sábado, 20 de fevereiro de 2010

A menina quer dançar?


Apetece dizer:
- A menina quer dançar?
Eles dançavam de chapeirão, de bota cardada e calças à boca-de-sino. Elas de saia a rasar o chão, o que levava alguns homens a confessar que:

"Toda a vida me agradou
Moça de saia rasteira,
Porque pranta o pé no chão
Devagar, não faz poeira."[1]

No descanso, dava para eles enrolarem um paivante e tirar umas quantas fumaças, que isso de ser homem dá para fumar. E é sempre bom levar o varapau, que o diabo às vezes assume a forma de maltês. Também dava para elas comporem as saias à cinta, aperaltar os colares e compor os carrapitos.
Como vêem existia uma grande diferença de género.
Eu tenho uma certa pena das moças, porque os aprestos dos homens deviam ser um bocado incómodos, a menos que eles fossem ágeis e cuidadosos. De contrário, dançar de botifarras devia dar para pregar cada pisadela que fervia. Uma botas alentejanas que se prezem não são propriamente uns sapatos à Fred Astaire.
Também o chapeirão devia ser uma grande chatice, a menos que a moça fosse mais baixa.
Se a moça fosse mais alta, o chapeirão batia-lhe no peito e mantinha as distâncias, o que convenhamos era um grandessíssimo inconveniente para o homem.
Se a moça fosse da mesma altura, o chapeirão devia estar sempre a embirrrar com a cabeça dela, a menos que dançassem de cabecinha ao lado, correndo o risco de dar um jeito ao pescoço. E o dinheiro gasto na romaria já não dava para ir ao endireita.
[1] -  Thomaz Pires, António. Cantos Populares Portugueses. Typographia e Stereotypia Progresso. Elvas, 1910.

Outrora as viagens de combóio



Era uma maravilha viajar de comboio e era tanto melhor se os comboios eram a vapor, com carruagens do tempo de D. Luís e que tinham divisórias personalizadas, para onde se podia entrar de um lado e do outro. Nelas eu ainda viajei com os meus pais nos anos cinquenta do século passado, para irmos para a colónia de férias da FNAT na Caparica.
A viagem de Estremoz para o Barreiro era mais comprida que a légua da Póvoa. Havia apeadeiros e mais apeadeiros, porque era necessário servir o Zé Povo que não tinha automóvel. Só os ricos tinham automóvel, porque os outros não tinham dinheiro para o pagar e não tinham crédito, porque depois não podiam pagar, tal como hoje acontece. Só que hoje têm automóvel, não têm dinheiro, os bancos estão mais ricos e nós não temos comboios. Temos é uma grande saudade disso tudo. E é daquelas saudades que doem.
Que eu saiba, as viagens de comboio só tinham dois inconvenientes: Uma delas é que não se podiam fazer necessidades durante a paragem nas estações, por causa de não adubar a linha férrea. A outra é que os amantes da pinga como eu, tinham que ter cuidado na altura do arranque ou da travagem do comboio. Não se podia levar o copo à boca nessa altura. Quem o fizesse ficava baptizado e não era com água benta, era com tintol ou com brancol.
Certa vez, vi um passageiro anafado de corpo e vermelhusco de rosto, de certo adepto fiel e correligionário de Baco, ficar com as malfadadas marcas baptismais de tom bordeaux a conspurcar-lhe a alva camisa. Só queria que vissem a agilidade com que foi à casa de banho mudar de camisa, antes de chegar à estação onde disse a mulher o esperava. Hoje estou convencido que ele e a mulher não seguiam o mesmo culto. Se soubesse o que sei hoje, ter-lhe-ia dito na ocasião:
- Olhe amigo, diga à sua mulher que a culpa não foi sua, nem do vinho. Foi da maldita lei da inércia de Newton.

CRÉDITOS DA FOTOGRAFIA
Locomotiva a vapor número 1, Dom Luiz, de duas rodas motoras e de sete pés de diâmetro. Fotografia sem data. Produzida durante a actividade do Estúdio Mário Novais: 1933-1983. [CFT003 075602.ic] - Galeria de Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

À laia de ode ao penico




Um penico era um monumento à defecação e a sua decoração era reflexo do bom ou do mau gosto do seu utilizador - defecador.
Havia penicos para todos os gostos, desde os rasos para quem gostava de defecar agachado, até ao penico, estilo rés-do-chão e primeiro andar ou, se quiserem, tipo chapéu alto, para quem tinha prazer em fazer uma monumental defecação, sem necessidade de estar dobrado sobre si próprio.
O penico podia ter uma ou duas asas e, eventualmente, ter tampa, por motivos óbvios.
Os materiais eram os mais diversos: esmalte, faiança e loiça de barro vermelho, vidrado, do Redondo.
Estes últimos, do modelo chapéu alto, eram os preferidos por tradicionalistas como eu. É claro que muita gente não se podia dar ao luxo de ter penicos destas dimensões. Lá diz o rifão: "Albarda-se o burro à vontade do dono" e sendo a banquinha de cabeceira, o parque de estacionamento do penico, havia que adequar a volumetria deste à dimensão do seu habitáculo. Ou não houvesse necessidade de um Rolls-Royce ser recolhido numa garagem apropriada.
Por certo que o penico de chapéu alto tinha outras virtualidades. Para já mantinha uma respeitável distância entre o expulsador e o expulsado, facto que não é de desprezar, independentemente da consistência deste último. Por outro lado, a respeitável coluna de ar, entre o expulsador e o expulsado, permitia usufruir melhor a audição de sonoridades, que alguns com apetência musical muito prezavam.
Hoje, vivemos no cinzentismo da retrete estandardizada por padrões europeus, violadora da individualidade e da identidade cultural do acto de defecção. Perante tal prepotência, só uma atitude é possível: o regresso às origens, ou seja ao penico.
É preciso utilizar mais o penico, é preciso divulgá-lo e estudá-lo nas suas múltiplas vertentes, a fim de que o mesmo possa ser preservado. É preciso dedicar um Museu ao penico e torná-lo objecto de uma longa-metragem promocional. O penico deve ser cantado em verso e registado na prosa dos cronistas da actualidade. Este ressurgimento nacional do penico, recomenda a utilização de duas palavras de ordem adequadas:

- VIVA O PENICO! VIVA!
- MORRA A RETRETE! MORRA! PUM!

Historicamente, sabe-se que em tempos muito recuados se faziam os despejos para a rua, precedidos de um aviso:
“- Lá vai obra”.
Não sei se é daí que vem o termo “obrar” como sinónimo de “defecar”.
Também tenho conhecimento que pelo Carnaval, ainda no século XIX se faziam lançamentos destes sobre transeuntes, possivelmente como vingança. Se não era uma brincadeira de mau gosto, era pelo menos uma brincadeira de mau cheiro.
Depois das Aparições de Fátima em 1917 e sobretudo depois da Igreja ter reconhecido em 1930, que as aparições de Fátima eram dignas de crédito, que comerciantes com olho para o negócio, começaram a vender objectos ostentando a imagem de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, como era o caso dos penicos. Isto esteve na origem duma proibição de Salazar, quer foi bem recebida pela Igreja. Não sabemos é se os penicos foram ou não apreendidos pela PIDE.
Em França, segundo me disseram, na época da Revolução Francesa, havia o hábito de mandar estampar no fundo dos penicos, a imagem de alguém que se detestava, para o brindar com republicanas defecações.
Em Portugal, ainda hoje, quando se quer insultar alguém, apoda-se de “Cara de Penico”.
Nos meus tempos de infância, em casa dos meus familiares, se alguém tinha de atravessar com um penico aviado, uma sala onde estavam outras pessoas, dizia:
“- Com licença, que vai passar o Senhor Doutor.”
Penso que a designação de Senhor Doutor tenha origem no facto de o penico nos permitia aliviar das dores. Provavelmente, esta frase feita é uma das muitas que não é reconhecida pela Douta Ordem dos Médicos.
Se o apoio público à discussão deste tópico continuar, terá de ser convocada uma Assembleia - Geral Constitutiva da Confraria do Penico do Chapéu Alto, na qual a nossa amiga Manuel Mendes terá de ser necessariamente investida como Grã-Mestre, dado ter sido ela a inspiradora e o pivot de tão aliviante debate.
Dado que a Manuela Mendes, nos diz que os dois penicos que nos deu a visualizar, fazem parte de uma colecção mais vasta, somos levados a dizer:
“- Ah, muito me conta, muito me conta, Grã-Mestre.”
Pelos vistos e tendo em conta a sua conhecida modéstia, quando nos diz que aquelas duas vedetas penicais fazem parte de uma colecção mais vasta, julgo ser legítimo concluir que Vossa Senhoria tem um autêntico parque de estacionamento para os seus penicos de estimação.
Tendo em conta que tudo leva a crer que assim seja, julgo não ser despropositado propor à Grã-Mestre, que para nosso usufruto e grandessíssimo e republicaníssimo prazer, nos seja proporcionada uma prolongada visita guiada ao seu acervo de penicos. Naturalmente que antes disso deve tomar as devidas precauções, não se dê o caso de entre os visitantes poder haver algum cleptopenicomaníaco, que por artes mágicas ou por intervenção da pata-negra de Belzebu, lhe consiga subtrair um ou mais desses históricos troféus, que para além de serem o registo de defecações passadas, servem também para memória futura de defecações que hão de vir. E, quantas vezes a importância do Porvir não supera a do Passado?
Proponho desde já que a Grã - Mestre, como é seu timbre, prepare a visita guiada duma forma assaz cuidadosa, dada a natural delicadeza do assunto.
Assegurada que está à partida, a motivação dos visitantes, a estratégia da visita, para que seja proveitosa, não deverá ficar pelo óbvio.
Nada de superficialidades no guião, que limitem o discurso a ficar-se pela cor, pela matéria-prima ou pela decoração do penico.
Mesmo a textura, a altura e a envergadura do penico, são questões comezinhas.
É preciso ir mais além, abordar o binómio rabo-penico e reflectir sobre a interface pele - matéria prima do penico.
Igualmente importantes são questões de temporalidade tais como: “Oportunidade da defecação”, “Defecações imprevistas”, “Defecações prolongadas”. De resto, não deverão deixar de ser abordados arrebatados tópicos como “O penico de Salazar”, “Será que D. Carlos I usava penico reforçado?” ou “É verdade que Staline tinha cara de penico?”.
De resto, a natureza essencialmente pedagógica da visita guiada, impõe que esta tenha um carácter essencialmente prático. È pois desejável que cada um dos guiados, escolha o seu penico preferido e se sente nele, visando concluir se aquele penico é ou não cómodo, que é como quem diz, se aquele é ou não o penico que lhe serve, isto é, se é um penico para o resto da vida ou é apenas um penico passageiro. Recomenda-se, por outro lado, que a abordagem das sonoridades e dos odores, seja feita individualmente, de uma forma mais recatada. Na verdade, a abordagem colectiva destes tópicos, poderia ser inibidora e saldar-se mesmo por sonoridades incaracterísticas e desprovidas de musicalidade, para não dizer mesmo viscosas. Em contrapartida, as sonoridades e os odores usufruídos por cada guiado, devem ser objecto de discussão de grupo, naturalmente enriquecedora como o são todas as discussões de grupo.
Os dados estão lançados. Tem a palavra agora a Grã-Mestre.
Porém, dado o até agora fraco nível de participação no debate penical, estou temoroso de que este possa não ser suficientemente abrangente, o que poria em causa a oportunidade de constituição da Confraria. Aguardamos pois a revelação de disponibilidade incondicional de eventuais confrades.


