir de hoje, associar provérbios da nossa tradição oral, a exemplares da barrística popular estremocense. Todos os bonecos apresentados hoje, são da autoria das Irmãs Flores.  


COZINHEIRA
A melhor cozinheira é a azeiteira.

MOLEIRO
Muda-se de moleiro, não se muda de ladrão.
LEITEIRO
Não adianta chorar sobre o leite derramado.

COZINHA DOS GANHÕES
Sopa de ganhões, cada três um pão.


MULHER AO POIAL DOS CÂNTAROS
Bebedice de água nunca acaba.

HOMENS NO PETISCO
Comamos e bebamos e nunca mais ralhamos.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Provérbios de Fevereiro


FEVEREIRO - Iluminura (10,8x14 cm) do “Livro de Horas de D. Manuel I”
[Século XVI (1517-1551)], manuscrito com iluminuras atribuídas a
ntónio de Holanda, conservado no Museu Nacional de Arte Antiga.
Pintura a têmpera e ouro sobre pergaminho.

- A castanha e o besugo, em Fevereiro não têm sumo.
- A doçura de Fevereiro, faz o dono cavalheiro.
- A dois dias de Fevereiro, sobe ao outeiro: se a candelária chorar, está o Inverno a chegar; se a candelária sorrir, está o Inverno para vir.
- A Fevereiro e ao rapaz perdoa tudo quanto faz, se Fevereiro não for secalhão e o rapaz não for ladrão.
- A neve que em Fevereiro cai das serras, poupa um carro de estrume às vossas terras.
- Água de Fevereiro enche o celeiro.
- Água de Fevereiro mata o onzeneiro.
- Aí vem o meu irmão Março que, de oito só deixa quatro.
- Aí vem o meu irmão Março, que fará o que eu não faço.
- Ao Fevereiro e ao rapaz, perdoa tudo quanto faz.
- Aproveite em Fevereiro quem folgou em Janeiro
- Aproveite Fevereiro quem folgou em Janeiro.
- Aveia de Fevereiro enche o celeiro.
- Bons dias em Janeiro enganam o homem em Fevereiro.
- Bons dias em Janeiro, pagam-se em Fevereiro.
- Candelária (2/2) chovida, à candeia dá vida.
- Chuva de Fevereiro mata o onzeneiro.
- Chuva de Fevereiro vale por estrume.
- Chuva em Dia das Candeias(2/2), ano de ribeiras cheias.
- Dia de S. Brás (3), a cegonha verás, e se não a vires o Inverno vem atrás.
- Dia de S. Matias (24), começam as enxertias. .
- Em dia de S. Matias (24) começam as enxertias.
- Em Fevereiro chega-te ao lameiro.
- Em Fevereiro chuva, em Agosto uva.
- Em Fevereiro enche a velha o fumeiro.
- Em Fevereiro entra o sol em qualquer rigueiro.
- Em Fevereiro mata o teu carneiro.
- Em Fevereiro mete obreiro.
- Em Fevereiro neve e frio, é de esperar calor no estio.
- Em Fevereiro põe a mãe ao soalheiro e manda-lhe um saraivem.
- Em Fevereiro põe o teu fumeiro.
- Em Fevereiro põe o teu porquinho ao sol.
- Em Fevereiro, cada sulco um regueiro.
- Em Fevereiro, chega-te ao lameiro.
- Em Fevereiro, ergue-se o centeio, a aveia enche o celeiro e a perdiz faz-se ao poleiro.
- Em Fevereiro, frio ou quente, chova sempre.
- Em Fevereiro, mete obreiro; pão te comerá, mas obra te fará.
- Em Fevereiro, no primeiro jejuarás, no segundo guardarás, no terceiro dia de S. Brás.
- Em Fevereiro, vai acima ao outeiro: se vires verdejar, põe-te a chorar; se vires terrear, põe-te a cantar.
- Fevereiro afoga a mãe no ribeiro.
- Fevereiro chuvoso faz o ano formoso.
- Fevereiro coxo, em seus dias vinte e oito.
- Fevereiro couveiro faz a perdiz ao poleito
- Fevereiro é dia, e logo é Santa Maria (2/2).
- Fevereiro é o mais curto mês e o menos cortês.
- Fevereiro enxuto rói mais que todos os ratos do mundo.
- Fevereiro enxuto, rói mais pão do que quantos ratos há no mundo.
- Fevereiro faz dia, e logo Santa Maria (2/2).
- Fevereiro matou a mãe no soalheiro.
- Fevereiro quente, traz o diabo no ventre.
- Fevereiro recoveiro faz a perdiz ao poleiro; Março três ou quatro.
- Fevereiro trocou dois dias por uma tijela de papas.
- Fevereiro, chover.
- Fevereiro, enganou a mãe ao soalheiro.
- Fevereiro, fêveras de frio, e não de linho.
