sexta-feira, 30 de abril de 2010

1º de Maio de 1974 - O povo saiu à rua




Na sequência do movimento das Forças Armadas de 25 de Abril,
decretou a Junta de Salvação Nacional feriado obrigatório o primeiro
 de Maio, considerado o dia do trabalho e, consequentemente, dia de
festa para todos os trabalhadores. Festa muito especial, este ano, porque
com ela se quis assinalar o triunfo das Forças Armadas. Por todo o pais
se realizaram manifestações populares de apoio à Junta de Salvação
 Nacional, umas - caso de Lisboa - organizadas pelos Sindicatos, outras -
 como em Estremoz - promovidas pelo Movimento Democrático. 
Uma profusão de programas e cravos vermelhos, que se viam, desde
manhã, em muitas  mãos e muitas lapelas, despertou grande parte da
população para a manifestação, anunciada para as 16 horas. 
E, perto da hora marcada, começou a concentração no nosso vasto
Rossio Marquês de Pombal, habitual cenário das mais variadas
manifestações festivas, políticas e religiosas. 
Ali se reuniram muitas centenas de pessoas de todas as idades,
condições e matizes, para ouvirem os esperados discursos e,
através deles, tomarem posição frente aos acontecimentos e
face às anunciadas linhas de orientação politica que vão presidir
aos destinos do país e dos cidadãos. Junto à comissão local
organizadora da manifestação, via-se o sr. Capitão Luís Fernando
de Andrade Moura, que comandou o Esquadrão de Cavalaria 3,
cuja intervenção no levantamento de 25 de Abril se tornou notória.
Presentes, também estandartes de colectividades locais e … 
 … inúmeros cartazes, nos mais variados tons, desde os da exaltação ao
movimento  das Forças Armadas até aos de significado reivindicativo.
Fizeram uso da palavra vários oradores, o primeiro do o quais o invisual
Joaquim Cardoso, da freguesia de Arcos, professor na Escola Secundária
Polivalente de Estremoz, seguindo-se-lhe o dr. António João Vestia da Silva,
da freguesia de São Domingos e a exercer advocacia na nossa cidade, o
ex-preso político Piteira, que disse ter saído naquele dia do presídio da
Trafaria, o estremocense Rui Manuel Zagalo Pacheco, o dr. António 
Inocêncio Amaro Simões e Raul Bernardo Manuel Júnior, ambos professores
na Escola Técnica de Estremoz, o democrata de Évora António Manuel
Murteira e o jovem, eborense também, conhecido pelo “Pãozinho”,
do movimento estudantil democrático daquela cidade. 
Um dos oradores pediu um minuto de silêncio em homenagem à
memória de quantos morreram pela pátria e pela liberdade. 
Terminada a série de discursos, os manifestantes desfilaram pelo Rossio e… 
…Rua 5 de Outubro, a caminho do quartel do Regimento de Cavalaria 3,
frente ao qual se repetiram as manifestações de apoio às Forças Armadas
e Junta de Salvação Nacional.

BIBLIOGRAFIA
- Fotos de Olímpio Ferreira. Arquivo de Hernâni Matos. 
- Jornal "Brados do Alentejo"de 5 de Maio de 1974.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Defesa do Património


Largo do Espírito Santo – pormenor do prédio derrocado – Foto de José Cartaxo - Maio de 2009.