(Do Manifesto em preparação: “Metralha Ligeira”)

sábado, 24 de outubro de 2009

O outro lado - Um exemplo de mau jornalismo

Hernâni Matos
Professor

Há por aí rapaziada que toca música ligeira, mas que dificilmente teria assento numa orquestra sinfónica.
Porquê?
A começar pela maneira como encaram e utilizam um instrumento que eu considero dever ser muito respeitável – a escrita.
As palavras devem ter conta, peso e medida.
Não se devem usar palavras a mais ou a menos, não só quando nos dirigimos a alguém ou quando alguém nos responde.
As palavras devem ter significado exacto e preciso, não devem ser ambíguas, pois apesar de serem metralha ligeira, as palavras são metralha.
Quando se pede a alguém para responder a um questionário, à laia de entrevista, não é bonito, não é ético, publicar a entrevista, fazendo um resumo desta, segundo a sua interpretação pessoal, sem autorização de quem deu a entrevista, tanto mais que ela foi pedida e dada por escrito. Entre vários motivos, porque não se deu ao entrevistado, limites nem de espaço, nem de palavras para a resposta, a não ser o limite na hora de entrega, que foi mais de 12 horas antecipada e que dava tempo para o entrevistado refazer as respostas se lhe tivesse sido solicitado.
O resumo não autorizado da entrevista respondida por escrito, ceifou toda uma série de mensagens positivas que o entrevistado pretendia fazer passar. A entrevista cortada à escovinha como cabelo de soldado raso, não é aceitável, com o argumento de ser dito à “posteriori” que as pessoas têm dado respostas curtas. O problema não é deste entrevistado, é dos outros entrevistados. Assim como é problema de imagem do jornal que mandou entrevistar e que publicou uma entrevista aparada rente. Melhor não faria a censura fascista, que não precisava de pedir licença a ninguém. Agora um jornal do Portugal Democrático, supostamente um jornal democrático, dá um mau exemplo de jornalismo, através dum bom exemplo do que é o mau jornalismo, que não respeita o texto dos outros.
Nós, que desta vez fomos O OUTRO LADO, não gostamos de posturas censórias e prepotentes como aquela que foi consumada na edição de 23 de Outubro passado. Posturas destas apenas poderão receber um comentário:
- Não passarão!