- Fevereiro, matou a mãe ao soalheiro.
- Fevereiro, o mais curto mês e o menos cortês.
- Fevereiro: rego cheio.
- Janeiro geoso e Fevereiro chuvoso fazem o ano formoso.
- Lá vem Fevereiro, que leva a ovelha e o carneiro.
- Janeiro gioso, Fevereiro nevoso, Março molinhoso, Abril chuvoso, Maio ventoso faz o ano formoso.
- Luar de Janeiro faz sair a galinha do poleiro, lá vem Fevereiro que leva a galinha e o carneiro.
- Neve de Fevereiro, presságio de mau celeiro.
- Neve em Fevereiro não faz bom celeiro.
- Neve em Fevereiro, é como a água carregada num cesteiro.
- Neve em Fevereiro, é mau para o celeiro.
- Neve que em Fevereiro cai das serras, poupa um carro de estrume às vossas terras.
- O primeiro de Fevereiro jejuarás, o segundo guardarás e o terceiro é dia de S. Brás; semeia o cebolinho e tê-lo-ás.
- O sol de Fevereiro matou a mãe ao soalheiro.
- O tempo de Fevereiro enganou a mãe ao soalheiro.
- Para parte de Fevereiro, guarda a lenha no quinteiro.
- Para parte de Fevereiro, guarda lenha.
- Pelo S. Matias (24), noites iguais aos dias.
- Por S. Brás (3) atirarás.
- Por S. Matias (24) começam as enxertias.
- Por S. Matias (24), antes de Março cinco dias salta da boga na cascalheira.
- Quando a candeia (2) chora, já o Inverno vai fora, quando a candeia ri, ainda o Inverno está para vir.
- Quando a Candelária (2) chora, o inverno já está fora; quando a Candelária ri, o inverno está para vir.
- Quando Fevereiro não tem grande frio, o vento dominará até ao Estio.
- Quando não chove em Fevereiro, não há bom prado, nem bom centeio.
- Quando não chove em Fevereiro, não há bom prado, nem bom palheiro.
- Quando não chove em Fevereiro, nem bom prado nem bom celeiro.
- Quando não chove em Fevereiro, nem bom prado, nem bom centeio
- Quando não chove em Fevereiro, nem bom prado, nem bom lameiro, nem bom corno no carneiro.
- Quando não chove em Fevereiro, nem bom prado, nem bom palheiro.
- Quando não chove em Fevereiro, nem prados nem centeio.
- Quando não chove em Fevereiro; nem bom centeio nem bom lameiro.
- Quem andar a gosto, não sai de casa em Fevereiro.
- Quem quiser o alho cabeçudo, planta-o no mês do Entrudo.
- Quem quiser o alho cabeçudo, sache-o pelo Entrudo.
- Quer no começo quer no fundo, em Fevereiro vem o Entrudo.
- Rindo se vai Fevereiro, porque lhe jejuam no seu dia primeiro.
- S. Brás (3) te afogue que Deus não pode.
- Se a Candelária (2/2) chora, está o Inverno fora, se a Candelária rir está o Inverno para vir.
- Se a Senhora das Candeias (2/2) ri e chora, está o inverno meio dentro e meio fora.
- Se a Senhora das Candeias (2/2) chora, está o inverno fora.
- Se a Senhora das Candeias (2/2) rir, está o inverno para vir.
- Se o Inverno não faz o seu dever em Janeiro, faz em Fevereiro.
- Se queres ser bom grãoseiro, semeia-o em Fevereiro.
- Se seco e quente é o mês de Fevereiro, guarda para os cavalos o feno no celeiro.
- Tanta chuva pelas candeias (2/2), tantas abelhas pelas colmeias.
- Tantos dias de geada terá Maio, quantos de nevoeiro teve Fevereiro.
- Vai-te embora Fevereirinho de vinte e oito, que deixaste os meus bezerrinhos todos oito; deixo estes, que
- aí vem Março que de oito deixa quatro.
- Vai-te embora Fevereiro com os teus vinte e oito; se durasses mais quatro, não durava cão nem gato.
- Vai-te embora Fevereiro que levaste o meu cordeiro! Aí vem meu irmão Março que de oito te deixa quatro.
- Vai-te embora Fevereiro, que não me deixaste nenhum cordeiro.
- Vai-te embora irmão Fevereiro que cá fica a minha ovelha com o meu cordeiro; mas lá vem o irmão Março que não deixará ovelha nem farrapo, nem o pastor se for fraco.
- Vale mais no rebanho ter um lobo, que mês de Fevereiro formoso.
- Vale mais uma raposa no galinheiro, que um homem em camisa em Fevereiro.