O editorial do Boletim da LINCEMOZ do 1º trimestre de 2010, subscrito pelo Presidente da Direcção Rodrigo André, aborda o assunto em epígrafe.
Começa por constatar o abandono de parte do nosso património arquitectónico e entende e muito bem que são situações que urge eliminar.
E o que propõe? “…disponiblizar-se para, em conjunto com outras Associações, Entidades públicas ou privadas, estabelecer parcerias no intuito de abordar esta temática de uma forma séria visando a maior eliminação possível das situações atrás citadas”.
Para tal, Rodrigo André diz que: “Além de alguns contactos que vamos efectuar, estamos obviamente abertos à participação de todos os que pensam como nós e estejam dispostos a ajudar a encontrar soluções que evitando maior degradação do nosso património, proporcionarão uma beleza ainda maior da nossa terra.”
Para além da boa vontade de Rodrigo André, temo que a tomada desta iniciativa possa ser o princípio de coisa nenhuma.
Com efeito, apesar da respeitabilidade que me merece a LINCEMOZ como Liga dos Naturais e Amigos do Concelho de Estremoz, dado o seu carácter generalista, não acredito que ela seja capaz de levar a bom porto, pelos meios que indica, a Defesa do Património do nosso Concelho.
A Defesa do Património para além de ser uma competência de certos serviços do Estado e das Autarquias é feita desde sempre por Associações de Defesa do Património local, que congregam cidadãos que nelas participam cívica e voluntariamente.
Em Évora, desde 1919 que existe e está activo o Grupo Pro-Évora, uma Associação de Defesa do Património, cuja acção foi decisiva numa época em que se assistia à mutilação das características históricas mais relevantes daquela urbe. A Câmara Municipal de Évora desenvolveu, de resto, um trabalho notável, pelo que a classificação do Centro Histórico de Évora como Património Cultural da Humanidade pela UNESCO, em Novembro de 1986, foi como dizem os seus responsáveis “o corolário de um longo caminho tendente a salvaguardar o conjunto edificado da cidade intramuros”.
Em Estremoz, se a memória não me atraiçoa, desde os anos sessenta do século passado, que existe o “Grupo dos Amigos de Estremoz”, uma Associação de Defesa do Património Natural e Cultural, cujos Estatutos nos dizem no seu ARTIGO 2°:
“O Grupo de Amigos de Estremoz propõe-se promover e fomentar o progresso moral, artístico e material desta cidade e seu concelho, utilizando para tal efeito todos os meios que se lhe afigurarem pertinentes a tais fins:
a) promover a defesa e conservação do meio ambiente nos aspectos paisagísticos, monumentais, artísticos e outros que mais o caracterizam e individualizam;
b) promover e restaurar costumes, tradições, festas, feiras e romarias com características locais e regionais;
c) promover a valorização urbanística da cidade e seu termo no respeito pelos valores herdados ao longo de séculos;
………
f) auxiliar os organismos oficiais em todas as iniciativas que possam contribuir para o engrandecimento de Estremoz, fazendo-o sempre com o mais rasgado espírito de cooperação;”
Tenho fortes indícios de que actualmente o Grupo de Amigos de Estremoz está inactivo, como aconteceu de resto a outras agremiações da nossa terra, fruto de vicissitudes diversas.
Tenho também plena convicção de que é a uma Associação de Defesa do Património, como associação cultural especializada que compete a Defesa do Património. Para isso tem que ter credibilidade e respeitabilidade pela massa crítica dos seus membros e dirigentes, a qual para além do cidadão comum mobilizado por causas cívicas, deve incluir “gente que percebe da poda”, isto é de Património. Isto é, cidadãos e cidadãs que percebam de Legislação, de Arquitectura, de Engenharia, de História, de Etnologia, de Arte, de Ambiente, de Sociologia e de muitas outras valências. São eles que poderão fazer a diferença, que darão, de certo, um contributo válido, numa altura e num processo, em que são insuficientes os palpites e as emoções, quando se precisam argumentos com a força da razão, para repor as coisas afastados do seu devido curso.
De certo, que o cimento, algum poder, alguns poluidores e outros prevaricadores, não gostarão que se vá por aí. Mas esse é o papel de uma Associação de Defesa do Património, o de despertar, mobilizar e unificar consciências para que na diversidade democrática das nossas consciências, não continuemos na paz podre do deixa andar, da insensibilidade perante aquilo que alguns nos querem fazer acreditar como sendo inevitável.
Não existem fatalidades quando estamos armados com mais valias como a consciência cívica, a mobilização, a informação, o conhecimento e a determinação. Então, será possível a Defesa do Património. É um caminho que não será fácil, que terá os seus espinhos, mas por isso terá mais valor cada uma das pequenas conquistas que formos conseguindo, até termos credibilidade e respeitabilidade. Essa a minha proposta num sentido dum debate público sobre o tema em epígrafe. Essa uma proposta alternativa à metodologia defendida pelo Rodrigo André.
Confronto de ideias é o que se precisa e se me permitem uma opinião, eu proclamo:

- NÓS QUEREMOS UMA ASSSOCIAÇÃO DE DEFESA DO PATRIMÓNIO JÁ!

domingo, 25 de abril de 2010

Abril de 1974 - Estremoz presente na Hora da Libertação


À frente da coluna, o Comandante do Esquadrão, Capitão Andrade Moura.