TEXTO INTEGRAL DA ENTREVISTA

1. Qual o monumento que mais gosta?
A pergunta é algo ambígua, podendo ser encarada em sentido restrito e em sentido mais ou menos amplo.
Numa perspectiva meramente local, a Torre da Menagem do Castelo de Estremoz, dominando tudo, altaneira e vigilante sobre a heróica planície alentejana, enche-me as medidas. É ela o mais forte ex-líbris desta cidade, a quem o nosso conterrâneo, o poeta Silva Tavares chamou um dia “cidade branca”, isto antes da permissividade do poder autárquico ter deixado a EDP conspurcar a alvura das nossas paredes com cabos negros que estendeu para mal das nossas necessidades energéticas. Isso conjuntamente com os ares condicionados colocados no exterior e as antenas de televisão, são os casos mais flagrantes de poluição visual que urge combater na nossa cidade, para que possa voltar a ser “cidade branca”.
Naturalmente que a Torre da Menagem do Castelo de Estremoz desperta em mim sinergias. Lembra-me a luta pela independência nacional no tempo de crise de 1383-1385, pois segundo o cronista Fernão Lopes, os partidários do Mestre de Avis, futuro D. João I, tomaram o castelo para a causa do Mestre. Lembra-me também e de acordo com o cronista Rui de Pina, que foi na alcáçova do castelo de Estremoz, que D. Manuel I investiu Vasco da Gama como almirante com a missão de descobrir a Índia, tarefa que desempenhou acompanhado por um pendão bordado por senhoras de Estremoz.
Naturalmente se encarar a sua pergunta no âmbito nacional, o monumento que mais gosto é o Castelo de Guimarães, não só pela sua arquitectura, como por estar simbolicamente associado à fundação do reino de Portugal. A minha identidade nacional teve origem ali. Não há Bruxelas ou Comissão Europeia que mo faça esquecer.
A nível planetário encanta-me o Pártenon de Atenas, na Grécia, que me faz lembrar que há dois mil e oitocentos anos, começaram naquele país, a civilização, a cultura e o pensamento ocidentais com os quais me identifico plenamente. Convém não esquecer que as tradições de justiça e liberdade individual que são as bases da democracia e da economia de mercado, nasceram ali.
2. Qual o seu herói de ficção favorito?
Realidade e ficção andam de mãos dadas e transmutam-se, numa época dominada pela realidade virtual. Daí que o meu herói seja um herói bem real. Seja-me permitida essa ficção.
A nível planetário, o meu herói é Spartacus, o escravo e gladiador que em 93 a.C. liderou uma revolta de escravos contra a classe dirigente da República Romana e que durante dois anos comandou 90.000 homens que de Roma apenas queriam a sua liberdade, o que era demais para os romanos, que por isso os massacraram com as suas legiões. Quando revejo o filme homónimo realizado em 1960 por Stanley Kubrick, visto sempre a pele de Spartacus, magistralmente desempenhado por Kirk Douglas. Sabem o que terá dito Spartacus ao morrer? – “Voltarei e serei milhões”. Acho que é o herói que melhor simboliza a luta pela liberdade, a liberdade de ser um homem livre e não um escravo.
A nível nacional, o meu herói é o Condestável D. Nuno Álvares Pereira, cuja acção foi fundamental nos tempos difíceis da crise de 1383-85, período durante o qual, fortes divisões no tecido social e político português, punham em perigo a própria identidade e independência nacional. Vencedor da Batalha dos Atoleiros, de Aljubarrota e de Valverde, o Condestável D. Nuno Álvares Pereira desempenhou um papel fundamental na resolução da crise e na consolidação da independência nacional face a Castela. Como herói ele é símbolo não só de coragem, de identidade e de independência nacional, como de desprendimento dos bens e amor aos mais necessitados. Em tempos que igualmente são de crise, é o melhor referencial de herói que se pode apresentar à Juventude.
3. Que local do mundo escolheria para viver?
Escolhi Estremoz e aqui tenho vivido. E é preciso gostar mesmo muito para aqui viver, pois por vezes não é nada fácil. É preciso resistir e lutar por tudo aquilo em que acreditamos. É preciso ter espírito de boxeur e encontrar forças dentro de nós para nos erguermos com mais força, sempre que nos atiram ao tapete. E sobretudo é preciso procurar a unidade e a convergência na acção, estabelecendo pontes entre os vários braços do mesmo rio.
4. Quem gostaria que desempenhasse o seu papel num filme sobre a sua vida?
Teria de realizar primeiro um “casting” para ver se havia actor à altura da responsabilidade do papel. Se houvesse decidiria, de contrário teria de ser eu a desempenhar o meu próprio papel. Seria decerto, argumentista, realizador e actor principal, como sou afinal na vida real.
5. Uma canção que goste de ouvir…
Sem dúvida que uma canção do saudoso Zeca Afonso, que soube conciliar como ninguém, a música popular e os temas tradicionais com a indispensabilidade de intervenção política. Como membro do clandestino Movimento Associativo da Faculdade de Ciências de Lisboa, tive o grato privilégio de conviver com o Zeca em acções de resistência ao regime fascista durante o período da crise académica de 1969 e na sequência dela. Não se esqueça que eu sou um velho esquerdista da geração do Maio de 68. Foi a luta estudantil que me deu consciência cívica e política e a canção de intervenção era para nós mobilizadora para a acção. Seria pois legítimo indicar uma canção de intervenção ao acaso, mas não o faço. Tenho necessariamente que indicar “Grândola, Vila Morena", canção composta e cantada por Zeca Afonso e cujo tema, como é sabido, versa a fraternidade entre os habitantes da vila alentejana de Grândola e que tinha sido banida pelo regime salazarista como uma música associada ao comunismo. Ora essa canção foi escolhida pelo Movimento das Forças Armadas para funcionar como segunda senha de sinalização do 25 de Abril de 1974, transmitida pela Rádio Renascença, para confirmar as operações militares. Essa canção é para mim emblemática, visto estar associada aos primórdios da Democracia em Portugal.
6. Qual a sua maior virtude?
Tenho consciência que é ser possuidor de uma inteligência transversal, incapaz de se deixar instrumentalizar e que é capaz de estabelecer pontes entre aquilo que considera ser braços do mesmo rio.
7. Qual o seu maior medo?
Talvez seja altura certa de mostrar algum humor: - “Tenho medo de acordar morto!”
8. Não me importava de me encontrar no chuveiro com…
…a minha mulher, o que já não acontece há algum tempo.
9. Com que figura histórica se identifica?
Penso que você me está a perguntar em que figura histórica me revejo. A única resposta possível, é em nenhuma, já que sou exemplar único. Todavia isso não me impede de admirar certas figuras da nossa História como tenho demonstrado ao longo da presente entrevista.
10. Um prato que come com prazer…
Será certamente um prato da rica gastronomia alentejana, que como sabe é património culinário legado pelos nossos ancestrais. É património para mastigar, para saborear e para lamber os beiços, a comer e a chorar por mais, pois barriga vazia não conhece alegrias...Por isso deve ser um prato cheio. É o nosso cancioneiro popular que diz:

“O regalo do ganhão
É comer em prato cheio,
Beber vinho, se lh’o dão,
Fumar do tabaco alheio “

11. Esqueceram-se de cobrar as sobremesas do seu almoço. O que faz?
Perguntar se me estão a querer cativar como cliente. E para terminar, remato, dizendo que é a mim como cliente, que compete dar gorjeta – essa ancestral instituição portuguesa tão antiga como a cunha.
12. Tem algum hobby? Qual?
Julgo que você esteja a pensar que seja a Filatelia. Mas olhe que não. Para mim não se trata de um passatempo, mas de um ciência auxiliar da História. E fique sabendo que é pelo rigor e pela qualidade da minha intervenção e pesquisa pessoal que integro o Bureau da Comissão de Inteiros Postais da Federação Internacional de Filatelia, em cuja estrutura sou de momento o único português.
13. Qual a compra mais cara que fez?
Ainda não fiz. Como sabe, o dinheiro está caro e a altura é de crise.
14. Qual o seu acessório imprescindível?
Uma perna artificial que tem conhecido sucessivas versões desde que a uso há 45 anos ou seja desde os 18.



domingo, 13 de setembro de 2009

Pintura de Maria Helena Alves


Exposição retrospectiva de trabalhos seus, patente ao público de 12 de Setembro a 25 de Outubro, na Sala de Exposições do Centro Cultural Dr. Marques Crespo, na Rua João de Sousa Carvalho, em Estremoz.
A Exposição pode ser visitada, de 3ª feira a sábado, entre as 9 e as 12,30 horas e entre as 14 e as 17 horas.A iniciativa é da Associação Filatélica Alentejana e conta com o apoio da Câmara Municipal de Estremoz.