sábado, 29 de janeiro de 2011

A caça aos grilos - 2ª edição

Esta é a 2ª edição do post A CAÇA AOS GRILOS, editado em 21 de Fevereiro de 2010, agora revisto, reformulado e ampliado com apontamentos de literatura oral, bem como pela adição de uma nova ilustração e de um novo vídeo.

 Gaiola paras grilos, feita de cana, cortiça e cordão (Colecção do autor).

EU E OS GRILOS
Íamos apanhar grilos cuja toca localizávamos pelo som. Feito isto, o grilo estava perdido. Obrigávamo-lo a sair à força com uma palhinha que metíamos na toca. Porém, se não saía a bem, saía a mal. Para grandes males, grandes remédios. Víamo-nos então forçados a dar uma mijadela na toca, o que tinha o condão de persuadir o grilo a sair. Apanhávamo-lo depois com as mãos postas em concha e metíamo-lo numa caixa de fósforos das grandes, nas quais previamente tínhamos feito uns pequenos respiradouros, não fosse o caso de o bicho, salvo da morte por afogamento, viesse a morrer de asfixia. Depois, já em casa, o grilo era metido numa gaiola, havendo as feitas só de cana e as de arame e cortiça ou de arame e madeira.
Alimentávamos o grilo com folhas de serralha ou de alface, que íamos renovando para o “cantor” ter permanentemente alimentação fresca.
Os grilos que cantavam bem eram chamados de “realistas”.
As gaiolas estavam geralmente junto às janelas.
Tivemos conhecimento que, por vezes, os trabalhadores rurais prendiam na camisa uma gaiola de “bunho” com um grilo lá dentro, que cantava para eles o dia inteiro.
OS GRILOS NA LITERATURA ORAL
A caça aos grilos era uma traquinice dos putos da minha laia e da minha geração. Decorridos mais de cinquenta anos sobre a última mijadela numa toca, resta a saudade dos tempos que já lá vão. Esta, aliada à memória dos nossos ancestrais, tornou-me arqueólogo da oralidade com a missão explícita de escavar os múltiplos géneros da nossa literatura popular. Daí que tenha registado a presença dos grilos no adagiário português:
- “Anda a raposa aos grilos.“
- “Fica melhor a mulher no seu lar, ouvindo o grilo cantar. “
- “Infeliz da raposa que anda aos grilos.“
- “Mal vai a raposa quando anda aos grilos e ao juiz quando vai à forca. “
- “Mal vai a raposa quando anda aos grilos e pior quando anda aos ovos.“
- “Mal vai a raposa quando anda aos grilos.” [13]
- ”Quando a raposa anda aos grilos, a mulher dama fia e o escrivão não sabe quantos são do mês, mal deles três.“
- “Quando a raposa anda aos grilos, mal da mãe, pior dos filhos.“
- “Quando a raposa anda aos grilos, vai mal para a mãe e pior para os filhos.“
- “Quando o grilo grilar, está a seara a aloirar.“
- “Se queres um grilo, vai pari-lo.“
- “Tomai a sorte do grilo, que é comer e cantar.“
A presença dos grilos no reportório das adivinhas portuguesas é vasto e na maioria delas, a solução é obviamente: “Grilo”. Eis uma:  