O derrube da ditadura mais velha da Europa – o regime de Salazar e de Caetano - foi conseguido em 25 de Abril de 1974, graças à acção militar coordenada do Movimento das Forças Armadas – MFA, cuja origem remonta ao clima de instabilidade no interior das próprias forças armadas, particularmente do Exército, instabilidade essa que se manifestou em meados de 1973, com o surgimento do denominado Movimento dos Capitães, o qual aglutinava oficiais de média patente, insatisfeitos com as suas remunerações e com a perda de prestígio da oficialidade do quadro permanente, bem como com a Guerra Colonial, que desde 1961 ou seja há 13 anos, se arrastava em 3 frentes, sem se antever uma solução política para a mesma, bem como pela previsibilidade de uma derrota militar eminente.
COMO ERA PORTUGAL, ANTES DO 25 DE ABRIL DE 1974?
- O serviço militar durava quatro anos;
- Rara era a família que não tinha alguém a combater em África;
- Grosso modo, Portugal, com 10 milhões de habitantes, fizera um esforço de guerra em África cerca de nove vezes superior ao dos EUA, no Vietname, com os seus 250 milhões de habitantes;
- Portugal mobilizara para a guerra colonial mais de 800 mil jovens, teve 8 mil mortos, 112.205 feridos e doentes, 4 mil deficientes físicos e estima-se que cerca de 100 mil doentes de stress de guerra;
- 40% do Orçamento de Estado destinava-se à Defesa;
- A isto há que acrescentar a saída para os países ricos da Europa de milhão e meio de emigrantes entre 1960 e 1974;
- Os ordenados eram de miséria, sem direito a subsídios de férias e de Natal;
- Os sindicatos corporativos estavam fortemente controlados pelo regime;
- O despedimento de trabalhadores estava facilitado;
- Havia 21% de analfabetos e a vida cultural era apertadamente vigiada;
- As mulheres tinham menos direitos que os homens;
- As professoras primárias tinham de pedir autorização para casar, que só era concedido se o pretendido tivesse um ordenado igual ou superior ao da mulher;
- As mulheres precisavam de autorização do marido para poderem ser comerciantes, para arrendarem uma casa e para viajar para o estrangeiro;
- Os partidos e movimentos políticos estavam proibidos;
- Partidos políticos só havia um, a União Nacional – o partido do Governo;
- Os líderes oposicionistas como Mário Soares, Manuel Alegre ou Álvaro Cunhal, encontravam-se exilados;
- Reuniões só com autorização do Governo;
- Nas eleições só podiam votar os chefes de família, com um grau de instrução mínima e rendimentos. Assim ficavam de fora as mulheres, os analfabetos e os pobres. E tudo isto numa farsa de eleições onde, no recenseamento, eram logo excluídos dos cadernos eleitorais os opositores ao regime e depois, nas próprias eleições, se manipulavam e falsificavam os votos;
- A expressão pública de opiniões contra o regime e contra a guerra era severamente reprimida pela Cesura e pela polícia política, a PIDE que gozava de plenos poderes;
- A censura e a Pide controlavam os jornais, a rádio e a televisão e impediam-nos de ler, de ouvir ou ver tudo aquilo que pusesse em causa o regime ou que era considerado por eles, os bons costumes;
- Trabalhar na função pública, só com declaração de fidelidade ao regime vigente e a aprovação da PIDE;
- As prisões políticas estavam cheias;
- A PIDE, responsável por 80 assassinatos, prendeu, entre 1960 e 1974, cerca de 50 mil pessoas;
- Muitos dos presos políticos eram torturados e condenados com as chamadas medidas de segurança, isto é, terminada a pena de prisão, a PIDE podia mantê-los na prisão, sem novo julgamento, por períodos prorrogáveis até 3 anos, o que podia equivaler a prisão perpétua. Para ajudar a condenar estas pessoas existiam os tribunais plenários que só julgavam, sem efectivas garantias de defesa, os presos políticos;