Reformada como professora aos 65 anos, que não da vida, Maria Helena resolveu começar a pintar com aquela belíssima idade. Onze anos depois, disponibilizou-se, mediante insistência de amigos, a fazer uma exposição retrospectiva de trabalhos seus.
Maria Helena é natural de Estremoz, onde os seus pais trouxeram a este mundo 11 filhos, cada um dos quais seguiu o seu percurso individual. A Maria Helena ao longo da sua vida, viria a ser professora do 1º, 2º e 3º ciclo, acarretando sempre consigo os genes da família Alves, que nos legou nomes ligados aos mais diversos âmbitos das Artes Plásticas: Armando Alves (primo), Aníbal Alves (irmão), Carlos Alves, Jorge Alves, Rui Alves e Miguel Alves (sobrinhos).
Maria Helena sempre gostou de desenhar e habituou-se a transportar consigo um bloco ou um papel onde ia rabiscando tudo aquilo que considerava interessante. Foi assim que começou a desenhar.
Quando aos 65 anos se reformou, fez contas à vida e resolveu arranjar uma actividade que lhe preenchesse o tempo e que simultaneamente lhe proporcionasse o convívio com outras pessoas. E como sempre se interessara pelas Artes Plásticas, decidiu que haveria de pintar. Procurou então quem a pudesse ensinar. Através de uma amiga, conheceu o professor Camol de Évora, cujas aulas começou a frequentar aos 66 anos. Ali começou a pintar a óleo sobre tela com motivos à vista ou a partir de fotografias por ela tiradas. Mas não ficou por ali. Mais tarde, começou a ter aulas de desenho e pintura com a professora Teodolinda Pascoal na Galeria Teoartis, em Évora, onde passou a ir novamente uma vez por semana, mas trocando agora a pintura a óleo, pela pintura a acrílico, por causa do cheiro.
No princípio fez cópias de trabalhos de grandes pintores, os quais admirava, afim de aprender as técnicas das suas pinceladas, bem como as cores e os motivos utilizados. Sempre se interessou pelo período impressionista e dentre os pintores deste ciclo, destaca Monet e Van Gogh. Deles efectuou várias cópias, assim como de outros como Renoir, Cezanne, Turner, Degas, Berthe Morissot e Klimt Muitas vezes substituiu os materiais usados pelos pintores, os óleos por pastel ou aguarela ou vice-versa. Pensa ter aprendido bastante com as experiências que então foi levada a empreender.
Maria Helena dispersa-se pelas múltiplas modalidades da pintura, já que é muito curiosa e tudo gosta de experimentar, o que a conduz a não se especializar em nada, em particular.
No que respeita a temas, enquanto pintou a óleo, Maria Helena centrou-se na pintura de montes alentejanos, paisagens e naturezas mortas ou com o modelo à vista ou partindo de fotografias que ia tirando. Na pintura a acrílico, também se baseia em fotografias, que podem ou não ser suas. O desenho é à vista ou de modelos no atelier ou obtidas em saídas à rua. Por vezes estes desenhos são um ponto de partida de futuras pinturas.
A paisagem e as naturezas mortas constituem um tema dominante e transversal às modalidades de Artes Plásticas que cultiva. A sucessão porque as começou a cultivar foi: desenho, óleo, acrílico, aguarela e pastel de óleo ou seco. Presentemente e tirando a pintura a óleo que abandonou pelo motivo apontado, todas as restantes modalidades coexistem, já que Maria Helena é incapaz de se confinar a uma única e sente necessidade de mudar para não se desmotivar. Apesar de tudo, a pintura a acrílico é dominante e impõe-se em relação às restantes. Se por um motivo de força maior fosse forçada a ter que optar por uma única, talvez escolhesse o desenho e o pastel que, no fundo, também é desenho.
Para Maria Helena, desenhar ou pintar é uma forma de perpetuar, a seu modo, a sensação especial e espacial, que encontra numa paisagem, numa taça de fruta ou numa simples flor recolhida à beira do caminho. Quando desenha ou quando pinta, sente muita satisfação ou, por vezes, frustração quando acha que não consegue exprimir aquilo que vê.
Gosta muito das cores primárias e nestas tem preferência pelo amarelo, ainda que isso tenha que ver com o motivo. Em contrapartida, nunca utiliza o preto. Em relação aos materiais, está agora a utilizar mais o acrílico, visando aperfeiçoar esta técnica.
O actor central da sua pintura é unicamente aquilo que vê, já que não se aventura pelo domínio do abstracto, uma vez que segundo diz, precisaria não só de muito mais escola, como também de talento, que modestamente diz não possuir.
Continua a frequentar a Teoartis, pois o convívio com colegas é para si um incentivo ao trabalho. Se ficar em casa, há sempre mil e um motivos que lhe roubam o tempo e tiram a vontade de pintar. No entanto, durante as férias, com mais tempo livre, é com imenso prazer que se dedica mais à pintura.
Maria Helena não se considera uma artista plástica, mas apenas uma pessoa que ocupa os seus tempos livres com várias actividades, das quais ressalta a pintura. É uma insatisfeita com o seu trabalho e diz ter uma perfeita noção do que ele vale. Tem prazer no que faz e isso basta-lhe. Segundo ela, tudo se aprende fazendo e só tem pena de ter começado tão tarde e de saber que não lhe vão restar muitos anos para aprender mais, de modo a conseguir sentir-se mais segura naquilo que faz. Aprendizagem, descoberta e experimentação são na sua óptica, passos essenciais para progredir na pintura.
Ao contrário do que acontece nalguns casos, Maria Helena nunca teve professores ligados às Artes Plásticas, no Ciclo, no Ensino Secundário e durante a sua formação académica, que a influenciassem nessa área e que tivessem desempenhado um papel marcante em relação a ela.
Se tivesse que se situar numa corrente artística ou numa escola artística, diz que seria realista, uma vez que não se consegue afastar daquilo que vê.
Quanto aos artistas plásticos nacionais que mais aprecia, destaca os nossos conterrâneos Rogério Ribeiro e Armando Alves, bem como Vieira da Silva, Manuel Ribeiro de Pavia e Cipriano Dourado. Estrangeiros, para além dos citados, também Manet, Goya, Miguel Ângelo, Velasquez, Vermeer e muitos, muitos outros.
Maria Helena é uma eterna insatisfeita com tudo aquilo que faz, pelo que de tempos a tempos sente necessidade de se testar. Daí a importância que confere às exposições. Afasta então a insegurança que diz sentir dentro de si e aceita ouvir a opinião franca dos outros, na plena convicção de que seja sempre uma opinião crítica, que lhe permita aperfeiçoar o seu trabalho.
Ainda que não tenha presente na sua memória, todas as exposições em que participou, nem datas, nem locais, sempre nos conseguiu dar algumas indicações. Assim, as Exposições Colectivas aconteceram pelo menos na Galeria do Inatel (Évora), na Galeria Teoartis (Évora), na Sociedade Recreativa e Popular Estremocense (Estremoz) e na Biblioteca Municipal de Sousel. Já as Exposições Individuais tiveram lugar na Biblioteca Municipal do Redondo e no Até Jazz Café (Estremoz), bem como esta agora no Centro Cultural, à qual outras decerto se seguirão, pois a Maria Helena não é mulher para estar parada.

domingo, 14 de junho de 2009

Homenagem ao Alentejo

Teve lugar no passado sábado, pelas 18 horas, a inauguração da Exposição “HOMENAGEM AO ALENTEJO – Desenhos de Manuel Ribeiro de Pavia”, que até dia 24 de Agosto, estará patente ao público na sala de Exposições Temporárias do Museu Municipal de Estremoz, a qual contou com a presença do Presidente da Câmara, José Alberto Fateixa e do Vereador do Pelouro da Cultura, João Carlos Chouriço, que falaram das apostas culturais do Município. A importância da Exposição leva a que nos debrucemos sobre a figura e a obra de Manuel Ribeiro de Pavia.


