domingo, 12 de dezembro de 2010

Arte Popular Alentejana - O dançarino


Os rituais animistas das sociedades primitivas utilizavam fantoches, que eram considerados objectos sagrados e personagens intermediárias entre essas sociedades primitivas e os seus deuses. O fantoche conferia poder divino ao personagem, pelo que a sua manipulação estava reservada exclusivamente aos iniciados que iriam participar na cerimónia com uma dramaturgia simbólica.
Em todas as civilizações, os fantoches têm desempenhado os seus papéis, a sua tipologia tem evoluído e os reportórios têm sido alterados e aumentados.
Não se deixando nunca fixar no seu passado, os fantoches têm uma grande história. Porém, uma coisa mantiveram sempre, o ritual da alegria colectiva, os espectáculos de rua, nos adros das igrejas, nas feiras, nos jardins, nas praias, nos pátios, nas tabernas.
O dançarino, brinquedo popular alentejano destinado a animar grupos de pessoas ao serão ou em festas, pode ser englobado na categoria dos fantoches. O que apresentamos foi comprado no mercado das velharias em Estremoz e passamos de imediato a descrevê-lo.
5,5 x 2 x 21 cm. Tronco de cortiça. Cabeça e membros articulados em madeira de oliveira, que é a que melhor som produz sobre a base que funciona como piso de dança. Boa expressão facial. Cor do vestuário evocando as cores, verde e rubra da bandeira republicana.
Manipulação horizontal ao nível do manipulador, o qual segura uma vara de madeira que encaixa pela retaguarda no orifício do centro do peito. O manipulador senta-se em cima duma tábua que fica com uma das extremidades livres e assenta os pés do fantoche em cima da tábua. Seguidamente imprime pancadas na tábua com o ritmo desejado, o que a faz vibrar e saltitar o boneco.
Nos montes alentejanos, a manipulação era feita pelo chefe da família para entreter os filhos pequenos, o que acontecia quando regressava do trabalho ou ao serão, à luz da candeia ou do candeeiro a petróleo.
Era uma das maneiras de encurtar as noites no tempo em que se seroava e as mulheres faziam malha ou arranjavam a roupa e alguém evocava os antepassados falecidos ou os familiares ausentes. Era o tempo da tradição oral, em que os serões eram usados para passar aos mais novos o testemunho do património cultural oral colectivo: histórias, adivinhas, lenga-lengas, provérbios, superstições, rezas e benzeduras, canções, etc. Havia tempo para os pais falarem com os filhos. A educação era feita no seio da família e o pai e a mãe tidos como modelos a seguir.
Lembro-me de nos anos 50 do século passado ter visto numa taberna em Estremoz, um popular que ao mesmo tempo que numa gaita-de-beiços trauteava um fandango, punha um fantoche destes a dançar a música que tocava. Depois da actuação, havia sempre alguém que lhe pagava um copo.


A manipulação pode envolver dois bailarinos postados frente a frente. Na figura, manipulação por Rui Alves e Fotografia de Vítor Cid, obtida após o petisco de Páscoa, em Estremoz.  Como diz o Rui, no final das "comidas e buídas" houve "balho".

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Gíria portuguesa ilustrada - 1

Ao longo do tempo tem aumentado o acervo daquilo que vulgarmente é designado por "frases feitas", "locuções populares", "expressões idiomáticas", "calão" ou "gíria".  A vastidão do seu conjunto muito tem contribuído para o reforço da chamada "literatura oral".
Sem preocupações metodológicas, começaremos hoje a abordar alguns desses termos da gíria portuguesa, ao mesmo tempo que os procuraremos ilustrar com a imagem julgada adequada. 

 A terra lhe seja leve = Referência a alguém que morreu
Enterro de camponês - Gravura do artista plástico brasileiro Abelardo da Hora (1924-  ).

Alma do padeiro = A parte oca do pão
Pão alentejano - Selo de 0,80 € emitido pelos correios portugueses
em 2010 e que integra a série “Pão Tradicional Português".

Às carradas = Em grande quantidade
Carros de bois alentejanos com trigo para a eira.
Cliché de bilhete-postal ilustrado do início do século XX 
(Edição de Faustino António Martins – Lisboa).


Às mijinhas = Em pequenas quantidades
Criança a urinar para o pneu dum automóvel.