- As greves estavam proibidas e eram consideradas crime;
Assim, dá para perceber, porque é que a acção militar do MFA foi apoiada maioritariamente pelo povo português que saiu à rua e apoiou a movimentação militar contra um regime politico que vigorava autocraticamente há 48 anos.
E COMO FOI A PARTICIPAÇÃO DO REGIMENTO DE CAVALARIA 3 NOS ACONTECIMENTOS DO 25 DE ABRIL DE 1974?
O RC3 de Estremoz tinha à data dos acontecimentos do 25 de Abril, quadros que haviam regressado da Guiné, nos finais do ano anterior. A unidade propriamente dita, era uma das mais bem equipadas do sul do país. Era sem sombra de dúvida, a mais forte em termos de material blindado, pelo que o comando do Movimento contava decisivamente com ela para o êxito da acção.
É no próprio dia de arrancar com a acção que os capitães Andrade Moura, Alberto Ferreira, Miquelina Simões, Major Fernandes Tomaz e outros conseguem conquistar para a sua causa o comandante da unidade, coronel Caldas Duarte.
E quando a rádio passa conforme combinado, a canção “Grândo!a Vila Morena" de Zeca Afonso, inicia-se de imediato no quartel do RC3, sob o comando do capitão Andrade Moura, a formação do esquadrão que vai participar na acção militar, carregam-se munições nos blindados e prepara-se a saída.
Logo que armado e municiado, o esquadrão fez-se à estrada. Em viatura civil, à frente dos batedores, ia o capitão Miquelina Simões e outro oficial. Alguns quilómetros atrás, o esquadrão sob o comando do capitão Andrade Moura e como adjunto o capitão Alberto Ferreira. No final da coluna seguiam viaturas Berlier com munições, água, combustível e óleo. Na acção participa o comandante da unidade, coronel Caldas Duarte.
O esquadrão do RC3, partido de Estremoz tinha a missão de se dirigir a Caxias a fim de libertar os militares e os presos políticos ali detidos. Quando está na zona da Ponte Salazar, o comando do MFA decide alterar a missão, dando ordens para que o esquadrão do RC3 se dirigisse para o Largo do Carmo, em Lisboa, onde um esquadrão da Escola Prática de Cavalaria sob o comando do capitão Salgueiro Maia estava a ser pressionado por numerosas forças da GNR, fieis ao regime. O esquadrão do RC3 atravessa a ponte a toda a velocidade e com determinação e jogando com o factor surpresa, apanha completamente desprevenidas as Forças da G.N.R., que se vêem de repente cercadas por um anel blindado. Na sequência deste envolvimento, um oficial da GNR dirige-se ao esquadrão do RC3 para dialogar, a fim de evitar um derramamento de sangue. O capitão Andrade Moura exige então a retirada em boa ordem das forças da GNR que não tinham aderido ao movimento, o que aconteceu cercas das duas horas da tarde de 25, enquanto o RC3 impede qualquer reacção hostil às forças da GNR. O RC3 isola então completamente a área frente ao Quartel do Carmo, ocupada pelo esquadrão do capitão Salgueiro Maia. Mais tarde verifica-se a rendição do Chefe do Governo, Marcelo Caetano, aí refugiado, ao General António de Spínola.
Entretanto os populares, com especial destaque para estudantes universitários tinham iniciado a caça ao Pides. Estes encurralados na sede da Rua António Maria Cardoso, abrem fogo sobre a multidão que se aglomera na referida artéria, causando 4 mortos e dezenas de feridos.