Manuel Ribeiro nasceu em Pavia, concelho de Mora em 19 de Março de 1907, filho de uma mulher chamada Pertronilha, que o desprezou, tendo sido criado por uma tia chamada Cardosa. O pai, Paulino Ribeiro foi para Beja, onde casou e a mãe foi para Évora, onde também casou.
Manuel Ribeiro teve irmãos, mas filhos de outros pais. Viveu uma infância e uma juventude marcada por extrema pobreza e em 1929 foi para Lisboa, onde se dedicou ao desenho, à ilustração e à aguarela, tendo ilustrado sobretudo livros de escritores neo-realistas como Alves Redol, Manuel da Fonseca, Fernando Namora, Antunes da Silva e outros, vindo a tornar-se ele próprio um dos maiores valores do neo-realismo português, no campo das artes plásticas.
Não esquece as origens e agrega ao seu nome o nome da sua terra natal: Pavia. Manuel Ribeiro de Pavia, assim ficará para sempre conhecido na História da Arte.
Diz-nos Manuel Augusto Araújo no número especial da revista Vértice, de Maio de 1957, dedicado a Manuel Ribeiro de Pavia:
“A aldeia é pequena para os seus sonhos de artista. Vai muito novo, com dezanove anos, para Lisboa. É a capital da sua pátria, uma aldeia da Europa com os horizontes entaipados pelo botas que, de S. Bento, vigia Portugal e colónias para os dar a saque a meia dúzia de oligarcas que não se fazem rogados.
Chega a Lisboa com os olhos e memória apinhadas pelas paisagens e as gentes do seu Alentejo, e uma funda raiva contra as injustiças sociais, a exploração desenfreada que varre as planícies queimadas por sol mediterrânico, que reencontra, com outro formato na cidade. Exalta-se contra a exploração e a repressão política, cancro de mil caras que está por todo o lado a garrotear o seu país. Mal que deve, tem que ser estripado. Entra para o Partido Comunista empurrado pelo generoso desejo de contribuir para essa luta. Vivem-se dos tempos mais duros da sempre dura ditadura salazarista.”
De Manuel Ribeiro de Pavia, disse o crítico e pintor Mário Dionísio no catálogo da “Exposição Manuel Ribeiro de Pavia: capas ilustrações gravuras” que percorreu o país em 1976:
“O retrato dum indivíduo franzino, de olhar irónico e sorriso inquietante, frequentemente agreste, azedo, mordaz, que um belo dia apareceu nos cafés e nas salas de exposição de Lisboa, vindo não se sabe bem de onde, de que aldeia ou montado (só mais tarde se assinou Pavia), mas certamente do mais fundo e anónimo do povo (toda a bagagem: um lápis e um pincel de aguarela) para contar à capital essa dor e essa ansiedade de séculos.”
Manuel Ribeiro de Pavia, participou em quase todas as Exposições Gerais de Artes Plásticas (EGAP), promovidas anualmente pela Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA), em Lisboa, entre 1946 e 1956, com excepção de 1952, ano em que as instalações estiveram encerradas pela PIDE.
As EGAP eram organizadas pelo Movimento de Unidade Democrática (MUD), visando promover "uma fusão de géneros e de correntes estéticas", "expressões diferentes, mas solidárias de um Homem, que tem estado separado, incompleto, despedaçado e busca agora ansiosamente o caminho da sua integração".. Pretendiam ainda "aproximar a arte do povo" e levar ao povo "uma mensagem de amizade e de solidariedade". Estes propósitos inscrevem-se inteiramente no ideário neo-realista e as EGAP, sobretudo as duas primeiras, constituem o apogeu da afirmação neo-realista nas artes plásticas em Portugal.
O principal alicerce do neo-realismo era a ideia de que a arte deve "exprimir a realidade viva e humana de uma época", "exprimir actualmente uma tendência histórica progressista", tendo em conta que "formas novas podem ter um significado velho" e "formas velhas - ainda que excepcionalmente - podem conter um significado moderno e progressista.", o que defendia o jovem intelectual Álvaro Cunhal nas páginas de O Diabo, em 1939.
As EGAP constituíram a principal contraposição à política cultural de António Ferro e às Exposições de Arte Moderna do SNI. A I EGAP foi um êxito, inclusive junto da crítica mais reaccionária, que não se apercebeu das reais intenções de intervenção política dos participantes. O êxito das exposições consolidou-se na II EGAP, quando no dia 8 de Maio de 1947, o Diário da Manhã, órgão do regime salazarista, proclamou o carácter revolucionário da mesma, o que provocou a intervenção do Governo, que enviou à SNBA o próprio Ministro do Interior, Cancela de Abreu, acompanhado pela PIDE. Desta operação resultou a apreensão de obras de vários artistas, entre os quais, Maria Keil, Júlio Pomar, Lima de Freitas, Avelino Cunhal e Manuel Ribeiro de Pavia.
A partir daqui as EGAP foram submetidas a censura prévia, o que na terceira destas exposições levou à cisão com os surrealistas, que recusaram submeter as suas obras a censura. As últimas exposições já não tinham a mesma força e significação das primeiras, o que levou ao seu termo em 1956, com uma retrospectiva. O grande mérito das EGAP foi o facto de terem conseguido levar de uma forma irreversível, quase todos os artistas para a oposição ao regime.