“Eu canto ao desafio
Como a cigarra no Verão.
Gosto muito de alfaces
E não trabalho ao serão.” [10]   

Eis outra:                        

“Lá no deserto onde vivo
Me vão buscar da cidade.
Nascendo em dias grandes
É mui curta a minha idade.
Cantar sem abrir a boca
É o meu divertimento.
Como leigo que sou
Pertenço a certo convento.
Dão-me uma pequena cela
Onde só posso habitar,
E uma ração em cru
Até na cela acabar.” [5]                           
    
Mais uma:                                 

“Não sou frade, nem sou monge,
Nem sou de nenhum convento;
Meu fato é de franciscano,
E só de ervas me sustento.” [7]  

E ainda mais uma:           
                       
“Seja de noite ou de dia
um pequeno bailarino
oferece serenatas
sem guitarra ou violino.” [1]                    
                  
Todavia a solução da adivinha pode envolver mais que um animal, como acontece nesta:  
 
“Quem é quem é
Que canta
Sem ser com a garganta?” [3]                                  

A solução agora é “A cigarra e o grilo” .                               
     
A adivinha pode, de resto, aparentemente envolver cálculo mental:              

“Bão três grilos p’la estrada fora.
Vem um carro mata um.
Quantos ficam?” [9].                             
                   
Naturalmente que a solução é: “Ficou aquele que morreu. Os outros andaram sempre.”                                                                    
No âmbito das alcunhas alentejanas são conhecidas as seguintes:                             
GRILA - A receptora, em criança, andava sempre aos pulos (Barrancos). [12]
GRILA ESPANHOLA – Alcunha outorgada a um individuo que fala muito e é espanholado (Elvas). [12]
GRILO – Designação atribuída a um indivíduo que gosta muito de cantar (Odemira, Portel, Viana do Alentejo, Santiago do Cacém, Almodôvar, Serpa e Grândola). [12]
GRILO – o alcunhado herdou a alcunha da mãe (Borba). [12]
GRILO – O receptor, em criança, tinha o hábito de apanhar grilos (Cuba e Santiago do Cacém). [12]
GRILO – O visado, em criança, sempre que via uma gaiola com grilos à porta de alguém, começava a logo a assobiar (Moura). [12]
GRILO – Os visados são de baixa estatura e muito cantadores (Alandroal). [12]                     
A nível de gíria portuguesa são conhecidos os termos:                                 
“Grilo = Relógio = Apito” [2]    
“Grilo = Telefone = Relógio de bolso = Coração” [11] [8]
“Grila = Ponta de Cigarro = Pirisca” [11] [6]
Finalmente, no sector da toponímia são de assinalar os seguintes topónimos:
- “GRILA – Lugar da freguesia de S. Pedro, concelho da Covilhã.“ [4]
- “GRILO – Freguesia do concelho de Baião.“ [4]
- “GRILO – Lugar da freguesia de Fornos, concelho de Castelo de Paiva.“ [4]
- “GRILO – Lugar da freguesia de S. Vicente do Paul, concelho de Santarém.“ [4]