O capitão Moura alertado para o facto, divide as forças de que dispunha e segue com uma coluna para aquele local, cercando a sede da polícia política onde conforme se soube posteriormente estavam cerca de 250 Pides barricados, oferecendo resistência às forças do exército. O capitão Moura, com prudência, a fim de mais uma vez evitar derramamento de sangue na tentativa da tomada da sede da Pide de assalto, exige a sua rendição, o que não se processa logo, tendo o capitão Moura solicitado um reforço de homens ao comando do MFA, que para ali enviou um destacamento de fuzileiros especiais, que chegaram cerca das duas horas da madrugada do dia 26 de Abril.
Só cerca das 9 horas e 30 minutos da manhã de 26, após 12 longas horas de espera, se dá a rendição da polícia politica, ao longo das quais foi necessária a intervenção junto dos populares, recomendando prudência e civismo, a fim de evitar uma chacina de grandes proporções se os populares tivessem concretizado um pretendido ataque às instalações onde os pides estavam barricados.
Pelas 13 horas do dia 26 de Abril, iniciar-se-ia a libertação dos presos políticos nas cadeias de Caxias e Peniche.
Terminada a missão o esquadrão do RC3 seguiu para o Regimento de Cavalaria 7 sob os aplausos da multidão e restava o regresso a Estremoz, o que fez desempenhando nova missão, a de escoltar até Évora o novo comandante da Região Militar Sul, Coronel Fontes Pereira de Melo, daí o regresso o regresso por Évora Monte e a entrada pelas portas de Santo António, até ao quartel do regimento onde o esquadrão do RC3 cumprida a missão que o levara a Lisboa é aclamado pela multidão entusiasmada e recebe honras militares.
Estremoz estivera presente na hora da libertação através do papel determinante desempenhado pelo RC3, no desenrolar dos acontecimentos. De resto, o estremocense general António de Spínola era o Presidente da Junta de Salvação Nacional já apresentada à Nação através da RTP.
E EM ESTREMOZ?
Em Estremoz, no dia 25 de Abril de 1974 a população acordara alvoraçada com as notícias do que se passara e já sabia que uma coluna do RC3 marchara de madrugada sobre Lisboa e tomara parte activa nos acontecimentos. Reacções de júbilo da maioria, outros nem tanto. Uma procura ávida de informação através da rádio e da televisão e uma corrida aos jornais, para saber notícias frescas. Contrariando as recomendações da Junta de Salvação Nacional, o comércio não fechou, o que só aconteceria com algumas agências bancárias.
E A NÍVEL DO PAÍS?
No dia 28 de Abril, Mário Soares regressa a Portugal.
No dia 30 é a vez de Álvaro Cunhal.
No dia 1º de Maio, Centenas de milhares de pessoas, em todo o País, festejam nas ruas o Dia do Trabalhador, em democracia e em liberdade. "O Povo está com o MFA" será a palavra de ordem mais gritada.
O 25 DE ABRIL, 36 ANOS DEPOIS.
36 anos depois, continua a fazer sentido lembrar às novas gerações o que foi o 25 de Abril de 1974, ainda que perspectivado em termos locais.
Numa primeira parte intitulada “O REGRESSO DO RC3 A ESTREMOZ”, com recurso a fotos editadas pelo jornal ECO DE ESTREMOZ, de 30 de Abril de 1974 e a legendas do mesmo jornal, evoca-se o regresso à nossa Terra, no dia 27 de Abril de 1974, do Esquadrão do RC3, que comandado pelo Capitão Andrade Moura, tendo como adjunto o Capitão Alberto Ferreira e com a participação do 1º Sargento Francisco Brás, teve papel determinante no desfecho dos acontecimentos do 25 de Abril de 1974, em Lisboa.
A sucessão de fotografias mostra a evolução da coluna ao longo da estrada à vinda por Évora Monte, a chegada a Estremoz pelas Portas de Santo António, bem como as honras militares e a aclamação popular, junto ao quartel do Regimento.
É o nosso modesto contributo para homenagear aqueles a quem devemos a recuperação da liberdade e da democracia, o Movimento das Forças Armadas e em particular o heróico batalhão do RC3 cujo desempenho no desenrolar da acção militar foi determinante. Para eles, o nosso reconhecimento pela liberdade reconquistada.