Até ao lavar das cestas é vindima == Até ao fim as coisas podem modificar-se
Vindima - Estação da CP do Pinhão. Painel que integra um conjunto de 24 painéis de azulejos, ligados à temática do vinho do Porto. Obra do pintor ceramista João Oliveira, datada de 1937 e produzida na Fábrica Aleluia, de Aveiro.
Até chegar a mulher da fava rica == Referência a algo que demora muito
Vendedora ambulante de fava rica - Fotografia de autor não identificado, com negativo de gelatina e prata em vidro (9 x 12 cm) - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa.
Até lá, muita água passará debaixo da ponte =
= Muita coisa poderá acontecer até que se verifique determinado facto.
Bilhete-postal ilustrado publicitário do vinho do Porto “Adriano Ramos Pinto, do início do séc. XX.
Com punhos de renda = Delicadamente
Retrato de Carlos III de Espanha (1716-1788) aos onze anos (1727). Obra do pintor francês JEAN RANC (1674, 1735), existente no Museu do Prado (Madrid).

De braços cruzados = Inactivo
Cena de "Braços cruzados máquinas paradas", documentário de 1978, que acompanha a pioneira onda grevista de 1978 nas fábricas metalúrgicas de São Paulo (Brasil).


BIBLIOGRAFIA

[1] - BESSA, Alberto. A Gíria Portugueza. Gomes de Carvalho- Editor. Lisboa, 1901.
[2] – LAPA. Albino. Dicionário de Calão. Edição do Autor. Lisboa, 1959.
[3] – NOBRE, Eduardo. Dicionário de Calão. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1986.
[4] – PRAÇA, Afonso. Novo Dicionário de Calão. Editorial Notícias. Lisboa, 2001.
[5] – SANTOS, António Nogueira. Novos dicionários de expressões idiomáticas. Edições João Sá da Costa. Lisboa, 1990.
[6] – SIMÕES, Guilherme Augusto. Dicionário de Expressões Populares Portuguesas. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1993.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Lançamento da 2ª edição do livro "Bonecos da Gastronomia"

Hernâni Matos no acto de lançamento do livro "Bonecos da Gastronomia". Vísível ao fundo, parte da colecção de trinta e seis bonecos que deram origem ao livro (Fotografia de José Cartaxo). 