- “GRILO – Lugar da freguesia de Vale de Figueira, concelho de Santarém.“ [4]
- “GRILOS - Lugar da freguesia Arazede, concelho de Montemor-o-Velho.“ [4]
A TERMINAR
Só os grilos machos produzem sons, o que fazem visando atrair as fêmeas para a reprodução. Para o efeito, possuem uma série de pelos nas bordas das asas, alinhados como pentes, produzindo sons quando roçam uma asa contra a outra. O som emitido tem a frequência de 4 as 5 KHz e pode ser ouvido a quilómetro e meio de distância.
Em muitos paises como Portugal, o grilo sempre foi considerado como animal de estimação, sendo mantido em cativeiro dentro de gaiolas, pelo que como param de cantar quando alguérm se aproxima, funcionam como detectores de ladrões.
A Biblia contém referências ao grilo:
- “Poderão comer toda espécie de gafanhotos e grilos.” [Levítico 11:22]
- “Aí o fogo te devorará, a espada te exterminará; ela te devorará como o gafanhoto, ainda que fosses numeroso como o gafanhoto, e te multiplicasses como o grilo.” [Naum 3:15]
Nalguns países, os grilos são criados em larga escala para serem vendidos como alimento vivo e serem usados como isca em pescarias ou consumido como iguaria em restaurantes exóticos. Pela nossa parte, habituados à excelência da gastronomia alentejana, dispensamos tais iguarias e preferimos ouvir cantar os grilos nos campos e em liberdade, o que é cada vez mais difícil, dado o uso intensivo de pesticidas e herbicidas. A vida está cada vez mais difícil no planeta Terra, mesmo para os grilos.
BIBLIOGRAFIA 
[1] - ARTMUSICA .
[2] - BESSA, Alberto. A Gíria Portugueza. Gomes de Carvalho- Editor. Lisboa, 1901.
[3] – CARDOSO, Fernando. Novíssimas Flores para Crianças. Editora Portugal Mundo.Lisboa,
[4] – FRAZÃO, A. C. Amaral. Novo Dicionário Corográfico de Portugal. Editorial Domingos Barreira. Porto, 1981.
[5] - GUERREIRO, M. Viegas. Adivinhas Portuguesas. Fundação Nacional Para A Alegria No Trabalho. Lisboa, 1957.
[6] – LAPA. Albino. Dicionário de Calão. Edição do Autor. Lisboa, 1959.
[7] - LIMA, Fernando de Castro Pires de. Qual é a coisa qual é ela? Portugália Editora. Lisboa, 1957.
[8] - NOBRE, Eduardo. Dicionário de Calão. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1986.
[11] - PRAÇA, Afonso. Novo Dicionário de Calão. Editorial Notícias. Lisboa, 2001.
[12] – RAMOS, Francisco Martins & SILVA, Carlos Alberto da. Tratado das Alcunhas Alentejanas. 2ª edição. Edições Colibri. Lisboa, 2003.
[13] - ROLAND, Francisco. ADAGIOS, PROVERBIOS, RIFÃOS E ANEXINS DA LINGUA PORTUGUEZA. Tirados dos melhores Autores Nacionais, e recopilados por ordem Alfabética por F.R.I.L.E.L. Typographia Rollandiana. Lisboa, 1841.
[14] - SIMÕES, Guilherme Augusto. Dicionário de Expressões Populares Portuguesas. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1993.    