À frente da coluna, o Comandante do Esquadrão, Capitão Andrade Moura.
A alegria da vitória, que o cansaço não conseguiu abater. De pé, o 1º Sargento Francisco Brás.

O Capitão Alberto Ferreira e os seus homens com um sorriso de satisfação.
À vista de Estremoz, a coluna em movimento. Sempre presente, o “V” da Vitória.
Aspecto parcial da coluna militar no seu regresso e com a missão cumprida.
O Comandante do Esquadrão, Capitão Andrade Moura, entra na cidade, pelas Portas de Santo António.

O Comandante do Esquadrão, Capitão Andrade Moura, entra na cidade, pelas Portas de Santo António.
À chegada, frente ao edifício do RC3: Honras Militares e Aclamação Popular.

sábado, 24 de abril de 2010

Igreja de Santo André - História dum Crime

Foto de C.J. Walowski (1891). 

“Igreja de Santo André – História de Um Crime”, foi o título de uma exposição fotográfica, que a Associação Filatélica Alentejana, levou a efeito no Centro Cultural Dr. Marques Crespo, em Estremoz, em Novembro-Dezembro de 2009. Essa exposição teve por finalidade relembrar aos mais novos, aquele que foi, sem sombra de dúvida, o maior crime perpetrado contra o património construído em Estremoz – a demolição da Igreja de Santo André, no ano de 1960. Mas foi também, uma denúncia e um libelo acusatório contra aqueles que foram responsáveis por esse crime: o regime de Salazar, então no poder e em força, pois ainda não eclodira a guerra colonial.
Os meus votos então foram no sentido de aquela exposição constituir um indicador da nossa firme determinação dum julgamento moral à revelia, daqueles que foram responsáveis por esse hediondo crime.
Vejamos em breves palavras, a história do crime que, na verdade, foi a demolição da Igreja de Santo André, em Estremoz.
Diz-nos Marques Crespo em “Estremoz e o seu Termo Regional”, que a Igreja de Santo André, de uma só nave, sete capelas e exterior majestoso, viu abater com muito estrondo a sua abobada, no dia 8 de Outubro de 1940, cerca das 22 horas e 30 minutos, não tendo ocorrido felizmente qualquer desastre pessoal. A partir daí, o culto e a actividade paroquiana passaram a ser exercidos no vizinho templo do Convento de S. Francisco. Diz-nos ainda Marques Crespo, que desde logo foram tentadas as reparações necessárias, que foram sofrendo interrupções, por serem dispendiosas.
Também o semanário regionalista “Brados do Alentejo”, na sua edição de 13 de Outubro de 1940, relata que: “No passado dia 8, terça-feira, petas 22,30 horas, foi a população de Estremoz sobressaltada por um enorme estrondo. Minutos depois, correu pela cidade a noticia de ter desabado a abóbada da nave central da igreja paroquial de Santo André, com 20 metros de comprimento por 10 de largura.
A nova causou ainda algum pânico, pois minutos antes do desabamento, tinham saído do templo os fieis que tomaram parte na devoção do Rosário. Felizmente, porém, não havia, no momento da derrocada, pessoa alguma na igreja, senão estaria Estremoz hoje de luto por muitas famílias.
A abóbada, de há muito largamente fendida, tendo desprendido dela horas antes um pedaço de caliça, estava assim desde o tremor de terra de Benavente, sendo possível ligar agora também a derrocada a um abalo sísmico quási imperceptível, pois que muitas pessoas viram na mesma ocasião em suas casas lâmpadas da iluminação eléctrica a tremer.
O estrondo foi enorme, ouvindo-se a muita distância, e da igreja erguiam-se altas e espessas ondas de pó”.
Muita prosa emocionada foi escrita desde então na imprensa local. E não cabe aqui dar conta dela. Torna-se necessário dar um grande salto no tempo. Em 3 de Maio de 1959, diz J. Barros, articulista do jornal local “Brados do Alentejo”: “Mas então vai ser demolida a Igreja de Santo André?! Ter-se-ia chegado por meio de estudos técnicos adequados à desoladora e dura conclusão de que o edifício em causa sofre de uma progressividade ruinosa à qual pouco ou nada é possível opor?
Ter-se-ia encarado o problema em todos os aspectos técnicos relacionando-os com as possibilidades financeiras de realizar as obras de consolidação e restauro bem definidas pelo estudo do assunto visando a restituição do templo ao culto religioso?
Não se pode supor que nada disto tivesse deixado de ser meditado, estudado e apreciado, pois não é de crer que semelhante resolução — se é que em verdade foi já tomada — houvesse sido a preferida entre as que se oferecessem. A ser assim, teria certamente surgido longa matéria técnica e financeira que fundamentou e justificou a dolorosa solução de demolir a condenada Igreja.
É sem dúvida custoso admitir que o templo ao que parece ora condenado, não tenha possibilidade de reparações e consolidações e que por coincidência singular, seja o local onde ele se encontra erigido, o que merece a preferência para nele construir o Palácio de Justiça.
Mas não haverá em Estremoz, na baixa da cidade, e em ponto central, outro local onde a construção do Palácio de Justiça se possa efectivar sem ter que demolir uma das maiores Igrejas da cidade, desaparecendo assim mais outro templo religioso?"