Ao longo de dez anos passaram pelas EGAP, 282 artistas e 2764 obras, dos quais se destacam Júlio Pomar, Vespeira, Avelino Cunhal, Ribeiro de Pavia e Lima de Freitas.
O tema mais frequente nos desenhos e aguarelas de Manuel Ribeiro de Pavia é o Alentejo e os seus camponeses, balançando a expressão entre o lirismo, sobretudo na figuração da Mulher e a agressividade da denúncia social. Para Manuel Ribeiro de Pavia não se tratava apenas de pintar. A arte tinha a seu ver uma função social: “Todo o artista deve (e tem) de ser um criador activo, isto é, um colaborador actual interessado no conjunto das funções sociais. O que pretende expressar deverá ir além das particularidades da sua vida afectiva ou intelectual, e comparticipar na aventura quotidiana, numa familiaridade constante com os restantes indivíduos”. Para ele “Todo o verdadeiro artista é um transformador de energias e como tal a obra de arte nunca poderá ser um acto gratuito” (Entrevista ao jornal “Ler” nº 7/Outubro de 1952).
Manuel Ribeiro de Pavia foi um dos maiores, senão um dos maiores expoentes do neo-realismo visual português, que sofreu por um lado a influência do neo-realismo literário (Alves Redol, Manuel da Fonseca, Fernando Namora) e por outro lado a influência do muralismo mexicano (Orozco, Rivera e Siqueiros) e do brasileiro Portinari.
De Manuel Ribeiro de Pavia, disse o crítico e historiador de Arte, José Augusto França, em 1973:
"Nunca tendo podido realizar sonhos de pintor mural, dentro dos esquemas estéticos do neo-realismo, em que ideologicamente se enquadrava, Pavia deixou larga obra dispersa de guaches a desenhos".
Diz-nos Manuel Augusto Araújo no número especial da revista Vértice, de Maio de 1957, dedicado a Manuel Ribeiro de Pavia:
“Não escondia a nostalgia que lhe provocava o desejo de avançar para a pintura mural. É uma evidência que continua e ficará sempre impressa em muitas das suas obras. Da cidade, outros personagens entram nos seus registos artísticos. Uma grande maioria da sua obra continua a ser feita para trabalhos gráficos. Capas, ilustrações de livros, em que se destacam as feitas para vários livros de Alves Redol e um álbum de 15 desenhos ”As Líricas” com texto de José Gomes Ferreira. São centenas de trabalhos, desenhos, aguarelas, guaches que não pára de fazer. Quando morre, no seu quarto atelier de uma pensão da rua Bernardim Ribeiro, “havia desenhos por toda a parte. Sobretudo em pastas e gavetas. Raparigas nimbadas de sol e ternura, adolescentes deslumbrados e esquecidos de jogos, mulheres desiludidas com os olhos enterrados nas mesas dos bares, prostitutas que guardavam um sorriso cheio de província, camponeses sedentos e sem nenhuma espécie de sonho no rosto a não ser a de justiça, mães acariciando o filho nos braços, e que são as mais belas mulheres que Manuel Ribeiro de Pavia reinventou, e mais raparigas com luas e estrelas e flores nos cabelos e no céu.” escreverá Eugénio de Andrade em Adeus a Manuel Ribeiro de Pavia” , publicado no jornal Avante, de 2 de Agosto de 2007.
O conjunto da sua obra foi exposto no ano seguinte pela Sociedade Nacional de Belas Artes, numa justíssima homenagem ao artista que nunca será esquecido.
Na pintura colectiva com que em 10 de Junho de 1974, os pintores portugueses exaltaram a liberdade alcançada no 25 de Abril, alguém escreveu no último dos 36 quadrados, em que estava dividida a pintura: AQUI ESTARIA O PAVIA SE O 25 DE ABRIL VIESSE QUANDO DEVIA.
Parte da sua obra está reunida na Casa - Museu Manuel Ribeiro de Pavia, em Pavia.
Acerca da morte de Manuel Ribeiro de Pavia, a 19 de Março de 1957, no seu quarto-atelier, numa pensão na Rua Bernardim Ribeiro, disse o poeta José Gomes Ferreira (1900-1985), no livro “Imitação dos Dias”, dado à estampa em 1966:
"Final.
E lá ficaste no Alto de S. João, Manuel Ribeiro de Pavia, onde, por mais que me esforce, não consigo ver-te deitado como os outros mortos... Mas de pé!Foi aliás em lembrança dos homens de raiz inteira como tu, Manuel Ribeiro de Pavia, que nos cemitérios se plantaram ciprestes, direitos, erectos, firmes... E solitários, também. Sozinhos. Como tu. Na morte e na vida.Tu que tiveste a coragem de transportar, desde a infância, essa tremenda solidão que nunca transformaste em bandeira de angústia e desespero, mas na mão quente dum protesto de dádiva completa contra os dominadores e pitosgas do mundo, diante dos quais nunca dobraste a espinha – Manuel Ribeiro de Pavia."

Foi esta verticalidade que me levou ali aquela Exposição “Homenagem ao Alentejo”, em boa hora promovida pelo Museu Municipal, com o apoio do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Estremoz. Estas entidades estão de parabéns pela qualidade da iniciativa, que é também um justo tributo de reconhecimento ao mérito da Obra de Manuel Ribeiro de Pavia.