Gaiolas de bunho, cana e arame (Colecção de Manuela Mendes).

Querem ver um grilo em liberdade?
Querem ouvir um grilo cantar?
Cliquem na imagem abaixo:


Querem assistir a uma caçada aos grilos?
Querem ouvir um grilo cantar?
Cliquem na imagem abaixo: 

 

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Os candeeiros a petróleo (2ª edição)

Esta é a 2ª edição do post OS CANDEEIROS A PETRÓLEO, editado em 27 de Fevereiro de 2010, agora revisto, reformulado e ampliado com apontamentos de literatura oral, bem como pela adição de três novas ilustrações.

Um elegante candeeiro a petróleo.
EU E O PETRÓLEO
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Nascido em 1946, sou duma geração que nasceu e viveu iluminada pelo candeeiro a petróleo. À luz do petróleo se jantava em casa dos meus pais e à luz do candeeiro se seroava e se contavam histórias desse dia e histórias de família, a perder no tempo.
À luz do petróleo aprendi a juntar as primeiras letras, assim como a ler e a escrever.
Os sessenta e três anos que atravessam longitudinalmente a minha vida, levaram-me a conhecer sucessivamente as lâmpadas incandescentes, as lâmpadas de halogéneo, as lâmpadas fluorescentes, as lâmpadas de descarga e os leds.
A minha costela de coleccionador, aliada à necessidade de registar materialmente a memória do passado, levou ao gosto pela iluminária popular, o que se traduziu em ter reunido ao longo dos anos, um razoável conjunto de candeeiros de petróleo. Especímenes diferentes no tamanho, no material (vidro, loiça, metal, mistos), na geometria, na cor do vidro, na decoração, nas chaminés, porém todos eles com um elo comum: o serem candeeiros a petróleo. Este meu gosto pelos candeeiros tem a ver com memórias de infância, nas quais o combustível era para mim o mal amado.
Ainda hoje me lembro do cheiro pestilento a petróleo, que me era assaz desagradável, ao ponto de ainda hoje o ter entranhado nas narinas, talvez por desde sempre ter sido dotado de um razoável faro de perdigueiro.
Deu-se ainda o caso de uma certa vez, aí pelos doze anos de idade, ter esparramado petróleo para cima dos sapatos. Como? A minha mãe mandou-me ao petróleo à drogaria da D. Virgínia, a cerca de vinte metros da casa onde então morávamos na Rua da Misericórdia, em Estremoz. E a garrafa teve que ir embrulhada em papel de jornal, porque ela queria assim e assim tinha que ser. No regresso, já do lado de fora da drogaria, resolvi pegar na garrafa pelo gargalo, mas não sei como é que me arranjei, que quando dei por mim, tinha a rolha e a o papel de jornal na mão direita. A garrafa, farta de me estar nas mãos, libertara-se do meu jugo e armada em S. João Baptista, baptizara-me os sapatos, que assim ficaram bentos para o resto da vida. Todavia, fiquei dispensado de os usar, enquanto estes retiveram os odores nauseabundos do seu baptismo forçado. O que não fiquei livre, foi de ter de ir logo de seguida, comprar novamente petróleo à mesma drogaria. E que julgam? Mais uma vez numa garrafa embrulhada em papel de jornal. Porém, desta feita, com uma séria advertência:
- "Vê lá bem o que fazes! "
Bom, mas então tive mais sorte e tal como uma formiga no carreiro, lá fui direitinho a casa, onde cheguei vitorioso com a garrafa incólume, toda embrulhadinha como a minha mãe gostava. Pude então mudar de sapatos e lavar os pés com sabão azul e branco. Num alguidar de zinco, é claro. Porque nessa época, banheiras e bidés só na casa de ricos.
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EDISON E OS CANDEEIROS A PETRÓLEO
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Mais tarde, vim a perceber porque é que Thomas Edison (1847-1931), o mais prolífico dos inventores americanos, entre as 1093 patentes das suas descobertas, incluía a lâmpada eléctrica de incandescência, mostrada ao público em 31 de Dezembro de 1879, no seu laboratório em Nova Jersey. É que sendo o filho mais novo de uma família de sete irmãos, enquanto rapaz tinha a seu cargo a manutenção dos candeeiros de petróleo lá de casa, tarefa para si abominável. Lá diz o rifão: “A necessidade é mestra de engenho”. Como eu o compreendo: atestar os depósitos com o líquido de execrável cheiro, aparelhar as torcidas, limpar as chaminés enegrecidas pelo fumo, era, de facto, uma tarefa desagradável.
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OS CANDEEIROS NA LITERATURA ORAL
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Liberto de ir ao petróleo mal-amado, comecei por me apaixonar primeiro pelo coleccionismo de candeeiros e depois já arqueólogo da oralidade da língua e da literatura portuguesas, tornei-me colector de registos presenciais dos candeeiros nos diversos géneros de literatura popular. No que respeita à presença dos candeeiros no adagiário português, esta é algo escassa:
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- “Agosto, candeeiro posto. “
- “Em Agosto candeeiro posto. “
- “Em Setembro palha no palheiro e meninas ao candeeiro. “
- “O pé do candeeiro é o pior iluminado. “