E depois disto o que se passou? Para ser rápido, há que dar um salto ainda maior no tempo. Sob o título “ESTREMOZ – A DEMOLIÇÃO DA IGREJA DE SANTO ANDRÉ E O PALÁCIO DA JUSTIÇA”, diz o “Diário de Notícias” de 5 de Outubro de 1960: “Começou a demolição da Igreja paroquial de Santo André, em pleno coração da cidade. A restauração da Igreja foi a sua morte. A nova abobada, tinha um corpo que as paredes laterais não suportavam e os técnicos verificaram depois de várias experiências que a derrocada da Igreja seria um facto sem qualquer possibilidade de evitar-se. Autorizada a sua demolição, no mesmo local se erguerá em breve o Palácio da Justiça, cuja construção se impunha, dadas as deficientes e apertadas instalações das repartições locais deste Ministério.”
A Igreja foi demolida e o Palácio da Justiça foi construído. A inauguração deste Palácio da Justiça, que como resultado do crime cometido, se deveria chamar antes, Palácio da Injustiça, foi efectuada a 3 de Abril de 1964, com pompa e circunstância pelo mais alto magistrado da Nação – modo como se designava então, eufemisticamente, o Presidente da República, Almirante Américo Tomaz.
Da inauguração, há registo fotográfico de Rogério de Carvalho. A partir daquela data, tinham impunemente imposto a Estremoz, mais um edifício cinzento e incaracterístico, símbolo de uma distorcida capacidade empreendedora do Estado Novo, que não olhava a meios para atingir os seus fins.
Estremoz ficara então mais pobre. O seu património edificado, por sinal religioso, empobrecera ao ser despojado da vetusta Igreja de Santo André, que apenas por estar ferida, foi condenada à morte, eliminada fisicamente e feita desaparecer do mapa topográfico de Estremoz, que não da memória de elefante dos mais velhos como eu ou ainda mais velhos do que eu. Nunca esqueceremos o crime cometido, nem tão pouco os que o cometeram. Os elefantes são assim.
Honra seja feita aqueles que com as armas possíveis – as palavras – lutaram com convicção e emoção, para que tal não acontecesse. Um destaque muito especial para o padre Serafim Tavares, pároco de São Francisco, homem de púlpito que soube usar a tribuna da imprensa local e foi um dos líderes da resistência ao crime que viria a ser perpetrado.
Hoje um crime destes não seria possível, porque a opinião pública, livre de peias e de mordaças, se mobilizaria em massa para o impedir. Porém, para que cada vez menos, seja possível aconteceram crimes como este, é que exposições como esta são importantes. Para lembrar aos mais novos e às gerações vindouras, aquilo que aconteceu, para alertar consciências e despertar resistências, para memória futura.
Creio que em Évora, aqui bem próximo de nós, um crime destes não teria sido possível, pois desde o primeiro quartel do século XX, mais precisamente desde 1919, que ali existe e está activo o Grupo Pro-Évora, uma Associação de Defesa do Património daquela cidade, cuja acção foi decisiva numa época em que se assistia à mutilação das características históricas mais relevantes daquela urbe. A Câmara Municipal de Évora desenvolveu, de resto, um trabalho notável, pelo que a classificação do Centro Histórico de Évora como Património Cultural da Humanidade pela UNESCO, em Novembro de 1986, foi como dizem os seus responsáveis “o corolário de um longo caminho tendente a salvaguardar o conjunto edificado da cidade intramuros”.
Neste ano de graça ou de desgraça, dependendo do ponto de vista, de 2009, Estremoz ainda não tem uma Associação de Defesa do Património, a qual como órgão independente, lidere a opinião pública, intervindo activamente na defesa do património da nossa cidade. Por isso, porque estamos atrasados no tempo, é muito difícil, se não improvável que alguma vez o Centro Histórico de Estremoz, consiga ser classificado pela UNESCO como Património da Humanidade. Oxalá me engane.
Esta exposição não teria sido possível sem a recolha por nós efectuada, no decurso do tempo, de fotografias e de postais ilustrados, expostos ampliados, em sequência cronológica, procurando mostrar a grandeza tutelar dum templo, o qual para além de local de culto, demarcava um espaço sociológico de convívio cívico que se perdeu. Para além das fotografias registadas por fotógrafos anónimos que trabalhavam para editoras comerciais de postais ilustrados no século XX, merecem especial destaque as fotografias de Wolanski (finais do século XIX - princípio do século XX) e de Rogério de Carvalho e de Tony (2º quartel do século XX), três grandes repórteres fotográficos do tecido urbano e etnográfico da nossa urbe transtagana.
Porém, o que avalizou o registo fotográfico do crime cometido, foram as fotografias obtidas por Manuel Gato, um dos sócios da extinta firma Quadrado e Gato, do Rossio Marquês de Pombal. Foi ele que com a sua elevada consciência cívica e raro sentido de oportunidade e importância de reportagem fotográfica, obteve uma sequência de fotografias, a qual relatam duma forma fria e imparcial, a demolição impiedosa de uma Igreja que era sede de Paróquia. Igreja cuja demolição efectuada em 1960, por ordens do poder salazarista, já havia sido, de resto, alvo na imprensa local, de uma crónica de morte anunciada. Esta a história do maior crime perpetrado contra o património em Estremoz.
Chegados a este ponto, julgo ser opinião unânime dos estremocenses e não só, que neste julgamento à revelia, o réu – o regime de Salazar – deva ser considerado culpado pelo horrendo crime cometido contra o património construído da nossa cidade.
A vítima – a veneranda Igreja de Santo André – nós nem ninguém a poderá restituir à sua existência física, apenas lhe poderemos reservar um lugar muito especial nas nossas memórias e relembrá-la às gerações mais novas.