2ª EDIÇÃO DO LIVRO "BONECOS DA GASTRONOMIA"
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Desde a passada quarta-feira e até ao próximo domingo que está a decorrer, em Estremoz, a XVIII Cozinha dos Ganhões, a Sé Catedral da Gastronomia do Sul, onde se honram ancestralidades de sabores, odores e cores. Mas, para além do corpo, a alma também manja. Daí que tenha aproveitado este festival gastronómico para proceder ao lançamento da 2ª edição do livro “Bonecos da Gastronomia”, o que aconteceu a meio da tarde de quarta-feira, dia 1 de Dezembro, no Pavilhão B do Parque de Feiras.
O livro, surgiu na sequência de um registo e de uma reflexão pessoal sobre os bonecos de Estremoz, esses ex-líbris do nosso património cultural local.
O livro aborda a gastronomia alentejana e a barrística popular estremocense, muito em particular, aquela que deu o título ao livro. Para este, as Irmãs Flores, afamadas barristas de Estremoz criaram com a magia das suas mãos e o fascínio das suas cores, 36 figuras que são reproduzidas noutras tantas fotografias de José Cartaxo, fotógrafo com créditos bem firmados. Sobre essas figuras, o poeta António Simões, como é seu timbre, poetizou duma forma magistral sob a forma de quadras, o retrato contextual de cada uma das figuras saídas das mãos das barristas Irmãs Flores.
O livro, brochado, de 66 páginas formato A4, em papel Xerox Colotech, de 90 gramas, inclui 38 fotografias a cores e 6 fotografias a preto e branco.
A edição é da Associação Filatélica Alentejana e a tiragem é de 200 exemplares.
Os bonecos que foram objecto da presente edição estão expostos no átrio da entrada principal da Cozinha dos Ganhões.
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A MINHA PAIXÃO PELOS BONECOS
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Desde os dez anos de idade que transporto na massa do sangue o espírito de coleccionador, facto tão real como o odor da flor de esteva ou o castanho da terra de barro.
Uma das coisas que colecciono é os bonecos de Estremoz, os quais descobri há cerca de trinta anos, fruto de uma emoção com um misto de estético e de sociológico. Bonecos que duplamente têm a ver com a nossa identidade cultural estremocense e alentejana, bonecos que antes de tudo são arte popular, naquilo que de mais nobre, profundo e ancestral, encerra este exigente conceito.
Bonecos moldados pelas mãos do povo, a partir daquilo que a terra dá - o barro com que porventura Deus terá modelado o primeiro homem e as cores minerais já utilizadas pelos artistas rupestres de Lascaux e Altamira no Paleolítico, mas aqui garridas e alegres, como convém às claridades do Sul.
Na minha condição de etnólogo amador e autodidacta, o registo etnográfico das imagens profanas e em particular dos personagens da faina agro-pastoril, será porventura, o mais forte atractivo dos bonecos de Estremoz, que me leva à oficina-loja das irmãs Flores, duas barristas minhas vizinhas, a quem visito amiúde no Largo da República, em Estremoz, fascinado pela magia emergente das suas mãos de barristas populares.
Como fruto de uma dessas incursões realizada há cerca de dois anos, resultou o livro “Bonecos da Gastronomia”, dado à estampa em 2009, numa edição da Câmara Municipal de Estremoz, por ocasião da XVII Cozinha dos Ganhões.
Nessa edição, está reunido um conjunto de 16 bonecos que de uma forma ou de outra têm a ver com a gastronomia alentejana. Alguns já pertenciam à galeria tradicional dos bonecos de Estremoz. Porém, cinco novos bonecos foram criados pelas Irmãs Flores: Coqueira, Queijeira, Mulher a cozinhar, Padeiro e Vendedora de queijos.
A materialização do livro foi possível graças ao companheirismo do poeta António Simões, das barristas Irmãs Flores, do fotógrafo José Cartaxo e do designer Carlos Alves. A concretização duma ideia inicial minha, encheu-nos a todos de imenso júbilo e desde logo foi equacionado como virtual, o desenvolvimento mais aprofundado dessa ideia.
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A CAMINHADA CONTINUA
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Decorrido um ano sobre a primeira edição do livro “Bonecos da Gastronomia”, reconheço que este começou por ser um trabalho de base. Daí que numa primeira fase tivesse concluído que o conjunto dos dezasseis bonecos que figuraram na primeira edição do livro, pudesse ser estruturado, agrupando-os em cinco subconjuntos perfeitamente hierarquizados: Recolha de matérias-primas, Preparação de matérias-primas, Confecção de alimentos, Venda e distribuição de alimentos e finalmente: Consumo de alimentos.
Numa segunda fase, efectuei o levantamento do que podia ser acrescentado a cada subconjunto, visando torná-lo mais completo. Depois de alguma reflexão, os “Bonecos da Gastronomia”, passaram a ser em número de trinta e seis, tendo sido introduzidos vinte e um novos bonecos e abandonado outro. Desses vinte e um bonecos, sete já pertenciam à galeria tradicional dos bonecos de Estremoz. Os restantes catorze foram criação das Irmãs Flores. São eles: Azeitoneira, Caçador, Pescador, Roupeiro, Amassadeira, Forneira, Pisador, Manteeiro, Aguadeira da ceifa, Vendedora de criação no mercado, Taberneiro, Mondadeira a comer, Mulher ao poial dos cântaros e Homens a petiscar.
Nessa criação, efectuada com um severo respeito pela tradicional técnica de manufactura dos bonecos de Estremoz, foi por vezes utilizada documentação do meu arquivo fotográfico, o que permitiu conferiu rigor à contextualização de cada peça.
Com a criação de novos modelos, a galeria de bonecos de Estremoz ficou mais rica. O tempo e a procura dos coleccionadores, encarregar-se-ão de os consagrar. Pela nossa parte, prometemos prosseguir.

O Arquitecto José Augusto Trindade, Vereador do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Estremoz, no uso da palavra (Fotografia de José Cartaxo).
Hernâni Matos e o poeta António Simões, autografando o livro. À direita a Arquitecta Sílvia Dias, Vereadora do Pelouro de Feiras e Mercados da Câmara Municipal de Estremoz (Fotografia de José Cartaxo).
Capa do livro.
Ceifeira.
Azeitoneira.
Vindimadora.
Caçador.
Pescador.
Matança do porco
Mulher  a encher chouriços.
Preta a encher chouriços.
Roupeiro.
Amassadora.
Forneira.
Pisadores.
Pastor a fazer as migas.
Pastor cansado.
Coqueira.
Cozinheira.
Castanheira.
Moleiro.
Manteeiro.
Aguadeira da ceifa.
Aguadeiro da cidade.
Leiteiro.
Padeiro.
Queijeira.
Mulher a vender chouriços.
Hortelão.
Mulher dos borregos.
Mulher dos perus.
Mulher a vender criação no mercado.
Taberneiro.
Pastor a comer as migas

Pastor e ajuda a comer.

Cozinha dos ganhões.
Mondadeira a comer.
Mulher ao poial dos cântaros.
Homens a petiscar.