- “Um bom companheiro alumia como um candeeiro. “
- “Um bom conselheiro alumia como um candeeiro.”
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O mesmo se passa com o seu registo no cancioneiro popular, algumas vezes associado ao amor:
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“Candeeiro ao meio da sala,
Alumia os quatro cantos,
Meu amor, a tua fala
dá por aí dias santos.” [8]
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“Candeeiro, que estás tão alto,
Desce e vem para baixo.
O meu par é pequenino,
Já sei que o perco aqui.” [2] - Cantiga de pé-quebrado – Vale de Santiago-Odemira.
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O candeeiro aparece ainda comparado ao astro rei:
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“Alumiar duas salas
Como pode um candeeiro?
Também o Sol sozinho
Alumia o dia inteiro.” [2] - Beja
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Aparece igualmente em composições de escárnio e mal dizer:
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“Cala-te ahi bocca aberta,
Rodilha de candeeiro,
Tens-te por espertalhão,
Tu és um pantomineiro.” [6]
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Os candeeiros estão igualmente presentes no corpo de adivinhas portuguesas, cuja solução é, como não podia deixar de ser, o candeeeiro:
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"Burro de ferro
Albarda de linho
Tic tic como um passarinho.” [9]
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“Qual é coisa, qual é ela, que tem um furo e não rebenta?” [9]
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No domínio das alcunhas alentejanas são conhecidas as seguintes:
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- CANDEEIRO = Alcunha outorgada a um indivíduo que é proprietário dum café homónimo (Alter do Chão). [7]
- CANDEEIRO DAS CABANAS = designação atribuída a um indivíduo que é trigueiro (Moura). [7]
- CANDEEIRO DE BOLA = O visado recebeu esta designação porque é alto e tem a cabeça muito redonda (Ourique). [7]
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No âmbito da toponímia são de registar os seguintes topónimos:
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- "CANDEEIRA – Lugar da Freguesia de Avelã de Cima, concelho de Anadia." [3]
- "CANDEEIRA - Lugar da Freguesia de Ribeirão, concelho de Vila Nova de Famalicão." [3]
- "CANDEEIRA – Lugar da Freguesia de Sandim, concelho de Vila Nova de Gaia." [3]
- "CANDEEIROS – Lugar da Freguesia de Benedita, concelho de Alcobaça." [3]
- "CANDEEIROS – Serra com 487 metros de altitude e que abrange os concelhos de Rio Maior, Alcobaça e porto de Mós." [3]
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NOTA FINAL
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Que ninguém fique com a ideia errada de que a substituição do candeeiro a petróleo pela lâmpada eléctrica, empobreceu a literatura oral. Pelo contrário, dado o seu carácter dinâmico, esta não deixa de registar o aparecimento de inovações tecnológicas, o que se traduz afinal num enriquecimento da própria literatura oral. Nesse contexto de inovação tecnológica, exemplificamos com uma adivinha, cuja solução,é obviamente a lâmpada eléctrica de incandescência:
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- “O que é, que tem a barriga de vidro e a tripa de arame?” [4]
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BIBLIOGRAFIA
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[1] – DELGADO, Manuel Joaquim Delgado. Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo. Vol. I. Instituto Nacional de Investigação Científica. Lisboa, 1980.
[2] - DELICADO, António. Adagios portuguezes reduzidos a lugares communs / pello lecenciado Antonio Delicado, Prior da Parrochial Igreja de Nossa Senhora da charidade, termo da cidade de Evora. Officina de Domingos Lopes Rosa. Lisboa, 1651.
[3] – FRAZÃO, A. C. Amaral. Novo Dicionário Corográfico de Portugal. Editorial Domingos Barreira. Porto, 1981.
[4] - LIMA, Fernando de Castro Pires de. Qual é a coisa qual é ela? Portugália Editora. Lisboa, 1957.
[5] – MEADOWCROFT, Enid Lamonte. Edison.7ª edição. Livraria Civilização. Porto 1981.
[6] - PIRES, A. Thomaz. Cantos Populares Portugueses, vol. IV. Typographia e Stereotypia Progresso. Elvas, 1910.
[7] – RAMOS, Francisco Martins & SILVA, Carlos Alberto da. Tratado das Alcunhas Alentejanas. 2ª edição. Edições Colibri. Lisboa, 2003.
[8] - SANTOS, Victor. Cancioneiro Alentejano – Poesia Popular. Livraria Portugal. Lisboa, 1959.
[9] TOPA, Francisco. “ADIVINHAS — Duas colecções particulares da primeira metade do século” in Encontros, n.º 1. Sociedade de Estudos e Intervenção Patrimonial. Porto, 1995.



Parte da minha colecção de iluminária popular, com os candeeiros a petróleo à esquerda.

Edison assegurando a manutenção dos candeeiros de petróleo da casa de seus pais. Ilistração de Harve Stein para o livro [5] citado na bibliografia.
  
Uma moderna lãmpada de incandescência.