Hernâni Matos

Foto de Rogério Carvalho (cerca de 1940).


Fotografia de Manuel Gato (1960).
Fotografia de Manuel Gato (1960).
Fotografia de Manuel Gato (1960).
Fotografia de Manuel Gato (1960).
Fotografia de Manuel Gato (1960).
Fotografia de Manuel Gato (1960).
Fotografia de Manuel Gato (1960).
Fotografia de Manuel Gato (1960).
Fotografia de Manuel Gato (1960).
Fotografia de Manuel Gato (1960).
Fotografia de Manuel Gato (1960).
Fotografia de Manuel Gato (1960).
Fotografia de Manuel Gato (1960).
Fotografia de Manuel Gato (1960).
Palácio da Justiça. Postal edição Câmara Municipal de Estremoz (1986).

Estremoz - Defesa do Património


Planta da fortaleza de Estremoz. Gravura aguarelada sobre papel (Séc. XVII/XVIII).
Colecção particular.


Textos que visam a defesa do património arquitectónico de Estremoz.
Para visualizar um texto, clique no respectivo título.


- Estremoz - Defesa do Património - 3 (25-09-2014)
Palácio Tocha - Quem lhe acode? - 2 (12-09-2014)
Estremoz - Defesa do Património - 2 (11-09-2014)
Estremoz - Defesa do Património - 1 (27-08-2014)
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